domingo, 28 de dezembro de 2008

O futuro é espaço

Nesta passagem de ano, em que o tempo nos ronda a todos, quando decidimos o que abandonar em 2008 e o que conservar e criar em 2009, quando fazemos planos e sonhos e músicas e laços para o próximo ano, desejo a todos vocês um 2009 de coragem, tolerância, amor, fantasia e saúde, ao mesmo tempo em que lhes ofereço este poema de Neruda, sobre o futuro. Feliz Ano-Novo!!!

El futuro es espacio

El futuro es espacio,
espacio color de tierra,
color de nube,
color de agua, de aire,
espacio negros para muchos sueños,
espacio blanco para toda la nieve,
para toda la musica.

Atrás quedó el amor desesperado
que no tenía sitio para un beso,
hay lugar para todos en el bosque,
en la calle, en la casa,
hay sitio subterrâneo y submarino,
qué placer es hallar por fin,
subiendo
un planeta vacío,
grandes estrellas claras como el vodka
tan transparentes y desabitadas,
y allí llegar con el primer teléfono
para que hablen más tardes tantos hombres
de sus enfermedades.

Lo importante es apenas divisarse,
gritar desde una dura cordillera
y ver en la otra punta
los pies de una mujer recién llegada.
Adelante, salgamos
del rio sufocante
en que con otros peces navegamos
desde el alba a la noche migratoria
y ahora en este espacio descubierto
volemos a la pura soledad.
[Pablo Neruda. Memorial de Isla Negra. Buenos Aires: Editorial Planeta Argentina, 1992. Edição original: 1964]

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal na Ilha do Nanja


Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas.

Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos próprios" e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim. Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.

Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: "Boas Festas! Boas Festas!"

E ninguém pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!

Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.

Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.

É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.

[Cecília Meireles, "Natal na Ilha do Nanja", in: Vários autores. Quadrante 1, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966.]

domingo, 21 de dezembro de 2008

José Paulo Paes




Ele sempre foi um dos meus poetas preferidos, daqueles que a gente nunca se cansa de reler, redescobrir. Sua palavra precisa, seu domínio do verso, seu poder de concisão, habilidades a cada livro mais afiadas e refinadas, sobretudo seu humor e seu olhar irônico, cético, crítico e ético do mundo — olhar cada vez mais pessoal — me conquistaram para sempre. Agora, quando a Companhia das Letras está lançando sua Poesia Completa, volto com todo o prazer a falar dele e a mostrar um pouco de sua poesia.
José Paulo Paes sabia residir na concisão a essência do poema. Ele a foi perseguindo e conquistando, e produziu maravilhas como estas, sobretudo a partir de Calendário perplexo (1983):

Poética

conciso? com siso
prolixo? pro lixo

Epitáfio para um sociólogo
deus tem agora
um sério concorrente


Celebridade
Eu sou o poeta mais importante
da minha rua.
(Mesmo porque a minha rua
é curta.)


Sucessão

o concretismo está morto
viva a poesia
concreta

Múltiplo, escreveu também poemas longos, assim como deliciosos, inventivos poemas para crianças, reunidos em vários livros. Foi crítico literário de alto nível. Foi também excelente tradutor — aprendeu grego somente para traduzir do original os poetas da Grécia que amava, sobretudo os modernos, como Kaváfis, que difundiu pelo Brasil, ao lado de outros importantes escritores de outras partes, como Williams Carlos Williams, Rainer Maria Rilke, Edgar Allan Poe, etc. Talvez por isso seja um dos raros poetas a valorizar tradutores:
Do Evangelho de São Jerônimo
A tradução — dizem-no com desprezo — não é a mesma
coisa que o original.

Talvez porque tradutor e autor não sejam a mesma pessoa.

Se fossem, teriam a mesma língua, o mesmo nome, a mes-
ma mulher, o mesmo cachorro.

O que, convenhamos, havia de ser supinamente monótono.

Para evitar tal monotonia, o bom Deus dispôs, já no dia da
Criação, que tradução e original nunca fossem exata-
mente a mesma coisa.

Glória, pois, a Ele nas altura, e paz, sob a terra, aos leito-
res de má vontade.


Aproximou-se dos modernistas e concretistas, porém, com exceção do primeiro livro (muito inspirado em Drummond), não se deixou influenciar excessivamente, no sentido de permitir o abafamento de sua voz, por quaisquer tendências literárias. Seu compromisso era com a qualidade da poesia. Homem de esquerda, porém sem se filiar a partidos, foi crítico — indignado no início, irônico depois —, da mercantilização excessiva e da exploração, da sociedade de consumo, enfim, assim como defensor da ética. Escreveu poemas de amor para a mulher, Dora, companheira da vida toda.

Madrigal
Meu amor é simples, Dora.
Como a água e o pão.

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.


Cena Legislativa

Primeiramente condenou-se a pomba
Por amar uma paz entorpecente
Onde o leão perde a juba e a hiena os dentes.

Depois, condenou-se o cordeiro
A perigosa dúvida que o anima.
O rio dos lobos corre sempre para cima.

Condenou-se a cigarra, finalmente.
Pelo crime de cantar nas horas vagas.
Que a faina das formigas não tem paga.

Consolidada a ordem, festejou-se.
E o leão rugindo, a hiena rindo,
Os trabalhos foram dados por bem findos.

Tomar: mutatis mutandis

a capela dos templários em tomar é tão grande quanto o
palácio de herodes e nela os cruzados assistiam à missa
montados em seus corcéis.
a sinagoga de tomar é tão pequena quanto uma estrebaria
onde só houvesse lugar para uma vaca um burrinho e
um recém-nascido.

Nascido em 1926 em Taquaritinga, interior de São Paulo, José Paulo Paes mudou-se aos dezenove anos para Curitiba, a fim de estudar química industrial. Inspirado talvez pelo avô tipógrafo, nessa época já demonstrava amor pela literatura: ligou-se aos intelectuais de Curitiba (1945-49), colaborando na revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan, e publicando suas poesias no livro O aluno (1947). Na cidade de São Paulo, onde viveu de 1949 até falecer, em 1998, trabalhou como químico e, a partir de 1963, como editor da Cultrix. Nos últimos dez anos de vida, aposentado, dedicou-se integralmente à literatura, produzindo muito como poeta, crítico e tradutor, e reunindo em torno de si um círculo fiel de intelectuais amigos, com quem adorava dialogar. Foram seus anos de alforria, como gostava de dizer. Publicou muito ao longo da vida, destacando-se, em poesia, seus livros Meia palavra (1973), A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988) e Prosas seguidas de Odes mínimas (1992). De saúde frágil, nos últimos anos de vida teve uma perna amputada; sobre este assunto, escreveu:
À minha perna esquerda


Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.

Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas
do mundo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Os (novos) rumos da história

Bruce Corbitt, Transformation

Ano-novo se aproximando, e neste momento mágico do calendário, quando um tempo se esvai e outro ainda não começou, sinto uma vontade incontrolável de mudar, transformar, revolucionar, criar. Abandono medo e culpa, faço planos ousados para o futuro, antevejo revoluções, incêndios, jardins, motins, alpinismos, colos, viagens exóticas, conquistas, vales perdidos, olho no olho do amor, do diabo, da trapaça, da revelação...

Um laivo de realismo, algum fio de bom senso me levam a começar pelo pequeno: que tal mudar primeiro este blog, construído na cara e na coragem neste ano que se finda, quando eu era completamente analfabeta em todo e qualquer aspecto da blogosfera, e, numa vertigem, me joguei neste mundo virtual que agora, analfabeta apenas funcional, e louca de paixão não abandono mais por nada deste mundo? Gostei do tom amarelado que primeiro escolhi para o blog, parecia-me sóbrio, lembrava-me os velhos livros de meu pai, e também do marrom de suas vinhetas, capazes de me transportar a tintas de antigos tinteiros que nem sei se existiram. Mas este enredosetramas ficou foi ruim demais de ser lido, atravancado, com letras juntinhas, sem ar, luz nem espaço... E, ainda por cima, o Bernardo, em quem eu me apoiava porque tinha um blog do mesmo modelo do meu, de repente abandonou o barco, digo, o blog, mudando o dele!

Sabem de uma coisa? Se meu blog continuar assim, amarelo-livro-velho e marrom-tinteiro, daqui a pouco vai atrair teia de aranha e cheiro de creolina, por mais que eu me esforce para apresentar conteúdo atual, instigante, interessante, até mesmo sexy, fizer strip-tease, etc. Sabem de outra coisa? Revoluções começam em casa! Aux armes, citoyens!

Pronto, já fiz. Mudei o visual. Espero que gostem. Com o tempo deve ficar melhor, porque aos poucos irei aprimorando fontes e cores. Se não gostarem, vocês e eu estaremos lascados, porque eu não tenho a mínima idéia de como voltar ao visual anterior. Mas me conformo pensando que as mudanças da história nem sempre são para melhor, he he
ÓTIMO ANO-NOVO A TODOS!!!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Florbela Espanca:os sentimentos expostos

[Este post integra a blogagem coletiva sobre Florbela Espanca proposta por Flor para hoje, 8 de dezembro, aniversário da grande poeta portuguesa. Descobri Florbela na adolescência, permanecendo desde então fiel à sua total falta de vergonha em expor, gritar, vociferar, uivar seus sentimentos ao mundo, inclusive os mais secretos e menos aceitos socialmente, em versos construídos com maestria. Creio que todos temos vontade de, vez ou outra, berrar ao mundo o quanto sofremos, o quanto nos sentimos sozinhos, abandonados, tristes, revoltados, inseguros, sem amor, auto-estima nem vontade de viver... Florbela diz isto por nós, com uma verdade e um despudor difíceis de alcançar. Seu grande tema é o amor irrealizado.]

Filha ilegítima, juntamente com seu irmão Apeles, de João Maria Espanca e da criada Antónia da Conceição Lobo, Florbela Espanca (1894 -1930) e seu irmão Apeles foram registrados como filhos de pai desconhecido. Contudo, ambos foram educados pelo pai e pela mulher dele, Antónia da Conceição Lobo. Estudante em Évora e acadêmica de Direito em Lisboa, Florbela ligou-se a movimentos literários e feministas, pulicando textos em revistas e jornais e dois excelentes volumes de poesias, Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923). As desilusões da vida amorosa — casou-se e se separou 3 vezes —, o intenso sofrimento devido à morte de seu adorado irmão Apeles, ao lado de sérios problemas de saúde conduziram a poeta a uma profunda depressão. Morreu aos 36 anos de idade, oficialmente de edema pulmonar. O pai a perfilhou só 19 anos após a morte dela, quando da inauguração de um busto de Florbela em Évora. Postumamente foram publicados outros livros da poeta, como Charneca em flor, além de diversos volumes de suas cartas.

Para ilustrar a poesia de Florbela Espanca, escolhi estes dois sonetos:

Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!

...Não 'stendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela,a soluçar...

Amar

Amar!Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Escrever por prazer

Caricatura daqui

Uns escrevem para se expressar, outros para se suportar, outros para ensinar... Mil são as motivações para escrever. Alguns escrevem para divertir, a si mesmos e aos outros: escrevem por prazer. É o caso de Bernardo Guimarães e Maria Judith Ribeiro, no livro Morte Abjeta (Salvador, 2002, edição dos autores). O próprio Bernardo, em seu blog, explica o livro:

"Maria Judith Ribeiro é minha amiga desde os anos 70. Em 72 namoramos e acho que não nos suportamos mais que seis meses e decidimos ficar amigos, que era mais negócio, se bem que ela nunca engoliu a história de Tuca, a namorada que veio em seguida; ficou por aí algo meio que mal resolvido. Até hoje a menção da palavra Tuca lhe causa reações inesperadas, como se mijar em publico ou me esbofetear se minha cara-de-pau (SIC) estiver a seu alcance. Nunca perdemos contato, apesar de serem sempre entremeados de acusações mútuas, recheadas de carinho. Maria sempre gostou muito de escrever, escrevia cartas de verdade, mandadas pelo Correio e tudo. Depois passou, não sem certa dificuldade devida à baixíssima coordenação motora, para o teclado e e-mails. Um belo dia recebi um desafio de responder, como se verdade fosse, a um texto que me enviaria no dia seguinte. E recebi. Ela me avisava que, ao retornar de suas férias, teria sido testemunha de um assassinato no seu lugar de trabalho. Respondi com minhas preocupações e a partir daí e por quase dois anos, passamos a nos corresponder até concluir o "caso". Quando recebia seu e-mail, Vera lia e gargalhava com as maluquices em nossa troca de textos e insistia em que devíamos publicar para que outros também pudessem rir. Foi assim que nasceu "Morte Abjeta", o livro.”
Gente, o livro é de chorar de rir. Os dois autores são engraçadíssimos, cheios de imaginação, anarquizam o tempo todo um com o outro, criam situações inusitadas, rocambolescas... e a gente não consegue parar de ler! Tem de tudo: morte abjeta (nojenta!), São Fudêncio, piadas, depoimento de gaúcho machão sobre homossexual sergipano, gozações mis com quase tudo (incluindo determinados aspectos da veneranda Justiça), acertos de contas com o passado, xingamentos, causos cabeludos e carecas... tudo isso ao tempero baiano. Eu me diverti muito — e como estava precisando! Tive a nítida sensação de que os autores se divertiram mais ainda. Valeu, gente, obrigada!
Passei por uma experiência parecida com a de Bernardo e Judith. Com mais nove autores, escrevi A Nave de Noé (Rio, Editora Record, 1999), livro todo de e-mails (como Morte Abjeta), dedicado ao público adolescente. A internet estava então começando a se espalhar pelo Brasil, e nós, um grupo formado por irmãos e primos residentes em diversas partes do país, alguns deles escritores, outros leitores contumazes, passamos a trocar e-mails entre nós. Trocamos tantos que, meio sem sentir, aos poucos fomos construindo o que depois se tornou o livro. Cada um criou e assumiu um personagem — eu, por exemplo, era a Janinha Sherlock —, que ajudava a desvendar (outra semelhança com Morte Abjeta) um grande mistério, em meio a aventuras, romance e muito humor. O livro foi feito assim: um de nós mandava um e-mail para o grupo todo, como se fosse o personagem do livro, e outro personagem respondia, fazendo a ação girar. Posso dizer que nunca me diverti tanto ao escrever. Escrever por prazer e para dar prazer é bom demais!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O velho Machado sabia


[Tenho a impressão de que Machado de Assis, no final de sua vida e da obra, sabia tudo que é possível a um homem saber sobre a existência. Ao ler sua imensa (nos dois sentidos) obra, me delicio sempre com a cultura, imaginação, estilo, perspicácia do autor... Sabia tudo, realmente. Abaixo, pequeno trecho de um ensaio onde Machado apresenta, com simplicidade, sua sugestão para o difícil, perene dilema do regionalismo X universalismo em literatura:]


“Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre do tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um "scotticismo" interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.”

"Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade", publicado originalmente em "O Novo Mundo", 24/03/1873.
Obra Completa de Machado de Assis,Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994]

sábado, 29 de novembro de 2008

Amor começa tarde

[Foto daqui]

[Aos meus jovens amigos apressados e aos meus maduros amigos desencantados]

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
[Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia]

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

I am fine

Amigos, leiam por favor este texto.

domingo, 16 de novembro de 2008

Rosalia de Castro


Filha de uma fidalga solteira e de um padre, Rosalia de Castro (Camiño Novo, 1837- Padrón,1885, ambos na Galícia) foi criada pelas tias paternas e depois pela mãe, com quem se mudou para Santiago de Compostela. Aí se educou e se ligou aos movimentos nacionalistas, que reivindicavam a autonomia da Galícia frente à Espanha e o respeito à cultura local. Uniu-se também a socialistas e republicanos. Casada com o intelectual Manuel Murguía, teve filhos e morou em várias cidades espanholas, até fixar-se na sua amada Galícia, onde morreu. Rosalia —pronuncia-se “Rosalía” — de Castro escreveu com sentimento sobre diversos acontecimentos de sua vida, como sua origem, os filhos que morreram, o casamento, a situação da mulher.
Seu livro Cantares gallegos, editado em 1863, época em que o galego já era considerado idioma ágrafo, sem escrita, foi a primeira obra moderna publicada em galego. “Ela foi a primeira a dar nome às nossas coisas”, costumam dizer os galelos, hoje. Vários poemas de Rosalia, baseados em trovas e canções populares, falam da falta de liberdade na Galícia, da submissão a Castela e da emigração forçada dos galegos, devido às dificuldades econômicas. A luta e o lirismo são marcas de sua poesia.


XXVIII

Castellanos de Castilla
Tratade ben ôs galegos:
Cando van, van como rosas.
Cando vên, vên como negros.


Cuando foi, iba sorrindo,
Cuando veu, viña morrendo
A luciña d’os meus ollos,
O amantiño do meu peito. [...]

Foi a Castilla por pan,
E saramagos lle deron;
Déronlle fel por bebida,
Peniñas por alimento.

Déronlle, en fin, canto amargo
Tén á vida no seu seo...
!Castellanos, castellanos!
Tendes corazón de ferro.

!Ay! no meu corazonciño
Xa non pode haber contento,
Qu’ está de dolor ferido,
Qu’ está de loito cuberto.

Morreu aquel qu’eu queria,
E para min n´hai consuelo:
Sólo hai para mim, Castilla,
A mala ley que che teño.

Permita Dios, castellanos,
Castellanos que aborreço,
Qu’antes os gallegos morran
Qu’ ir a pedirvos sustento. [...]

Castellanos de Castilla
Tratade ben ôs galegos:
Cando van, van como rosas.
Cando vên, vên como negros.



I-IV

Cantart’ei, Galicia,
Teus dulces cantares,
Qu’asi mó pediron
Na veira do mare.

Cantart’ei, Galicia,
Na lengua gallega,
Consolo dos males,
Alivio das penas.

Mimosa, soave,
Sentida, queixosa,
Encanta se ríe,
Commove si chora.

Cal ela, ningunha
Tan dulce que cante
Soidades amargas,
Suspiros amantes.

Misterios da tarde,
Murmuxos da noite:
Cantart’ei, Galicia,
Na veira das fontes.

Qu’así mó pediron,
Qu’así mó mandaron,
Que cant’e e que cant’e
Na lengua qu’eu falo. [...]

[Rosalia de Castro. Cantares Gallegos. Santiago de Compostela, Libería Editorial Galí, 1981, quarta edição. Cantos XXVIII e I-IV, pp. 163-166 e 22. ]

Na Idade Média, durante cerca de 700 anos, o idioma galego-português foi língua culta, usada na Galícia e Portugal atuais, assim como em outros reinos da atual Espanha. O rei castelhano Afonso X, o Sábio, por exemplo, escreveu em galego-português. Essa língua foi tão importante que originou a segunda mais volumosa literatura medieval do Ocidente, após a da Occitânia. Entretanto, a partir do século XV, durante o processo de formação da Espanha moderna, várias regiões, inclusive a Galícia, foram submetidas ao reino de Castela. Em consequência, o castelhano tornou-se o idioma oficial da Espanha, proibidos o ensino e a escrita de todos os idiomas regionais (catalão, valenciano, basco, etc.). O galego —evolução do galego-português—, condenado a língua ágrafa, sofreu refluxo, mas, desde a segunda metade do século XIX, graças a movimentos como o de Rosalia de Castro, renasceu. Hoje, é falado, ensinado em escolas e veículo de uma rica literatura. Portugal, que no século XII se tornou independente dos outros reinos ibéricos, continuou a usar livremente o galego-português, que mais tarde evoluiu para o português. O galego e o português continuam línguas muito próximas, como se vê nos poemas.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Eu sou

Hoje tem poeminha aqui.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

As nossas áfricas

(Maracatu final da aula-espetáculo de Ariano Suassuna - de terno branco, no canto do palco. Foto de Luiz Carlos Figueiredo.)

Só pra assistir à abertura já valeu a pena ter ido à Fliporto, a IV Feira Literária de Porto de Galinhas, PE. Consistiu de uma aula-espetáculo do grande escritor Ariano Suassuna, atualmente com 81 anos de idade, que é Secretário de Cultura do Estado. Com inteligência, originalidade, humor imbatível e vitalidade, Ariano conduziu o espetáculo Nau – Sagração nº 2, um passeio musical por diferentes momentos da história brasileira. Foi acompanhado por cinco músicos profissionais, dirigidos pelo maestro Antônio Madureira, e também por cinco bailarinos, dirigidos por Maria Paula Costa Rêgo, estes egressos de regiões pobres do Recife, resgatados por programas sociais. Músicos e bailarinos são hoje funcionários da Secretaria de Cultura, “meus assessores”, como os definiu Ariano; achei isso bacana. Finalizado com um maracatu, o espetáculo foi um deslumbre de beleza, competência e sensibilidade. Penso que, no conjunto, os artistas pernambucanos e os radicados em Pernambuco são os que melhor e mais alto sabem elevar a cultura popular brasileira.
Bom, mas se tratava de uma feira literária, este ano tendo como tema o diálogo entre escritores africanos e latino-americanos. Diferente das bienais do livro, nas feiras literárias todos os participantes, escritores e leitores, ficam por ali, participando dos eventos, papeando, se conhecendo. Assistimos às palestras e passeamos todos por Porto de Galinhas (eleita de novo a melhor praia do Brasil), cuja vila, normalmente encantadora, estava apinhada de gente descobrindo comidinhas, artesanatos e livros.
Achei particularmente interessante assistir às conversas entre os escritores africanos, que, ainda pouco conhecidos por aqui, desta vez compareceram em grande número. Eles e suas histórias se parecem tanto conosco... mas ao mesmo tempo são diferentes, como são diferentes entre si os de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe. Estavam lá desde escritores consagrados, como o angolano Pepetela, Prêmio Camões de 1997, autor, entre outros, de Jaime Bunda – Agente Secreto; até autores ainda jovens mas já reconhecidos, como José Eduardo Agualusa (que tem quatro histórias sendo filmadas,uma delas pela Conspiração Filmes; é autor do excelente O Vendedor de Passados, sobre um sujeito que vendia passados em Angola, isto é, falsas genealogias e falsos feitos – “Já que não se pode mudar o futuro das pessoas, ele mudava o passado”, nos explicou Agualusa); até jovens como o angolano Odjaki, autor de um delicioso livro, que estou terminando de ler, Os da minha rua (Rio, Língua Geral, 2007), sobre a vida de crianças em Luanda.
Gostei também de conhecer uma escritora moçambicana, Paulina Chiziane. Ela mostrou como, no passado, via e lia o mundo através de um véu; mas, decidida certo dia a retirar esse véu, pôde ver, ouvir e recontar as histórias secretas das mulheres de Moçambique, “aquelas que os homens, mesmo quando as conhecem, não entendem”, nos explicou. Foram muitas descobertas na Fliporto. A verdade é que a gente sabe tão pouco sobre a África em geral, sobre a África de fala portuguesa, sobre a literatura em português da África... Vim carregada de livros, para tentar diminuir a minha ignorância.
Entre os brasileiros, também muita diversidade, gente desde o venerável Thiago de Mello até autores jovens, como Bruno Piffardini, que estão surgindo e divulgando seus escritos principalmente nos blogs. Havia também estudiosos de literatura; destaco a palavra sempre inteligente de Cláudio Willer e uma palestra sensacional de Antonio Carlos Secchin, sobre a ausência de paternidade e a adoção de pais substitutos em José de Alencar, Mário de Alencar (filho de José) e Machado de Assis.
Gente, foi bom demais, quis dividir um pouco com vocês.

[Muito obrigada a todos pelos recadinhos deixados nos blogs durante minha ausência. Estou descobrindo que a blogosfera pode ser muito carinhosa. A-do-ro isso!]

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Até breve




Amigos, a partir de quinta, 6 de novembro, até pelo menos domingo à noite, 9 de novembro, estarei ausente daqui. Vou assistir à Fliporto, Feira Literária Internacional de Porto de Galinhas, PE, cujo tema, este ano, me pareceu particularmente interessante: a diáspora africana e o diálogo literário entre África e América Latina. Estarão presentes vários escritores africanos e brasileiros, além de gente que gosta de ler, durante quatro dias reunidos no belo litoral pernambucano. Depois eu conto. Abraços.

sábado, 1 de novembro de 2008

A esperança se chama Barack Obama


Barack Obama será eleito presidente dos Estados Unidos (toc, toc, toc). Trajetória incrível, a deste homem. Em um país partido pelas diferenças raciais, onde brancos e negros dificilmente convivem entre si, ele nasceu no mais distante Estado americano, o Havaí, filho de mãe branca e pai negro, do Quênia. Foi criado pela mãe e avós maternos, naturais do Estado do Kansas, brancos como a neve, num Havaí entupido de asiáticos. Na infância, viveu durante alguns anos também na Indonésia, pois sua mãe se casou de novo, com um indonésio (ele tem uma linda irmã por parte de mãe, Maya, nascida na Indonésia). Tudo isso o deixou confuso, ansioso por entender qual o seu lugar no mundo: meus familiares “não compreendiam que eu precisava de uma raça”, escreveu Obama em sua emocionante autobiografia, chamada em português A Origem dos meus sonhos (Ed. Gente, 2008).

Esta autobiografia foi publicada há muitos anos, antes de Obama sequer pensar em ser político. Quando cursava a pós-graduação em Harvard, ele foi eleito o primeiro afro-americano a dirigir a prestigiosa revista de Direito daquela universidade, chamando a atenção da mídia. Em conseqüência, foi convidado por uma editora para escrever sobre sua experiência racial. Acabou relatando a história da própria vida, com suas múltiplas relações raciais, e o que ela lhe havia ensinado sobre o assunto.

Na onda da eleição presidencial, o livro foi republicado. Nele, Obama refere-se muito ao pai (de quem herdou o nome), ou melhor: à sua busca pelo pai. Obama pai saiu do Havaí quando o filho era pequeno, para se tornar o primeiro africano a cursar pós-graduação em Harvard. Contudo, não retornou ao Havaí, mas ao seu Quênia natal. Obama o viu apenas mais uma vez, em Honolulu. Aquele pai ausente, quase endeusado pela família da mãe, tornou-se o grande enigma da vida do filho. Durante os anos de universidade, cursada na Califórnia, quando o movimento negro se radicalizava nos EUA, Obama gostava de pensar num pai idealizado, símbolo do “verdadeiro africano”, homem puro, bom, orgulhoso de suas origens, espécie de símbolo do qual os afro-americanos descendiam. O pai morreu quando ele terminou a universidade.

Alguns anos depois, ao visitar sua numerosa família no Quênia, Obama descobriu que seu pai já era casado quando encontrou sua mãe, que tivera muitos filhos, antes e depois dele, e que sua atuação pessoal e política no Quênia, longe de ter sido reta e gloriosa, fora irregular e bastante polêmica. Numa aldeia do interior do Quênia, Obama conheceu enfim o lado humano e o sofrimento da vida do pai quando criança, narrados pela avó paterna. Foi ali, junto ao túmulo do pai, enterrado no quintal da avó, que Obama enfim se reconciliou com suas origens e com a figura do pai, finalmente humanizado e amado.

Entre o término da universidade e a pós em Harvard, Obama trabalhou anos como organizador social em Chicago, cidade com alto número de afro-americanos miseráveis e pobres. Contando com poucos recursos, na base da tentativa e erro, desenvolveu um trabalho brilhante junto àquelas comunidades. Daí foi para Harvard, com o intuito de se aprofundar em Direito – essencial para a defesa dos pobres -, e, de volta a Chicago, desenvolveu um trabalho ainda melhor, que incluiu da defesa legal de prisioneiros condenados à pena de morte (livrou mais da metade deles, gente pobre que nunca tivera advogados decentes) até atuação junto a grupos de aidéticos, alcoólatras, drogados e todo tipo de desajustados sociais. Eleito primeiro à Assembléia Legislativa de Illinois, venceu depois a disputa para Senador por este mesmo Estado, contra todas as previsões. Atualmente, é o único senador afro-americano dos EUA. Sua indicação como candidato democrata à Presidência da República também foi surpresa, já que, no início, todos esperavam a vitória da ex primeira dama e experiente política Hillary Clinton.

Obama é um político diferente, que não deve ser analisado pelas mesmas lentes dos outros. Tem ligação visceral com os pobres (não apenas negros), conhece intimamente seus problemas, pois lidou a vida inteira com eles, mas, ao mesmo tempo, sua sólida educação permite-lhe, com a ajuda de uma boa equipe, pensar e propor soluções inovadoras para os problemas do seu país e do mundo. Ótimo orador, ótimo organizador – não venceu eleições apenas discursando, mas sobretudo fazendo organização de base, trabalho de formiguinha -, Obama é principalmente um negociador, um homem do diálogo, capaz de costurar acordos entre contrários, como sua história pessoal lhe ensinou a fazer. Não é à toa que, ao vencer Hillary em campanha que rachou seu partido, conseguiu reunificar os democratas. Mostrou também sua capacidade de dialogar, unir e construir durante o dramático episódio do desentendimento com seu pastor, o que gerou a pior crise de sua campanha; quando todos pensavam que Obama sucumbiria, ele se trancou no escritório por dois dias, para sair dali com o mais completo e bem pensado texto sobre as relações raciais nos EUA. Neste texto, entre outras coisas Obama assinalou que em seu país a questão racial não é discutida, sendo mais do que tempo para fazê-lo. “É preciso conversarmos sobre raça”, escreveu. E mostrou como os americanos deviam, e podiam, construir uma nação etnicamente integrada, não dividida.

Na prática política, Obama tem defendido soluções sociais e econômicas inovadoras, como as que inventou em Chicago, tem oferecido mudança, contra a mesmice conservadora. Contrário ao uso indiscriminado de armas no país, desde o início se opôs no Senado à guerra do Iraque, propondo utilizar os milhões economizados na guerra em programas educacionais e sociais dentro dos Estados Unidos. Possui também uma visão internacional dos problemas, ao contrário da maioria dos políticos norte-americanos, arrogantes e auto-centrados.

Os jovens foram os primeiros a compreender a mudança que Obama representa. Incendiados pela esperança, desde o início da campanha representam sua base eleitoral mais sólida. No começo, os afro-americanos dividiram-se entre ele e Hillary (os Clinton haviam feito um trabalho muito bom junto aos negros), mas depois se entusiasmaram com a possibilidade de eleição de um dos seus, e também com a perspectiva, como prega Obama, de, pela primeira vez na história, os EUA superarem rupturas e ressentimentos raciais e promoverem integração e harmonia racial. Pouco a pouco, Obama foi unindo americanos de diversas regiões, idades, etnias, ideologias e segmentos sociais. Fez isso adaptando ao mundo de hoje os chamados “valores americanos”, um conjunto de idéias que perpassa a história dos EUA – ou que os americanos acham que perpassa -, como democracia, propriedade privada, livre iniciativa, valorização do trabalho, respeito às diferenças, etc. Obama aprendeu com a própria experiência, transformando uma vida singular e difícil, vivida na intersecção, na corda bamba entre várias etnias e culturas apartadas, em uma forma solidária e rica de compreender o mundo. É um homem de pensamento próprio.

Sei perfeitamente que, eleito Presidente, fará muito menos do que desejaria ou poderia. O lobby de Washington é fortíssimo, os interesses dos grupos econômicos são muito poderosos, e agora a crise econômica se instalou bem no coração do seu país. Obama decerto terá de ceder, desviando-se de sua rota original em múltiplas concessões, como já o fez algumas vezes durante a campanha. Mesmo assim, será um Presidente infinitamente melhor do que o tacanho, fundamentalista e belicoso Bush, e também melhor do que Mc Cain. Sua eleição não está assegurada. Mas, se acontecer, será uma esperança de melhores tempos para os EUA e o mundo, para você, para mim, para todos nós. Estamos no mesmo barco.

Nossa, me empolguei, escrevi horrores. Aos que chegaram até aqui, meu muito obrigada, e desculpem a extensão do texto.

domingo, 26 de outubro de 2008

Minúsculos assassinatos

(Foto de Alex de Jesus, neste site)

Blogueira recente, eu não conhecia o famoso drops da Fal (http://dropsdafal.blogbrasil.com/). Li há poucos dias uma entrevista da autora no Amálgama, visitei seu blog, comprei pela internet seu último livro (Fal Azevedo. Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. Editora Rocco, 2008), acabei de lê-lo ontem, e o estou comentando hoje aqui.
Não sei o que há de autobiográfico no livro, até que ponto a história da principal personagem, a artista plástica Alma, se cruza com a da autora. Um exame apurado do blog talvez me mostrasse pistas, já que a blogueira escreve bastante sobre suas próprias experiências e sentimentos. Mas, como acho que o livro, para se sustentar literariamente, deve existir independente do blog, não vou lá pesquisar. Assim, não sei o quanto Alma tem de Fal.
Mas sei que Alma tem muito de toda uma geração de mulheres brasileiras, na faixa hoje dos quarenta, quarenta e poucos anos, filhas de pais que na década de 60/70 se tornaram hippies, viveram em comunidade, consumiram drogas, viraram a mesa, como se dizia à época, recusando o mundo que conheciam e propondo outro, tão irreal e confuso quanto bonito e ousado. Quem são essas filhas, que mulheres são essas que nasceram de pais alternativos mas se tornaram adultas na sociedade yuppie dos anos 90, quais as suas dúvidas, emoções, tragédias, realizações, frustrações, quais vidas, enfim, elas levam?
O livro mergulha na história de Alma, é pelo olhar dela que fazemos o percurso, percebemos o mundo. Não há cronologia nem ordem, como na vida a narrativa salta de um tempo a outro, de um estado a outro, de gatos a sapatos, de receitas (algumas ótimas) a choros convulsos, da gentileza de seu Lurdiano à dureza da Mãe, do riso mais frouxo ao IPTU não pago ou ao leite derramado, de e-mails dos amigos à bondade de Eliano, da fanta uva às filosofias e insônias, do litoral ao centro da cidade de São Paulo, passando por galerias, invernos, tevês a cabo, homens brutos, unhas pintadas, porres homéricos, computadores deficientes, mulheres masoquistas, dietas para emagrecer, muitos — muitíssimos — cães e gatos; de omeletes e pijamas de pezinho a meninas ruivas, das pequenas omissões aos persistentes, cotidianos, minúsculos assassinatos que todos nós cometemos e sofremos, vítimas algozes.
Tudo isso envolvido num humor irresistível, o mesmo humor inteligente que Fal exercita em seu blog: “O velório e o enterro de Eliano corriam bem, se é que se pode dizer uma coisa dessas sem ser fulminado por um raio”;”Estou curada do meu vício em revistas que dizem que não sou boa, magra, bronzeada, merecedora de amor, tesuda, simpática, ativa, bonita e boa profissional o suficiente”; “Não é o inverno, a segunda-feira, a falta de grana. Sou eu”,“Seu cachorro ama você para sempre, mesmo que nada, nada, nada tenha salvação e que, em parte a culpa seja sua”; “Ela gostava de mim aos quatro, aos sete, mas Deus sabe que a idade traz discernimento” são amostras colhidas ao acaso de um humor que serve não apenas para divertir, mas principalmente para estranhar, ironizar, criticar, desnudar o mundo louco, perigoso e invertido em que vivemos.
Não fosse esse humor imbatível, eu não teria agüentado ler o livro até o final. Pois Minúsculos assassinatos é uma narrativa sobre perdas, perdas gigantescas, um livro comovente sobre a dor, os limites da dor e a superação da dor, até onde isso é possível. Como avisa a autora: “... caso você não tenha percebido, isso não é um conto de fadas.” Compõe-se de duas narrativas intercaladas, duas vozes de Alma que contam e, às vezes, disputam a mesma história dilacerada, cortante. Os textos são curtos, saem aos trancos, aos soluços, meio desconjuntados, típicos textos de blog que, agrupados em capítulos também curtos (com nomes de comidas) servem muito bem a essa trama contemporânea de rupturas, vai-e-vens, desencontros.
A linguagem é desigual. Flutua entre o coloquial — onde, a meu ver, deveria ficar, pois aí a autora é mestre — e tentativas mal-sucedidas de linguagem mais elaborada, que destoam do restante do texto. Não sei, por exemplo, por que Fal evita o “pra”, usando sempre o “para”, mesmo no mais cotidiano dos diálogos. Imploro à autora: pelo amor de Deus, extirpe “o quão” do seu dicionário! Um ou outro capítulo não atinge o mesmo nível dos outros, como “Pé-de-moleque”.
Mas o ritmo de Minúsculos assassinatos é perfeito, o livro flui bem e nos prende pela jugular. Há capítulos belíssimos, bem escritos, bem pensados, que nos carregam a alma, como “Manteiga Aviação”, sobre o amor da filha por um pai impossível, “Café da manhã” — não vou dizer sobre o quê — e, numa dimensão mais leve, “Catupa”, sobre cães e seres humanos.
Minúsculos assassinatos envolve e emociona. O que eu mais gosto no livro é, face às misérias, desamores, ironias e horrores, sua capacidade de lançar um olhar solidário, cúmplice, caloroso ao mundo de hoje, oferecendo-nos generoso abraço que afaga, perdoa, consola. Há muito tempo não me lembro de chorar tanto ao ler um livro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sosígenes Costa

(Foto encontrada aqui)

[Baianos ligados às letras o conhecem, mas, fora da Bahia, quase ninguém ouviu falar dele. É um grande poeta brasileiro, cuja obra, no ano de seu centenário de nascimento, foi reunida em Poesia completa (Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 2001). Em vida, o baiano Sosígenes Costa (Belmonte, 1901- Rio, 1968) publicou apenas um livro, o primoroso Obra poética (1959). Muitos poetas, como o paulista José Paulo Paes, afirmaram que ler Sosígenes foi fundamental para a construção de suas obras. Eu gosto sobretudo de “Iararana”, longo poema narrativo do início da década de 30, inspirado na mitologia e no folclore, cheio de invenções e surpresas, que o poeta gostava de chamar "história de alma com bichos falantes". É ainda melhor que Cobra Norato, de Raul Bopp. Reservado, muito discreto em sua vida pessoal, Sosígenes Costa viveu na Bahia e depois no Rio de Janeiro, sempre escrevendo poesia, jamais cortejando críticos, muito menos eventos e mídia. Seguem pequeno trecho de “Iararana” e um de seus belos, sofisticados sonetos:]

(...)
“— Esta anta com cabeça de gente não era anta, meu neto.
Aquilo era cavalo com cabeça de gente.

Era cavalo da Oropa com feição de mondrongo.
Veio da Oropa o danado descobrir este rio.
Ele nasceu na Oropa num lugar muito bonito de lá.
Então um bicho com cabelo de cobra
avançou em cima dele
e ele teve que disparar daquela terra
teve que cair n’água
atavessou mar como quê
e foi se esconder na pontinha da Oropa.

E da ponta da Oropa
ele de novo timbum! Dentro dágua
e veio nadando e chegou neste rio.
Foi quando Romãozinho avistou o bicho entrando
e veio dizer à gente daqui, virado em dom Grilo.
A caipora quando viu o bicho na Ipibura
ficou de boca aberta.
Jabuti veio ver e ficou de boca aberta.
Boitatá não sabia o que era: ficou de boca aberta.
Saruê chegou e ficou de boca aberta.
Jundiá, quando soube, danou pro rio do Bu.
E os cachorros do rio se esconderam no mato
e quiseram dar flechada mas a flecha não pegou.


— Não pegou não, meu avô?[...]

O pavão vermelho
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

sábado, 18 de outubro de 2008

Mais tempo do que eu poderia suportar

(Foto de Carmem Freitas)
Escrevo literatura porque acredito no truque. Ficção, pra mim, é mágica. Como diabos conseguiram serrar ao meio a mulher — juro que vi, com estes olhos que a terra há de comer! —, mas ela ressurge à minha frente inteira, reluzente sob holofotes, o maiôzinho escarlate salpicado de miçangas verde escuro? Hein? Como Alice entrou no espelho? E Harry Potter não é também o mais humano dos meninos? Escrevo literatura pra me jogar nesse mundo que embola tudo, tonteia, mundo sem começo, tempo, fim, caos de sangue, espuma e raios que me deixa completamente sem fôlego, aturdida. Encantada.

Mundo que me trouxe pânico, também. Abandonei a literatura. E se a mulher ficar serrada em duas pra sempre? Vai que Alice não volta do espelho, eu, hein! E se essa dor no meu peito de grama aumentar? E se eu nunca mais conseguir regressar a este mundo daqui, que pode ser miserável, violento e chato, mas afinal é onde meus dois pés estão fincados, ou ao menos sei onde está o chão?

Tempo demais longe dela. Tempo demais. Muito mais tempo do que o meu pobre peito de grama podia suportar. Não resisti à falta que a literatura me fazia. Era uma mesmice, um tentar conformar-se com uma dimensão do mundo, sabendo que atrás, acima, abaixo, sobretudo dentro há muitas outras mais. Uma falta, uma raiva, um desaponto, uma saudade que pediam , exigiam, sufocavam, enlouqueciam. Bom, loucura por loucura... melhor a criativa, he he.
Voltei. Recentemente. Agarrada às cordas da borda com toda a força ainda, que o precipício é fundo.
[Uma primeira versão deste texto foi postada aqui]

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ítalo Calvino: A palavra escrita e a não-escrita


[Adoro este texto de Ítalo Calvino, sobre as relações entre o mundo concreto e o mundo escrito. Apresentado como palestra no New York Institute for the Humanities em 1983, foi publicado no The New York Review of Books, no mesmo ano. Calvino inverte os termos em que geralmente a questão é proposta, mostrando como o seu mundo, aquele em que se sente realmente à vontade, é o escrito, não o mundo concreto, o qual estranha. Abaixo, trechos:]

"Pertenço àquela parcela da humanidade — uma minoria em escala planetária, mas, creio, uma maioria neste salão — que passa a maior parte de suas horas úteis num mundo muito especial, um mundo feito de linhas horizontais, onde palavras seguem palavras, uma de cada vez, e cada frase e cada parágrafo ocupa seu lugar estipulado, um mundo talvez muito rico, ainda mais rico que o não-escrito, mas que, de qualquer forma, requer um ajuste especial, a fim de que possamos nos enquadrar nele. Quando passo do mundo escrito a este outro — este que chamamos atualmente de mundo, fundamentado em três dimensões e cinco sentidos, povoado por 4 bilhões de nossos semelhantes —, isso significa para mim repetir a cada vez o momento do meu nascimento, passar de novo por seu trauma, para criar uma realidade inteligível a partir de um conjunto de sensações confusas, para novamente escolher uma estratégia para enfrentar o inesperado sem ser destruído por ele.

Este renascimento, para mim, é marcado todas as vezes por ritos especiais que significam minha entrada numa vida diferente: o rito, por exemplo, de colocar os óculos porque sou míope e não preciso deles para ler, enquanto, para vocês, hipermétropes, o rito seria o oposto, tirar os óculos que usam para ler.
[...]
A essa altura vocês me perguntarão: se você diz que a página escrita é seu verdadeiro mundo, o único em que você se sente à vontade, por que quer deixá-lo, e por que se aventura nesse imenso mundo que não consegue controlar? A resposta é muito simples: para escrever. Porque sou escritor.
[...]
De certo modo, acho que sempre escrevemos sobre algo que não conhecemos, escrevemos para dar ao mundo não-escrito uma oportunidade de expressar-se através de nós. Mas, no momento em que minha atenção vagueia da ordem estabelecida das linhas escritas para a complexidade mutável que nenhuma frase consegue apreender totalmente, chego quase a entender que além das palavras há algo que as palavras poderiam significar.

Os poetas e escritores que admiramos criaram em suas obras um mundo que para nós parece o mais significativo, contrapondo-o a um mundo que também para eles carece de significado e perspectiva. Acreditando que seu gesto não era muito diferente do nosso, levantamos nossos olhos da página para sondar a escuridão."

[O texto completo em português está em: Ferreira, Marieta de Moraes e Janaína Amado. Usos e Abusos da História Oral. Rio: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2000]

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Mário Faustino

(Colagem de Mário Faustino publicada aqui)

[Nascido em Teresina (1930), criado em Belém, morador quando adulto no Rio de Janeiro, Mário Faustino morreu muito jovem, aos 32 anos de idade. Cultíssimo, desde adolescente se interessou por literatura e idiomas, que estudou também nos Estados Unidos, graças a uma bolsa de estudos. No Rio, foi crítico literário do influente Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Cosmopolita, irreverente, polêmico, afinado com poetas norte-americanos como Pound e Williams Carlos Williams, não poupava as “vacas sagradas” da literatura nacional. Defendia e criava poesia experimental, ousada, mas rigorosa. Publicou um único, maravilhoso livro de poemas, onde amor e morte são indissolúveis, O Homem e sua Hora, reeditado pela Companhia das Letras em 2003. Sou apaixonada por Mário Faustino desde muito antes dele se tornar cult. Dois exemplos de sua grande poesia:]

...
gestos de amor fizeram-se
— estrelas brilham —
se desfizeram.

Mãos postas, ovos gigantes postos
(estrelas brilham)
Entre as coxas do caos.
Estrelas brilham.
A gaivota fecunda a rocha
estrela, estrela
esteriliza o mar
um traço a mais no ar
peixe a menos no mar.
Gostos, demoras, fezes se refazem.
Contra as costas do cão
estrelas brilham
fases da lua, brisas
ilhas aventuradas, pescadores
dormentes de aventura.
A terra dura. A terra pemanece,
a terra flui, cortam-se umbigos, pelos
sobrevivem sobre os ossos, sobre carnes
aterradoras...
...


Divisamos assim o adolescente

Divisamos assim o adolescente
A rir, desnudo, em praias impolutas,
Amado por um fauno sem presente
E sem passado, eternas prostitutas
Velavam por seu sono. Assim, pendente
O rosto sobre um ombro, pelas grutas
Do tempo o contemplamos, refulgente
Segredo de uma concha sem volutas.
Infância e madureza o cortejavam,
Velhice vigilante o protegia.
E loucos e ladrões acalentavam
Seu sono suava, até que um deus fendia
O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto
Durasse ainda aquele breve encanto.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Pescador de nuvens


(Foto originalmente postada aqui)
Ananias apoiou o peso da velha carcaça sobre a bengala e se concentrou na lenta, dolorosa descida até a cadeira de lona. O tremor nas pernas atrapalhou, o maldito tronco pendeu para frente e para trás, faltou fôlego e uma dor fina picou a base da coluna, fazendo-o gritar. Largou o corpo, mas calculou mal a distância. Caiu enviesado, a cabeça contra a borda de madeira, o corpo afundado na lona gasta do assento, a mão direita longe da bengala. Fechou os olhos, para se recuperar do esforço extremo de sentar-se e para disfarçar a humilhação por sua velhice, exibida em público, sob a claridade implacável da manhã.

Livrando-se dos chinelos, enfiou os pés com todo o gozo na areia. Lentamente, reabriu os olhos. Diante do mar, o feixe de rugas em que seu rosto se transformara desanuviou-se, o couro das bochechas afastou-se para os lados. Sorriu, iluminando o semblante. O mar! Nada o transportava tão imediatamente à infância quanto o cheiro, a luz, o céu, o sal do mar. Ananias regressou à casa branca da família, no meio da enseada, diante dos barcos de pesca. Pequeno ainda, pulava da cama assim que ouvia – era o único que ouvia – o andar muito leve do pai mal tocando o assoalho. Corria com seus passos miúdos até a porta da casa, recebia na cara o esplendor vermelho do sol e, contra esse sol, admirava a figura esguia do pai afastando-se rumo ao mar. O pai o proibira de misturar-se aos pescadores: Lugar de menino pequeno é dentro de casa, até hoje Ananias podia ouvir, como se ali ao seu lado na praia, a voz severa e pausada, a voz do pai. Da soleira da porta o menino encantava-se com o movimento dos pescadores na areia, a rolagem dos barcos para a água e o balanço sobre as ondas, primeiro as ondas pequenas e mansas, logo as enormes e raivosas, até pescadores e barcos se transformarem em minúsculos pontos tragados pelo horizonte. Da areia subia um vento de conchas que se misturava aos cabelos do menino e o entontecia de prazer. Enquanto isso a mãe, a dos cheiros marinhos, começava a aquecer...

Diante do mar, Ananias continuou refugiado na memória, desde alguns anos seu esconderijo, seu mundo preferido, o mais secreto, o mais amado. No mundo real – o do tempo dos relógios, por onde circulavam a tirana da filha, os netos barulhentos e egoístas e, em parte, também Etelvina, sua mulher – , no mundo real afundava em doenças e dores que lhe devastavam o corpo; perdia-se em meio a controles remotos microondas computadores celulares dvds dvis e outros malditos aparelhos que não sabia nem desejava usar, mas entupiam o apartamento da filha onde morava, atormentando-lhe a existência; no mundo real sentia-se um velho rejeitado, sem tesão audição força memória poder nem visão, arrastando um precioso saco de lembranças que ninguém estava interessado em conhecer.

.....a mãe, a dos cheiros marinhos, aquecia a casa com o calor do seu fogo, aceso no fogão de lenha. No passo miúdo, o pequeno Ananias corria para ela. Abraçava-lhe as pernas, quentes, macias. Sai daí, menino. Tá me atrapalhando, atrás dela o fogo vermelho ardia. A voz chegava suave, o menino insistia, rodeava a mãe, agarrava-lhe a saia, puxava-lhe a saia, pulava sobre os pés descalços, beijava-lhe as pernas. Por fim, ela achava graça: Menino mais tonto, ria balançando a cabeça, a lenha do fogo a estalar atrás. Carregava-o no colo. Ele então, coraçãozinho leve, leve, se agarrava depressa ao pescoço quente, deitava a cabeça no ombro e mergulhava o nariz nos cabelos encaracolados. Deixava-se ficar ali, quieto, narinas abertas, sentindo o cheiro marinho dela... o mesmo que às vezes ainda sente no ar, como agora, transportado pela lufada que faz girar o cata-vento de um menino à sua frente.

À medida que mergulhava na infância, construtor de um novo tempo antigo, Ananias percebia o mundo real vago, longínquo. Afligia-se com isso. Primeiro, algumas palavras recusaram-se a visitá-lo. Surpreendia-se parado no meio da sala, a frase suspensa no ar, incapaz de concluir o pensamento: Então aquele rapaz, o... o..... o.... o...... Muitas vezes Etelvina, sua mulher há mais de cinqüenta anos, ajudava-o, completando o nome esquecido. Mas aqueles lapsos se tornaram tão comuns que os netos até inventaram uma música para a ocasião, uma paródia cantada a plenos pulmões, pés batendo no assoalho e lágrimas pulando dos olhos, de tanto riso. Sinal de enfado com a mão descarnada, a significar um altivo Deixa pra lá!, Ananias retirava-se para o quarto, mortificado. Horas, às vezes dias depois, a palavra fujona voltava-lhe de súbito à memória. Tarde demais, ninguém estava interessado no assunto, que nem ele mesmo sabia mais qual era.

A princípio Etelvina e ele sorriam desses esquecimentos:
_ Minha velha, se prepare, que o seu velho aqui está ficando gagá! Etelvina balançava a cabeça em silenciosa negativa, beijava-o nos cabelos e tudo se esquecia, inclusive o esquecimento.

Depois os rostos do mundo real se esfumaçaram, desmaiados em bruma. De repente alguém saltava do meio do nevoeiro, cumprimentava-o com toda a intimidade, tapinhas nas costas, E aí, Ananias? Firme? Como vai a comadre Etelvina? Ele, parado, atônito, sem a menor idéia de quem se tratava. De nada adiantaram remédios, médicos nem exercícios para avivar a memória. Aos poucos Ananias transformou-se em um sujeito inconveniente, confundindo frases e comportamentos. A filha proibira-o terminantemente de jantar à mesa, quando houvesse convidados. Que me importa? Eu tenho horror a esses seus ricaços!, gritava à filha, bengala em riste, mortalmente ofendido.

O mundo real foi se tornando cada vez mais obscuro. Pior: à falta de identificar rostos, lugares, falas, corpos, gestos, cheiros, fotos, o mundo se tornou irreconhecível. Um lugar sem sentido. Ananias teve plena, embora breve, consciência disso certa madrugada, quando pulou da cama ao ouvir o andar muito leve do pai no assoalho, correu até a soleira da porta e.... ao invés dos pescadores com seus barcos coloridos na areia, um bando de desconhecidos o rodeavam, a gritar e gesticular. Conduzido com muito custo de volta ao quarto, só se deu conta da confusão que causara – quisera sair do apartamento pela janela, para alcançar a praia onde o pai pescava – ao perceber o alarme nos olhos de Etelvina. Os olhos de Etelvina, não os de sua mãe, não os de seu pai, idiota! Os olhos malva de Etelvina, os belos olhos malva de Etelvina pelos quais se apaixonara um dia, e, louco de amor, jurara adorar, alegrar e proteger para sempre, até que a morte os separasse! Esses mesmos olhos da amada, parceira da longa caminhada, observavam-no de muito longe, de algum ponto remoto, assutados, alarmados – reprovadores!

Ananias finalmente compreendeu. Como a árvore de raízes fortes e fundas que sempre fora, Etelvina permanecia arraigada ao mundo real. Já ele, pescador de nuvens, oscilava agora sobre ondas entre dois mundos, cada vez mais distante da terra do presente, cada vez mais próximo do horizonte, barqueiro solitário rumo ao pôr-do-sol, à linha circular em que tudo termina exatamente onde começou, o hoje e o ontem para sempre confundidos.

O coração pesou-lhe. O peito curvou-se, a cabeça também pendeu. Sentado no meio da cama de imbuia escura, a mesma que há mais de meio século era dele e era dela, Ananias chorou como criança. Comovida, Etelvina achegou-se, envolveu-o num abraço demorado, beijou-lhe testa e cabelos brancos. Ananias deixou-se ficar no ombro dela, lágrimas escorrendo e narinas bem abertas, em busca de um certo cheiro marinho.

("Pescador de Nuvens", de Janaína Amado - regras para uso: Creative Commons)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Diálogos (im)possíveis

(Foto: Quilombo onde Dandara nasceu, na Serra da Barriga, vendo-se a árvore sagrada de Onan)

[Os jovens Pedro Lobisomem (P) e Dandara (D) se amam, mas estão há quilômetros de distância um do outro. Uma co­ruja registra o que Pe­dro Lo­bi­so­mem pen­sa, e uma cri­sá­li­da, o que Dan­da­ra ima­gi­na. Re­sul­ta desse imbroglio todo este diá­lo­go estranho, frag­mentado, aqui fiel­men­te re­gis­tra­do:]

P - Já bati tanta perna por esse mundão de Deus, co­nhe­ci tanta mu­lher! Nenhuma, Dandara, como você. Será, amor, que pen­sa em mim?
D - Eufrásia gorda diz que eu não conheço o mundo. Ela tá cer­ta, nun­ca saí daqui...
P - Eu também. Sabe como é o meu amor?
D - Tenho vontade de saber. Como é, meu bem, o mar? Eu nunca vi!
P - Tão grande! Tem dias em que penso: o meu amor é maior que as estrelas...
D - Maior do que a lua?
P - Maior!
D - Maior do que o sol?
P - Ih, maior!
D - Maior do que o céu?
P - Muito maior!
D - Maior do que Oxum?
P - !!
D - Mas o mar não pode ser maior que Iemanjá! No mar tem peixe, tem barco, tem onda...
P - ...nosso amor tem horizonte, gaivota, cotovia...
P - Tem dias, Dandara, em que acordo tris­te, pes­si­mis­ta, pen­san­do: essa nossa separação tem gos­to de sal, ela pode não ter fim. Eu que­ria tan­to, Danda­ra, conhecer o seu quilombo!
D - Pois meu pai veio da África, ele ainda se lembra...
P - Lembra a África?
D - .. lembra que o mar tem gosto de sal e não tem fim.
D - Às vezes, Pedro, eu penso: será o seu amor por mim como é o mar, sem fim?
P - Em Iagos costumam comparar o quilombo ao lobisomem. Di­zem que os dois não se acabam. Nunca morrem, não têm fim.
D - Será o lobisomem que nem o meu amor: sem fim?
P - Que nem o meu amor!

[Do meu romance Dandara. S.Paulo, Ed. Maltese, 1995. Regras de reprodução do texto acima: Creative Commons]

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Assim é, se lhe parece

Confesso: foi com vergonha e hesitação que escrevi sobre O que será que será. “Todo o mundo, menos eu, deve saber a resposta às perguntas da música”, pensei. Assim mesmo, arrisquei. Quase caí pra trás quando percebi que, como eu, muitos leitores também não tinham uma resposta, ou tinham apenas sugestões.
A minha sugestão é a de que a letra pode se referir ao amor, à liberdade (pelas razões que Lord e Lucy tão bem explicaram nos comentários) e, também, à... mentira. Afinal, como o amor e a liberdade, a mentira também não tem censura, vergonha, governo... e, como eles, controla também o mundo.
Porém, o que realmente me fascinou no assunto foi perceber: podemos gostar da letra de uma música (ou de uma poesia, uma pintura...) sem que saibamos seu significado preciso. Talvez por conter sempre inúmeras possibilidades, ou por nos alcançar primeiro o coração, a arte tem o poder de nos arrebatar antes mesmo de lhe atribuirmos qualquer significado específico (podemos gostar de uma música, poema, pintura etc. mesmo quando não sabemos, ou não nos perguntamos, o que significam).
E quando atribuímos significado a alguma forma de arte, trata-se de uma interpretação nossa, como leitores, ouvintes, espectadores... Que pode, e geralmente é, diferente da do artista criador da obra, sem que isso signifique que a nossa seja errada. Cada obra de arte teria, assim, tantos significados quantos lhe atribuem os seus admiradores. Assim é, se lhe parece: título de peça teatral de um de meus autores preferidos, Luigi Pirandello.
(Talvez eu tenha tratado de tema muito semelhante, com mais leveza, aqui)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O que será?

[Este maravilhosa letra de Chico, originalmente composta para o filme Dona Flor e seus dois maridos, é um poema, independente da música do Milton. Sempre me pergunto qual a resposta para as muitas perguntas que faz. Encontro três respostas diferentes. E você, o que acha? O que será, que será?]

(Foto de Luis Augusto Jungmann Andrade)


O que será que será
Que andam suspirando
Pelas alcovas?
Que andam sussurrando
Em versos e trovas?
Que andam combinando
No breu das tocas?
Que anda nas cabeças?
Anda nas bocas?
Que andam acendendo
Velas nos becos?
Estão falando alto
Pelos botecos
E gritam nos mercados
Que com certeza
Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza
Nem nunca terá!
O que não tem concerto
Nem nunca terá!
O que não tem tamanho...

O que será? Que Será?
Que vive nas idéias
Desses amantes
Que cantam os poetas
Mais delirantes
Que juram os profetas
Embriagados
Está na romaria
Dos mutilados
Está nas fantasias
Dos infelizes
Está no dia a dia
Das meretrizes
No plano dos bandidos
Dos desvalidos
Em todos os sentidos
Será, que será?
O que não tem decência
Nem nunca terá!
O que não tem censura
Nem nunca terá!
O que não faz sentido...

O que será? Que será?
Que todos os avisos
Não vão evitar
Porque todos os risos
Vão desafiar
Porque todos os sinos
Irão repicar
Porque todos os hinos
Irão consagrar
E todos os meninos
Vão desembestar
E todos os destinos
Irão se encontrar
E mesmo padre eterno
Que nunca foi lá
Olhando aquele inferno
Vai abençoar!
O que não tem governo
Nem nunca terá!
O que não tem vergonha
Nem nunca terá!
O que não tem juízo...(2x)

sábado, 20 de setembro de 2008

Hilda Hilst

(A fotomontagem de Hilda é deste site)

[Vou começar a postar alguns escritores favoritos com Hilda Hilst (1930-2004). Hilda nunca poupou a si mesma nem a seus leitores de coisa alguma. Jamais fez concessões. Mergulhada na lucidez do desvario, expôs com impressionante coragem-- e linguagem ousada, única, que mistura prosa com poemas --, cada uma das suas e das nossas feridas, feiúras, secreções, desejos. Está tudo lá, na obra dela. Nem sempre consigo ler Hilda, às vezes não agüento sua crueza ou dificuldade. Mas retorno sempre a ela: sua literatura me explica.]


Se sou um galo
coma-me inteiro.
coma primeiro
meus pés
pois faiscaram
raspando terra e cascalho.
Coma-me
nero
torrando os bicos.
Ponha minhas asas
na esteira lisa
do teu conflito.
Deita-me despedaçcado
ao teu lado.
Coxas austeras
Pra tua goela.

___________________________________

Hostilizo meus ocos.
Desabo-os.
Sou um ogro.
Um corvo
Esbatido de socos.
Posso ser louco:
vivo dos sonhos
de um lobo.

____________________________________
Minha virilha, meu bolso.
Quem és? Pergunto
À planície de pêlos que se move.
Sou iracúndia sou gozo
Sou ligadura rijeza
Sou eu
Entre o verme pastoso
E a rutilante estrela que há em ti.

(Hilda Hilst, Estar Sendo.Ter Sido. S.Paulo; Nankin Editorial, 1992)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Vincent

Hoje tem um poeminha aqui.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Intruso

Quando eu me desespero de chorar, ela chega.

O meu país do leite nasce no bico do seio dela. Corredeiras de leite deslizam suavemente, sem parar, e me envolvem, me abraçam, me acalentam, me afagam, me dão as boas vindas ao mundo. Às vezes mergulho, enfiando a cabeça aqui, emergindo lá adiante, em leite banhado. Felicidade solar. Eu me entrego nu às correntezas que me entram pela boca, perninhas pra cima, brincando com os pés soltos no ar, sorridente.
Os seios dela me nutrem, me limpam, amparam, ungem. Como todo recém-nascido, sou cego. Minha boca, nariz, ouvidos, minhas duas mãozinhas e meu coração desprotegido vão aos poucos desvendando universos. Tateio nervuras, sinto calores, ouço ploc! bin chup chup inch cloc. Cheiro talco, alecrim - cheiros dela ou de mim? Descubro carocinhos de arrepio, me inebrio nos seus vales, invado temperaturas, as gotinhas de suor que brotam da pele dela umedecem também a minha pele, luz, a textura e o sabor inconfundíveis do leite e aquelas duas magníficas alturas que terminam em picos dentro da minha boca. O mundo dos seios dela. O mundo nos seios dela.

De uns meses para cá, sinto que nem sempre ela vem. Mesmo quando eu me desespero de chorar, às vezes ela não vem.
Em lugar dela, vem a vó. Eu não quero a vó, eu só quero ela, o meu país do leite nasce dos seios dela. A vó não tem seios, já procurei. Carrega só dois sacos murchos, ásperos: vazios.
A vó me dá sopa. Salgada e verde esta sopa, cheia de pedacinhos.
— Come, menino. O sal do mundo.
Antes eu cuspia tudo, puuuuf! na cara da vó. Agora como a sopa. Aprendi que há coisas piores, como fralda molhada e a falta danada que ela me faz.

Quando ela chega, renasço. Ultimamente, só aparece à noite. Chega tão tarde que eu, cabeça espremida contra as grades do berço, estou dormindo. Ah! mas acordo assim que escuto os passos macios, o perfume de alecrim enche o quarto... brota luz do corpo dela, ilumina o escuro: minha vida transformada em alegria. Ela traz os cabelos molhados, sinto quando se inclina sobre mim no berço, as pontas roçando o meu narizinho. Brinca com as minhas mãos, faz cócegas na minha barriga, me pega no colo, me carrega até a cadeira de balanço, me aconchega, amolecido, junto a ela. Desata a blusa, e eu mamo. Conectado a estrelas.
Meu país do leite é bom, gostoso, cheiroso, povoado de alegres burburinhos. Dali sou transportado de volta até o útero, minha primeira, mais secreta morada. Retorno a um tempo arcaico, atemporal, um tempo líquido quando eu ainda não sabia quem era eu nem quem era ela, o que era dela e o que era meu, nós dois um só, ela-eu. Existiam apenas vácuo, água, calor e aquele silêncio atento, raramente rompido por barulhinhos da barriga dela - da barriga dela, ou da minha?
Esse tempo assim antigo existiu antes da extraordinária viagem que um dia realizei por dentro do corpo dela. Viagem desatinada por seus rios, regatos, ribeirões, riachos; por seus igarapés secretos, canais, furos, calhetas; por suas cataratas, corredeiras, cachoeiras, seus flúmens de vapor e névoa que me transportaram até o mundo cá fora. O mundo! chicotes de luz, ferro frio, espinho e dor da palmada: ruptura.

Ela tem andado doente. Deitada, dor de cabeça, vomita.
— "Mamãe dodói", a vó me fala.
Se ela está dodói eu também estou, se ela está doente o meu corpinho também dói, se ela está doente eu... choro. De pena dela, e da falta que ela me faz.
Terror de perdê-la. À noite, sozinho no quarto escuro, sonho com um monstro imenso de olhos verdes e dentes afiados que me devora. Eu, sozinho no mundo.

— Mamãe dodói?, pergunto a ela.
Ainda de cama, ela sorri pra mim. Réstias de cor, luz do sol, areia branca, amor! Quanta alegria! Ela me abraça, me põe em cima da barriga, rola comigo na cama, desmancha os meus cabelinhos. Festa no céu, balacobaco, azul do mar - ela voltou, voltou! Dentro do abraço dela eu me desvaneço, esqueço aqueles dias de olhos fundos, choro, doença, vômitos. Quero abrir a blusa dela, busco com sofreguidão seus seios, desejo de volta o meu país do leite, ah! infinitas corredeiras, seiva da minha vida.
Com um gesto firme, ela me afasta. Me oferece não o bico do seio, mas um bico falso, atado a um vidro ou plástico. Com um safanão, atiro longe a mamadeira. Fujo rápido dali. Desnorteado. Desprezado. Traído. Quero ficar longe dela.

Nos últimos tempos, ela apareceu com um cheiro novo, esquisito, na boca. Seu rosto cresceu. Os cabelos perderam a forma. As pernas engrossaram. Sua linda boca parece inchada.
— Mamãe dodói?, vivo perguntando a ela.
Horror de perdê-la. Já basta ter perdido os seios dela! Já basta ser obrigado a mamar no bico falso, aquele que não tem o gosto dela, o que jamais me transportará até o país do leite.
Eu não posso perder o que me resta dela.
— Mamãe dodói?, vivo lhe perguntando.
Ela me dá um abraço tão apertado que eu quase me acalmo. Mas meu corpo grita alerta. Sento na cama, de um pulo. Aperto a barriga dela:
— Grande!
Ela me beija, me afaga:
— Aqui dentro tem um neném, um irmãozinho pra você.
Grita o galo, desandam as rodas do mundo. Tesouras. Lanças. O que foi feito do mundo? Buracos no peito. Arranhões. Gelo, confusão. Alfinetes. Rochedos altos. Estridência. Ossos. Dor. Corpo coberto de chagas, que invadem a alma.
Eu não respiro. Vou morrer.
Mijo nas calças, na cama, na barriga dela. Mijo no mundo.


Desço rápido do berço. Ultimamente aprendi a dar esse impulso com a bunda – bem forte, se não, caio pra trás: passo a perna sobre a grade, e escorrego pelo lado de fora, mãos firmes, pra não me esborrachar no chão. Corro até o quarto dela. Já conheço de cor esse caminho colorido da alegria.
A cama onde ela dorme sob o sol das manhãs de domingo é quente, macia e branca. Sou livre ali, passarinho. Nossas brincadeiras de domingo não têm hora pra terminar. Eu não preciso tomar sopa verde nem tenho de sugar bico falso. Fico quietinho ali junto dela, chupando o dedo. Deslizo devagar a minha outra mão por seus cabelos, rosto, pescoço, colo, seios, o corpo dela esquentando o meu.
Quando ela abre o olho, a gente rola na cama pra lá e pra cá, pra cá e pra lá, a gente pula na cama, a gente canta, e como eu sempre canto errado a gente ri, a gente ri cada vez mais alto. Ela joga a cabeça pra trás e abre a boca. Fica bonita assim, sob o sol das manhãs de domingo.

É verdade que Ele também está lá. Não posso vê-lo, mas sinto sua presença. Ele vigia a gente o tempo inteiro. É como meu monstro de olhos verdes e dentes afiados, que também não vejo, mas dorme no berço ao meu lado. Quando deito a cabeça na barriga dela, quase posso sentir a respiração desse ser invisível, que eu odeio.
Ele mora ... lá! Na minha mais secreta morada, naquele lugar especial, único no mundo, onde eu e ela éramos um, o tempo decorria líquido e o espaço, profundamente terno, onde o silêncio significava amor. Ele habita o lugar de onde eu vim, a minha origem! que, portanto, é minha, nunca dele. Não faço a menor idéia de como esse clandestino invadiu e ocupou o meu lugar no mundo.
Mordo, chuto, soco a barriga dela. Quero que Ele morra.

Hoje a vó resolveu enfeitar a casa.
— Vó, festa?
— Não, não – é que ela logo vai chegar aqui com seu irmãozinho. Vamos deixar a casa bem bonita pra eles!
Não entendo a vó. Se ela sempre chega com Ele, pois Ele mora lá dentro da barriga dela, no meu lugar! Onde ela vai, carrega Ele junto.
Eu não quero casa bonita. Não quero enfeite. Não quero irmãozinho. Odeio irmãozinho. Não quero a vó. Eu só quero ela. De volta pra mim, a blusa desatada, me oferecendo os seios. Eu quero o meu país do leite!

Não acredito! Ela chega em casa, carregando... o quê?
Abaixa-se junto a mim:
— Olhe! O seu irmãozinho! Nasceu!
Mas é... Ele! Pulou de dentro da barriga pra junto dos seios dela!
Não, eu não quero. Joga Ele pra lá. Se livra dele. Eu detesto Ele.
__ E então, o que nós vamos fazer com seu irmãozinho, agora?
Estico o beiço:
— Joga da janela!
­— Credo em cruz! ­ – grita a vó, apavorada. ­— Décimo oitavo andar!
— Joga, joga!

Já experimentei tudo o que podia. Chorei, mijei, caguei, golfei, engasguei, acordei no meio da noite. Fiz tudo o que Ele sabe fazer. Nada adianta. Ralham comigo. Ele pode mamar nos seios dela – eu, não. Ele visita sempre que deseja a minha terra, o meu país do leite, de onde fui miseravelmente expulso e para onde nunca mais poderei retornar.
Já fiz gracinhas, cantei a música dela, dancei a dança da vó. Ninguém mais ri. Ninguém nem me olha.
Desço rápido do berço, dando impulso com a bunda. Corro mais uma vez até o quarto dela, meu antigo caminho colorido da alegria. A porta agora está sempre trancada pra mim. Espinhos. Não posso entrar. Choro, esmurro, arranho, dou pontapé, até, exausto, me encostar na porta e deslizar para o chão: encolhido, impotente. Do lado de fora.

Desta vez a porta do quarto dela está... aberta! Empurro. Meto o rosto. Entro.
Faz escuro, aqui dentro. Silêncio.
Aos poucos, meus olhos vão se acostumando à escuridão. Mas ela não está aqui. Onde ela está?
Subo na cama. Encontro... Ele! O Outro. O Intruso. O Clandestino da minha origem. O Usurpador de seios. O Ladrão do meu país do leite!
Observo-o com atenção. Ele é muito... pequeno! Magro. Fraco. Fininho. Não tem cabelo. Nem dente. Horroroso. Não sabe andar. Não sabe falar. Bobo.
Aperto a careca dele. Ele chora. Aperto de novo. Chora mais alto. Que bom!
Só sabe chorar, Ele. Bobão! Odeio Ele.
De repente, os passos apressados dela no corredor.

Desço correndo da cama, com Ele. Alcanço a janela um segundo antes de ela entrar no quarto.

("Intruso", de Janaína Amado. Regras para uso: Creative Commons.)

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