quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ítalo Calvino: A palavra escrita e a não-escrita


[Adoro este texto de Ítalo Calvino, sobre as relações entre o mundo concreto e o mundo escrito. Apresentado como palestra no New York Institute for the Humanities em 1983, foi publicado no The New York Review of Books, no mesmo ano. Calvino inverte os termos em que geralmente a questão é proposta, mostrando como o seu mundo, aquele em que se sente realmente à vontade, é o escrito, não o mundo concreto, o qual estranha. Abaixo, trechos:]

"Pertenço àquela parcela da humanidade — uma minoria em escala planetária, mas, creio, uma maioria neste salão — que passa a maior parte de suas horas úteis num mundo muito especial, um mundo feito de linhas horizontais, onde palavras seguem palavras, uma de cada vez, e cada frase e cada parágrafo ocupa seu lugar estipulado, um mundo talvez muito rico, ainda mais rico que o não-escrito, mas que, de qualquer forma, requer um ajuste especial, a fim de que possamos nos enquadrar nele. Quando passo do mundo escrito a este outro — este que chamamos atualmente de mundo, fundamentado em três dimensões e cinco sentidos, povoado por 4 bilhões de nossos semelhantes —, isso significa para mim repetir a cada vez o momento do meu nascimento, passar de novo por seu trauma, para criar uma realidade inteligível a partir de um conjunto de sensações confusas, para novamente escolher uma estratégia para enfrentar o inesperado sem ser destruído por ele.

Este renascimento, para mim, é marcado todas as vezes por ritos especiais que significam minha entrada numa vida diferente: o rito, por exemplo, de colocar os óculos porque sou míope e não preciso deles para ler, enquanto, para vocês, hipermétropes, o rito seria o oposto, tirar os óculos que usam para ler.
[...]
A essa altura vocês me perguntarão: se você diz que a página escrita é seu verdadeiro mundo, o único em que você se sente à vontade, por que quer deixá-lo, e por que se aventura nesse imenso mundo que não consegue controlar? A resposta é muito simples: para escrever. Porque sou escritor.
[...]
De certo modo, acho que sempre escrevemos sobre algo que não conhecemos, escrevemos para dar ao mundo não-escrito uma oportunidade de expressar-se através de nós. Mas, no momento em que minha atenção vagueia da ordem estabelecida das linhas escritas para a complexidade mutável que nenhuma frase consegue apreender totalmente, chego quase a entender que além das palavras há algo que as palavras poderiam significar.

Os poetas e escritores que admiramos criaram em suas obras um mundo que para nós parece o mais significativo, contrapondo-o a um mundo que também para eles carece de significado e perspectiva. Acreditando que seu gesto não era muito diferente do nosso, levantamos nossos olhos da página para sondar a escuridão."

[O texto completo em português está em: Ferreira, Marieta de Moraes e Janaína Amado. Usos e Abusos da História Oral. Rio: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2000]

4 comentários:

Luli Facciolla disse...

Oxe! Tem dois?!
Então, tá... Leio os dois!
A-DO-REI!

Beijos

valter ferraz disse...

Janaína,
é uma pergunta recorrente. Rosa Monteiro em A louca da casa também faz a pergunta e tenta respondê-la.
Acho que escrevemos para tentar achar ordem no caos. Por vezes saímos mais confusos ainda, de todo modo é nossa maneira de ver o mundo. Escrevo para viver, eu diria.
Beijo, menina

Anônimo disse...

Por que nao:)

Marilda Confortin disse...

Olá Janaina.
Italo Calvino é um dos meus favoritos. Agora mesmo estou lendo suas Fábulas Italianas, me preparando para um dia ser avó e ter histórias pra contar.
Teu blog é excelente. Navegarei nesse teu mar de informações.
Beijo
Marilda

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