sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Mário Faustino

(Colagem de Mário Faustino publicada aqui)

[Nascido em Teresina (1930), criado em Belém, morador quando adulto no Rio de Janeiro, Mário Faustino morreu muito jovem, aos 32 anos de idade. Cultíssimo, desde adolescente se interessou por literatura e idiomas, que estudou também nos Estados Unidos, graças a uma bolsa de estudos. No Rio, foi crítico literário do influente Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Cosmopolita, irreverente, polêmico, afinado com poetas norte-americanos como Pound e Williams Carlos Williams, não poupava as “vacas sagradas” da literatura nacional. Defendia e criava poesia experimental, ousada, mas rigorosa. Publicou um único, maravilhoso livro de poemas, onde amor e morte são indissolúveis, O Homem e sua Hora, reeditado pela Companhia das Letras em 2003. Sou apaixonada por Mário Faustino desde muito antes dele se tornar cult. Dois exemplos de sua grande poesia:]

...
gestos de amor fizeram-se
— estrelas brilham —
se desfizeram.

Mãos postas, ovos gigantes postos
(estrelas brilham)
Entre as coxas do caos.
Estrelas brilham.
A gaivota fecunda a rocha
estrela, estrela
esteriliza o mar
um traço a mais no ar
peixe a menos no mar.
Gostos, demoras, fezes se refazem.
Contra as costas do cão
estrelas brilham
fases da lua, brisas
ilhas aventuradas, pescadores
dormentes de aventura.
A terra dura. A terra pemanece,
a terra flui, cortam-se umbigos, pelos
sobrevivem sobre os ossos, sobre carnes
aterradoras...
...


Divisamos assim o adolescente

Divisamos assim o adolescente
A rir, desnudo, em praias impolutas,
Amado por um fauno sem presente
E sem passado, eternas prostitutas
Velavam por seu sono. Assim, pendente
O rosto sobre um ombro, pelas grutas
Do tempo o contemplamos, refulgente
Segredo de uma concha sem volutas.
Infância e madureza o cortejavam,
Velhice vigilante o protegia.
E loucos e ladrões acalentavam
Seu sono suava, até que um deus fendia
O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto
Durasse ainda aquele breve encanto.

9 comentários:

Renata Belmonte disse...

Claro, Janaina! Venha me visitar sempre! Já vou até linkar você!
Beijos,
Renata

Bernardo Guimarães disse...

Como podem morrer tão jovens, os que podem nos dar tanto mais...

claudio rodrigues disse...

Lendo sobre Faustino me estremeci. Morreu na minha idade. Tanta coisa por vir...

Anônimo disse...

Grato, Janaína.
O bom disso tudo é a gratuidade de compartilhar nossa condição humana.
E a propósito de seu post, sempre estive/fui impressionado pela inserção do poema de Mário Faustino no Terra em Transe de Glauber Rocha.
Abraço!
Mariano

Janaina Amado disse...

Renata, abraços.
Bernardo e Cláudio, também sinto muita pena da morte prematura do Faustino, do que ele poderia ter dito e não pôde dizer... Porém sinto ainda mais admiração por ele ter escrito tanto, tão comoventemente bem, em tão pouco tempo, não é espantoso?
Mariano, muito bom vc. lembrar o poema do Faustino em "Terra e Transe": é "Balada", não publicado em vida do Mário Faustino. No início do filme, Gláuber cita os 2 primeiros e os 2 últimos versos da primeira estrofe: "Não conseguiu firmar o nobre pacto/Entre o cosmos sangrento e a alma pura./Gladiador defunto, mas intacto / (Tanta violência, mas tanta ternura)". O último verso parece dialogar com o Che, vcs. não acham?

Janaina Amado disse...

Em tempo: surfando atrás do poema do Faustino no filme do Glauber, caí num blog português sensacional:
http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

Nilson disse...

Forte mesmo. Deu vontade de ler o livro.

Aninha Pontes disse...

Algumas pessoas que a nosso ver, tem tanto a oferecer, passa tão rápido por aqui.
Aí, há de pensar, que algo de muito bom, foi fazer do outro lado, para onde foi.
É ruim pensar que alguém assim, simplesmente acabou.
Não sei...
Beijos meu bem.

Mariano disse...

Descobri, Janaína.
O baixista é o falecido Luisão Maia.
Abraço

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