terça-feira, 12 de outubro de 2010

Parada para ajustes



Queridíssimos amigos e leitores,

Este post oficializa uma situação que já vem existindo de fato: a suspensão deste blog por algum tempo. Desde junho, quando publiquei o livro de/sobre minha mãe, a poeta Jacinta Passos, me vi envolvida em muitas atividades ligadas ao livro (três lançamentos, entrevistas, site, blog, etc.), atividades que me interessam, já que o principal objetivo do livro é justamente o de divulgar a trajetória poética e pessoal de Jacinta. Passei também por um período pessoal conturbado, envolvendo desde uma fortíssima tendinite até problemas e doenças em família. Tudo sob controle agora, mas esse tipo de coisa, vocês sabem, nos consomem muito tempo e energia.

Finalmente, também tenho estado empenhada em reunir, organizar e aperfeiçoar meus escritos literários, com vistas à publicação. Tenho trabalhado nos poemas e textos para crianças e também em contos para adultos. Ah, e há também as viagens, para perto e para longe, de que não abro mão enquanto saúde e recursos permitirem, pois são fonte de muito prazer e inspiração. Amanhã mesmo parto para a ilha mágica da Sicília.

Compreendo a blogosfera como uma atividade essencialmente interativa — ler e comentar os posts dos outros é tão rico e importante quanto escrever e publicar os próprios —, o que demanda disponibilidade e tempo. E o fato é que, pelo conjunto de motivos relatados, não tenho conseguido atualizar os blogs. Conseguiria aqui e ali no máximo postar um texto meu, mas não quero assim: quero meu círculo de leitores e amigos de volta, quero a beleza e a riqueza de toda essa experiência para mim maravilhosa. Tão maravilhosa que retardei o quanto pude este texto de agora, na esperança de que, na próxima semana, sim, seria possível retornar à blogsofera. Mas não foi, não tem sido.

Assim, paro aqui, mas voltarei. Assim que possível, espero que em breve. Por ora, deixo as flores acima, o abraço carinhoso e o  agradecimento a vocês todos, pelo que me proporcionaram de convívio rico, intenso, instigante, bonito, pelas lágrimas e risadas.

Em tempo: o site e, dentro dele, o blog de Jacinta continuarão atualizados. E eu permaneço no twitter e no facebook, meios mais rápidos e descompromissados que os blogs.

sábado, 5 de junho de 2010

O coração militante de Jacinta Passos


Mulher, feminista, comunista, separada do marido, empobrecida, louca. Muitos foram os estigmas que Jacinta Passos enfrentou. Sua trajetória de vida absolutamente singular, bem como sua fidelidade às ideias e valores que elegeu, levaram-na a chocar-se diuturnamente contra tudo e todos, na contramão do tempo. Seus embates foram duríssimos. Não fugiu a nenhum. Ao contrário, parece que os buscou. Pagou um preço pessoal muito alto pelas escolhas que fez. Jamais se apresentou como vítima. Caneta e lança na mão, escudo de ferro no peito, foi como guerreira que se apresentou, lutando até o último dia de vida contra muitos, inclusive contra uma parte de si mesma. Venceu, foi derrotada e recomeçou várias vezes, sem nunca ter perdido de todo a ternura, como aconselhava Che Guevara – o Che da Revolução Cubana que ela tanto admirou –, pois foi poeta até morrer.

Este é o primeiro parágrafo da biografia de minha mãe que escrevi, e que consta do livro Jacinta Passos, coração militante,  que será lançado no dia 8 de junho, terça-feira próxima, no Espaço Unibanco de Cinema Gláuber Rocha, na Praça Castro Alves, Salvador, de 18 às 21 horas. O volume reúne a obra completa em verso e prosa de Jacinta, inclusive inéditos, sua fortuna crítica e ensaios escritos especialmente para a edição. Em breve, o livro, que é uma coedição da Corrupio e da Edufba, estará nas livrarias do país, inclusive nas virtuais. A partir da próxima semana, já poderá ser comprado pelo site da Edufba.

*Inagen: Jacinta Passos, década de 1930.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Jacinta Passos retorna


O lançamento deste livro está me deixando muito emocionada. Finalmente, realizo o sonho de trazer de volta toda a bela poesia de minha mãe, a poeta Jacinta Passos (1914-1973), assim como a luta de sua existência. O volume, uma publicação da Editora da Universidade Federal da Bahia e da Editora Corrupio, reúne todos os livros publicados de Jacinta Passos, seus textos jornalísticos, seus inéditos em prosa e verso, sua biografia, a fortuna crítica, além de estudos produzidos especialmente para esta edição por intelectuais de renome. O volume é enriquecido com um caderno de imagens e com os belíssimos desenhos de Lasar Segall, feitos para um dos livros de Jacinta.
Nos próximos dias, postarei mais informações. Espero no lançamento, na próxima terça-feira, dia 8 de junho, na Galeria do Livro, no Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, os leitores de Salvador e arredores.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Fui ali e volto já



Amigos, não demoro. Logo, logo, estarei de volta, escrevendo meus textos e lendo os de vocês. Abraços.
* Imagem trazida daqui

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Uma paixão



Indiferentes ao mundo em volta, interessados apenas em amar, Dandara e Pedro Lobisomem sequer notaram a presença do anjo e de Ananias Bom Conselho no Boqueirão. Enquanto Ananias matutava e o anjo suspirava, os dois corriam feli-zes pelo alto da mata, nus e de mãos dadas, em direção a uma gruta. Tentavam proteger-se da tempestade que há pouco desabara. Estranha tempestade! Começara mansinha, porém, de repente, sem que se soubesse como ou porque, pareceu o dilúvio. Tingiu os céus de vermelho, armou roncos, raios e trovões, essas zangas da natureza, inundou baixadas e rios, encharcou encostas e acabou expulsando para os abrigos, fossem eles tocas, cavernas, cascas, ninhos ou ocos de árvore, todos os habitantes da mata, inclusive Dandara e Pedro.

Os dois conheciam-se há apenas vinte e quatro horas. Vinte e quatro horas, um dia. Mas pareciam vinte e quatro meses! Ou vinte e quatro anos. Quem sabe não seriam vinte e quatro séculos? Pois quais calendários, afinal, medem vivências? Quais as medidas do amor? Aleluias, tartarugas, dinossauros e orquídeas, geleiras e borboletas, sociedades e rochas, guerras, rotinas e festas, quais relógios são capazes de medir as suas diferenças? O tempo da celebração é o mesmo do desespero? Com quantos, com quais minutos se constrói, enfim, uma paixão?

Filosofias à parte, o fato é que, vinte e quatro horas após se conhecerem, Pedro Lobisomem e Dandara se sentiam íntimos. Haviam esquadrinhado cada pedacinho de seus corpos, dos mil e um jeitos que ele aprendera na vida devassa pelo mundo, e agora, com engenho e arte, agora ensinava a ela. Jeitos que ela imaginara em fantasias, sob estrelas, durante as noites no Quibano, e com ele agora compartia. Pedro admirava a facilidade com que, inteiramente à vontade, como se não houvesse feito outra coisa na vida! ela compreendia os jogos do amor e ainda inventava outras brincadeiras, inovações que o deixavam enlouquecido de prazer.

[Início do terceiro capítulo de meu romance Dandara (S.Paulo: Ed. Maltese, 1995), que estou revisando e transformando em novela. O capítulo é dedicado ao amor entre a jovem quilombola Dandara e o também jovem minerador Pedro,  conhecido como "Pedro Lobisomem", por razões aqui mantidas obscuras.]

domingo, 25 de abril de 2010

A vida é feita de nadas


Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga


Ah, eu sempre acho que é tempo de ler e reler o grande escritor português Miguel Torga (1907-1995), com sua sabedoria encravada na terra e seu conhecimento das essências. Agora, quando o mundo  se torna cada dia mais aparente e espetaculoso, quando artistas da palavra e da imagem tentam reduzir a arte à afetação dos efeitos especiais, penso que é cada vez mais preciso descobrir e reler Miguel Torga.

Tive a alegria de conhecê-lo pessoalmente em seu pequeno consultório em Coimbra, nos distantes anos 70.  Eu muito jovem, acompanhada de um amigo tão jovem quanto eu, levava um bilhete e uma encomenda enviadas do Brasil por meu tio, o escritor Jorge Amado, amigo dele. Torga, que era médico, nos recebeu assim que seu paciente deixou a sala. Foi solícito, gentil, carinhoso, falou-nos um pouco de Coimbra, pediu que agradecéssemos ao tio a gentileza do mimo, perguntou por ele, e ali mesmo escreveu um bilhete ao amigo brasileiro.

Eu, que já era grande admiradora dos textos de Torga, fiquei observando sua letra um pouco trêmula, o jaleco imaculadamente branco, o perfil fino inclinado sobre o papel, os cabelos brancos... Estava emocionada pela oportunidade de conhecer pessoalmente um dos meus escritores preferidos, e procurei conversar um pouco com ele, para prolongar a situação. Quando já atravessávamos a porta de saída, ele nos chamou de volta, sorriu de forma delicada, e nos disse:   

Obrigado por  trazerem a juventude a esta humilde morada. Eu hoje estava a precisar disso, e se calhar nem o sabia.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A menina e o aniversário



A menina hoje faz aniversário aqui.

domingo, 18 de abril de 2010

O livro escreve-se para frente e para trás



Em 1996, quando lançou o romance Alma, disse que «há livros que se fazem porque se quer» e «há outros que se escrevem porque não pode deixar de ser». A qual das categorias pertence este livro (O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua)?

À mesma categoria do "Alma", à dos que se escrevem porque não pode deixar de ser. Diria que foi um livro que se impôs. No fundo, é uma arte poética, uma explicação de como se chega à escrita e à poesia, através dos sons, dos episódios vividos, das coisas que nos marcaram.

Auto-consciente, o livro mostra-nos as suas costuras, os seus avanços e recuos, os vários caminhos, as indecisões.
O livro escreve-se para a frente e para trás, aos ziguezagues, porque a memória também funciona assim. A memória é feita de fragmentos. Fragmentos dispersos, que muitas vezes se sobrepõem e que não têm continuidade. Como a vida. Isto é uma coisa que brotou não sei de onde. É um sopro que veio lá de dentro. Ultimamente, aliás, só escrevo assim.

Quais foram os momentos fundadores da sua escrita?

Os sons da infância: sinos que tocam, um violino desafinado, o rumor das oficinas, o canto dos pássaros, as águas que passam. E certos episódios marcantes que se transformaram em metáforas, as minhas metáforas, a que volto muitas vezes. O que este livro foi buscar, o que o condiciona, o que lhe dá coerência, são esses vários sons e ritmos da vida, dirigidos para a escrita, para o poema, para as sílabas contadas pelos dedos.

O jogo literário, porém, não revela tudo. «Estou aqui a esconder-me e a mostrar-me», diz no último parágrafo.


Claro. Há sempre uma transfiguração. E é através desse fingimento, desse processo ficcional, que se consegue ir ao fundo das coisas.

*Trecho de entrevista do excelente escritor português Manuel Alegre a José Mário Silva, sobre o mais recente livro de Alegre, O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua (Editora Dom Quixote). A entrevista integral você encontra aqui.
** Aqui você lê um dos belos poemas de Alegre.
*** Imagem: Juan Gris, Le livre ouvert

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A menina e o pai


Amor, amor desmesurado doido fulgurante absoluto, amor resplandecente a menina sente mesmo é pelo pai. Entre todas as pessoas do mundo, é a ele que desde bebê ela procura, para ele joga os bracinhos, busca seu cheiro, seu riso, seu abraço. Desde pequena enxerga aquele pai-lampião à sua frente, às suas costas, pendurado no céu da fazenda, debruçado no seu berço, suspenso sozinho no teto da sala, na viga da varanda, no seu carrinho. Não tem ninguém mais bonito nem mais forte nem mais sabido nem mais valente que o meu pai, a menina pensa explodindo de orgulho, enquanto caminha de mãos dadas com ele.

De mãos dadas com meu pai. Assim é que ela sempre se imagina. Quando sua mãe sumiu de repente no mundo, foi ele, o pai, quem ficou com ela. Ele lhe dá banho, penteia seus cabelinhos, calça-lhe o sapato de fivela, dá-lhe comida, bota-a para dormir. Tudo no seu jeito desajeitado – Ele não sabe, é bobinho, a menina pensa condescendente, tapando o sorriso para não o magoar, com a outra mão fazendo de leve um carinho nos cabelos dele, abaixado à sua frente, suando para enfiar-lhe a meia. Ele é que cuida de mim. Ele é meu, eu sou dele, pensa secretamente, cada vez mais agarrada àquele pai, o tesouro que eu tenho na vida, assim sente, maior que o de Ali Babá, maior que o de todos os piratas do mundo.

Quando visitam pela primeira vez a mãe no sanatório, a menina se apavora: o corredor comprido à sua frente, portas brancas fechadas dos dois lados, pequenas janelas no meio, com grades; pelas frestas das grades saem mãos que se contorcem, lá de dentro vêm gritos altos e lancinantes, gritos soltos, gritos sem dono. Horrorizada a menina estaca, coração aos pulos. Deseja demais abraçar a mãe porém seus pés não se movem, chumbados no chão. Nunca vou conseguir atravessar este corredor, nunca vou conseguir, começa a chorar alto, apertando Macaco Simão contra o peito. De novo é ele, o pai, quem a socorre, com carinho a acalma, com firmeza a conduz por aquele corredor difícil e cheio de perigos do mundo. Com ele eu consigo, ele cuida de mim, ele é meu, eu sou dele, eu consigo com ele, a menina vai dizendo baixinho para si mesma enquanto atravessa o corredor, olhos bem fechados, mãozinha protegida dentro da mão grande do pai.

Uma garota, porém, aprende cedo as verdades do mundo: Eu sou dele, mas ele não é só meu, conclui certo dia, amargurada. O seu é um pai de olhos compridos para as outras mulheres, principalmente para as pernas das outras mulheres (ele pensa que ela não vê, mas ela vê, ela sabe de tudo, essa menina), o seu é um pai do mundo, pai da rua, pai do trabalho, das mulheres, da política, pai da viagem à União Soviètica lá do outro lado do planeta, pai das histórias cheias de gargalhadas, pai que a deixa ali com os tios, os avós e os primos mas tão sozinha tão sozinha tão sozinha, que é como ela se sente longe dele.

Intensamente concentrada, ruguinha na testa marcando a dramaticidade que carregará pela vida, a menina enfim entende: O único jeito de conseguir ficar sempre perto do pai, ficar dentro do coração do pai, é dividindo ele com os outros! Começa então para a menina o longo aprendizado do compartilhamento do pai. Serão as barganhas e alianças que seu instinto aconselha mas sua vontade recusa: conquistar, com gracinhas, as mulheres que ele conquistou ou quer conquistar, mesmo que seu desejo seja o de chutá-las para bem longe dali; ir com ele aos jogos de futebol, mesmo que nem saiba direito onde está a bola; estudar estudar estudar, para tentar receber a atenção e os elogios parcos dele... O aprendizado é longo e é difícil, nem sempre a menina acerta, porém a recompensa é maior do que tudo no mundo: o amor dele, deste pai sem tamanho que é exemplo, é norte e é sul, é âncora, bússola, inteligência, resplendor.

Sem que ele soubesse, caberia a ela depois sair  procurando vida afora aquele pai inexistente, aquele pai que só vivia dentro dela, que ela inventara e por isso mesmo por mais que procurasse jamais encontraria em qualquer outro ser do universo. Sem que ele soubesse, caberia também a ela viver quase uma vida inteira para enfim descobrir e desvendar (e conseguir amar) o pai frágil e defeituoso, humano, como são todos os pais do mundo, como não são todos os pais do mundo.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Este lugar de imperfeição


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Às vítimas da horrível tragédia do Rio e Niterói, assim como às suas famílias, neste Brasil imperfeito em que vivemos, onde as tragédias são anunciadas mas nunca evitadas. Tristeza e revolta.)

*Imagem Terra do desmoronamento do Morro do Bumba, Niterói.

sábado, 3 de abril de 2010

Ficção, realidade, imaginação


[Sendo ficcionista e historiadora, adoro pensar as relações entre ficção e realidade, em suas múltiplas faces: ficção e história, ficção versus história, imaginação versus memória, imaginação e memória, oralidade e/versus escrita, etc. Recentemente, encontrei esta jóia, esculpida com a concisão e o humor de um de meus autores preferidos:]

"Ficção


Tudo o que se diz no teatro ou no romance tem a sua significação e consequência, o seu lugar, o seu propósito.


Na vida, porém, se diz cada coisa, sai-se com cada uma, seu moço... e tudo fica por isso mesmo.


Parece que só na vida é que há ficção."


Mário Quintana
(A Vaca e o hipogrifo. S.Paulo: Globo, 2006, p. 78).
*Imagem: Carlos Relva.

domingo, 28 de março de 2010

Os sertões à beira do rio


Em recente viagem ao interior de São Paulo, tive oportunidade de visitar a cidade de São José do Rio Pardo, e ali, a acanhada cabana onde Euclides da Cunha escreveu Os Sertões (publicado em 1902), enquanto dirigia a construção de uma ponte sobre o rio Pardo. Euclides já estivera em Canudos, no sertão da Bahia, cobrindo como jornalista as investidas finais do Exército contra o beato Antônio Conselheiro e seus seguidores. E já colhera farto material de pesquisa, com vistas ao futuro livro.
Sim, um dos maiores e mais importantes livros do e sobre o Brasil foi escrito à mão, à luz de lampião, dentro de uma cabana abafada e sem conforto, provavelmente infestada de mosquitos, pois à beira do rio. Mas Euclides sentiria saudade desse tranquilo escritório.


Na foto acima, de cerca de 1901, a cabana junto ao rio Pardo onde foi escrito Os Sertões. À esquerda, vê-se parte da ponte construída sob supervisão de Euclides da Cunha, que era engenheiro.

A pequena cabana como se encontra hoje, em 2010, envolvida por uma casa de vidro, que a protege. Vê-se a ponte à esquerda.

No Centro de Cultura Euclides da Cunha, praça junto à casa com monumentos e esculturas em homenagem ao escritor, esta placa registra trecho de uma carta de Euclides de 1908, onde expressa saudades do " meu escritório de zinco e sarrafos, da margem do rio Pardo".

*Imagens, de cima para baixo: Foto, provavelmente de 1901, deste ótimo site.
Fotos de Luiz Carlos Figueiredo, fevereiro de 2010.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Não confio mais no sedex


Há dias tento escrever este texto, mas não consigo. Não sei se devido à minha frustração com o assunto, ao fato de eu chorar toda a vez em que penso nele, à minha profunda sensação de impotência... Vou tentar mais uma vez vencer o bloqueio, e escrever.

Aconteceu comigo: enviei por sedex, de Maceió para Salvador, quatro livros originais escritos nas décadas de 1940 e 1950 pela poeta Jacinta Passos, minha mãe: Nossos poemas, Canção da partida, Poemas políticos e A Coluna. Os leitores deste blog sabem que preparo a edição completa da obra dela, acompanhada de biografia e fortuna crítica, a ser publicada em breve pelas editoras da EDUFBA e Corrupio. A certo momento dos trabalhos, foi necessário comparar os poemas originais dos livros com o texto em page maker, pois nessa transposição costumam acontecer mudanças nos espaços entre as estrofes.

Enviei então os livros de minha mãe para a editor Bete Capinan, em Salvador. Havia pressa, e eu não tinha por que me preocupar, pois sempre confiei nos Correios, principalmente no sedex, serviço que cobra caro justamente para entregar as encomendas rápido e em segurança.

Então começou meu pesadelo. Alertada por Bete de que o pacote não chegara, rastreei-o no site dos Correios, encontrando a informação de que havia sido encaminhado para refugo. Por telefone, fui informada de que, para os Correios, “refugo” quer dizer encomenda encaminhada para… destruição! Sem entender nada e apavorada, liguei imediatamente para Bete, pedindo a ela que fosse rápido à agência dos Correios em Salvador, pois os livros poderiam ser destruídos a qualquer momento, sem que nem soubéssemos por quê. Ela não pôde fazer muito: os Correios consideram que, até ser entregue, a correspondência pertence ao remetente, não ao destinatário, e portanto apenas eu, não ela, tinha direito a saber algo. O argumento lógico de que eu me encontrava em outra cidade, e ela, destinatária, igualmente interessada na encomenda, é que estava ali em Salvador, não sensibilizou ninguém. Graças apenas a uma boa conversa pessoal, Bete conseguiu que uma funcionária procurasse e lhe mostrasse a caixa onde eu havia enviado os livros: estava despedaçada e, dentro dela, havia um… relógio!

Nesse meio tempo, eu preenchia no site dos Correios um “pedido de informação”, a única providência que um usuário que se sente lesado pode tomar, acreditem. E deveria aguardar 5 dias úteis pela resposta dos Correios. Essa resposta só chegou muito depois do tempo previsto (os Correios alegaram que mandaram a resposta por e-mail, mas o fato é que não a recebi). Acionar a Ouvidoria do órgão também de nada ajudou, pois não obtive resposta ao meu pleito.

Para encurtar a história, os Correios me informaram que meus preciosos livros – publicados há mais de 50 anos, em edições esgotadíssimas, e que para mim têm um valor sentimental incalculável, pois foram escritos por minha mãe, já morta – foram roubados do caminhão (isto mesmo, caminhão, embora haja voos diários entre as cidades) que os transportava pelos 600 km que separam Maceió de Salvador. Esse serviço de entrega por caminhão – que, fiquei sabendo, é usado em várias partes do Brasil – é terceirizado. O grande argumento dos funcionários dos Correios que comigo conversavam por telefone era: “Mas o roubo não aconteceu nas dependências dos Correios!”, como se a instituição não fosse a responsável pela entrega final do pacote. E ainda comentavam: “Pois é, minha senhora, este país está uma coisa horrível mesmo, cheio de assaltos...”

Enquanto eu estava na agência daqui me informando sobre o assunto (quantas horas, quantos dias perdidos de pura tensão, para nada!), vi um funcionário dos Correios – ou de empresa terceirizada, não sei – recolher o sedex daquele dia da agência: ele, que dirigia uma perua como a da imagem deste texto, estacionou em frente á agência, abriu as portas da perua – deixando à mostra os outros pacotes que lá estavam – e entrou na agência, passando a carregar para a perua, um a um, os pesados sacos contendo as encomendas sedex. Ao terminar, fechou as portas do veículo, retomou o volante e partiu para repetir a mesma tarefa em outra agência. Nem ele nem a carga (muitas com objetos de valor, todo mundo sabe disso) recebiam qualquer proteção.

O que eu posso fazer? Segundo os Correios, levar cópias de vários documentos meus até a agência onde postei o pacote, preencher lá minucioso formulário, e aguardar até que me devolvam o dinheiro que gastei na postagem, acompanhado de cinquenta reais. É, cinquenta reais.

Decidi acionar judicialmente os Correios. Meu interesse não é tanto o valor pecuniário que acho que me devem por não terem cumprido seus serviços (minha perda é incalculável), mas o fato de – descobri ao conversar com diversas pessoas sobre o assunto – os desvios de encomendas sedex serem hoje frequentes. Muita gente, de vários estados, me contou ter passado pelo mesmo problema. Suas perdas foram enormes – desde objetos de valor, como laptops, que por isso mesmo foram enviados por sedex, até perda de inscrição em concurso público, passando pelo extravio de um remédio urgente, destinado a alguém que muito precisava dele.

Pelo que me foi dito, os desvios de cargas do sedex têm sido constantes. Acho que os Correios devem ser responsabilizados por isso, para tomarem uma providência. Acho que todos os prejudicados devem entrar na Justiça, por mais aborrecido e tenso e trabalhoso que isso seja. Pois pode ser a única brecha que nos deixaram para chamar à consciência uma instituição que já foi sinônimo de qualidade no Brasil, e hoje pode deixar de cumprir obrigações, lesando seus usuários, como aconteceu comigo.

Eu não confio mais no sedex.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Sempre valeu a pena


Retorno de uma viagem agradável ao interior de Minas e de São Paulo. Nesses interiores, encontrei por acaso uma antiga aluna, minha orientanda no mestrado e doutorado. Foi uma festa nosso encontro, uma alegria. Ela hoje é professora da UNESP, onde desenvolve bonita carreira, como pesquisadora inclusive. São esses os frutos maiores do ensino, que exerci durante décadas: ajudar a formar gente de qualidade, que ajudará a formar outros, que ajudarão...


O encontro me fez lembrar deste pequeno texto que escrevi em março de 2004, quando me dei conta de que minha última orientanda (Leny Caselli Anzai, profa. da UFMT) defenderia seu doutorado no dia seguinte, na Universidade de Brasília. Seria meu último compromisso universitário, pois eu já me encontrava aposentada. Sentei-me então em frente ao computador e escrevi este pequeno texto nada acadêmico, que no dia seguinte li para uma platéia comovida, durante o intervalo da defesa, e ainda expressa o que sinto:
Sempre valeu a pena


Sempre valeu a pena, desde as escolinhas que montávamos nos saguões dos prédios da nossa infância, onde as crianças mais velhas, como eu, se punham no papel de sádicos professores, e as menores, no de obedientíssimos alunos, obediência garantida graças ao mais antigo dos métodos, a supremacia da nossa força física. Aos nove anos, eu examinava e aprovava os deveres de casa dos meus primeiros alunos: desenhos sobre o que cada um achava a coisa mais bonita do mundo. Em meio a singelas casinhas, figuras de mamães e flores, destacou-se o desenho de uma prima de cinco anos de idade: um homem nu em folha inteira, órgão sexual masculino detalhadíssimo, primeiro plano. O desenho provocou a imediata expulsão de sua autora da escola: "Pouca vergonha, aqui na minha escola, não!", gritei-lhe, dedo em riste, do alto do meu autoritarismo. Este desenho me ensinou a primeira grande lição como professora, aprendida naquela mesma noite, quando, trancada no banheiro, eu examinava cheia de espanto a obra da pequena prima – que, em vez de rasgar, espertamente enfiara no bolso –, e, boquiaberta, pensava: "Puxa vida, minha aluna sabe mais do que eu!”


Daí em diante, foi sempre assim. Aprendi com os sorrisos, a irreverência e a energia deles, à medida que a minha própria energia ia diminuindo, transmutada em ar fresco que me entrava pulmão adentro, a cada manhã renovando a vida. Aprendi com a ignorância, a cultura e a curiosidade deles (como a da caloura que, após a primeira aula da última disciplina de graduação que ensinei, perguntou, olhinhos brilhantes de expectativa: "Então, fessora, nesse seu curso vai ou não vai rolar stress?"). Aprendi, sobretudo com os orientandos da pós: por mais que eu me esforçasse, jamais encontraria "A" fórmula para orientá-los, pois cada um era e é único e ao mesmo tempo múltiplo, transformando-se à medida que seu trabalho de pesquisa amadurecia. Se alguma coisa havia a aprender com aquela troca, era a respeitá-los e aos seus caminhos. Para mim, eles e elas é que sempre valeram a pena.

Nesses últimos 30 anos, mesmo nos piores momentos de uma profissão que no Brasil é difícil, quando me senti sufocada pela burocracia insana, pelas tentativas de vários grupos para assassinar o recém-nascido sistema universitário brasileiro, mesmo nos piores momentos, quando me senti desanimada, desvalorizada ou incompetente, jamais duvidei de que eles e elas, sim, sempre valeram a pena.
*Imagem daqui.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O último dinossauro da Terra

Amigos, hoje tem poema aqui.
PS - Estou viajando para o interior de Minas e São Paulo, retorno daqui a uma semana. Abraços e até lá.

segunda-feira, 1 de março de 2010

José Mindlin: “Eu não faço nada sem alegria”



José Mindlin nos deixou. Absolutamente apaixonado por livros e por tudo o que dissesse respeito a eles, Mindlin, ao longo de 80 anos – desde os 15 de idade, pois faleceu em 28/02/10, aos 95 –, formou sua magnífica, extraordinária biblioteca de mais de 17.000 títulos e 40.000 volumes, entre os quais obras e edições raríssimas no Brasil, principalmente da história e literatura. Lá estão, entre muitos outros, o primeiro livro editado em nosso país, a primeira edição e manuscritos de importantes livros, além de documentos históricos do mais alto valor. A biblioteca sempre foi aberta aos pesquisadores interessados.


Advogado e jornalista na juventude, em 1950 Mindlin fundou a Metal Leve, tornando-se durante décadas um industrial brasileiro de ponta, com todos os desafios que isso significava e significa. Paralelamente a esse trabalho, continuou lendo, formando sua biblioteca ao lado da mulher, Guita, também apaixonada por livros, e participando das diversas instituições e iniciativas ligadas à cultura, como o MASP, a USP, a FAPESP, o CNPq... a lista é imensa. Em 2006, em meio ao reconhecimento geral e às muitas homenagens que recebeu, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Dizia-se leitor, não escritor, mas escreveu dois importantes e deliciosos livros: Uma Vida entre Livros – Reencontros com o tempo e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Em 1998, lançou o CD O Prazer da Poesia, em que reuniu e leu os poemas de que mais gostava. Mindlin realmente acreditou na cultura, por ela trilhou sua vida, por ela travou suas batalhas, esse homem pacífico. O mais importante: fazia tudo isso com entusiasmo, com alegria, doando-se integralmente. Não por acaso no seu ex-libris – vinheta que bibliófilos colam na contracapa de seus livros – , estava escrita esta frase de Montaigne, na ortografia francesa do século XVI: Je ne fay rien sans gayeté, Não faço nada sem alegria.


Tive o prazer e a honra de conhecer José Mindlin. Recebeu-me há alguns anos em sua casa no Brooklin, SP, com a maior gentileza, ao lado de Guita, a companheira querida de décadas (falecida em 2006), que, para ajudar o marido, aprendera a arte da encadernação. O casal foi extremamente amável comigo – não me refiro só a etiqueta, a bons modos, mas àquela amabilidade que sai do coração e nos chega quente, aconchegante, vinda de gente culta mas sem pedantismo algum, gente alegre, informal, sobretudo humana, que aproveitou a experiência da vida e a cultura para tornar-se ainda melhor como gente.


Passei horas extremamente agradáveis com o casal. Mindlin falava muito, sorria, mostrava quadros e livros, trazia à conversa informações e anedotas de uma estonteante variedade de fontes. Guita, mais contida, sorriso leve, no momento certo pronunciava aquela frase que faltava, acrescentava o bom senso em que nenhum de nós dois havia até então pensado. Nessa tarde, visitei a famosa biblioteca (para mim, espécie de templo), situada nos fundos do terreno da residência do casal – bastava alguns passos para que a alcançassem –, aprendi muito e me diverti, perdida de reconhecimento, admiração e carinho pelo casal. Voltei à casa algumas vezes: entre os poetas preferidos de Mindlin estava minha mãe, Jacinta Passos, cujo poema “Cantiga das mães” – um dos favoritos também de Guita - ele incluíra no seu Cd de poesia. Conversamos a respeito do livro que eu organizava, sobre minha mãe. Ele não só deu sugestões como, no ano passado, mesmo recém saído de uma internação de um mês no hospital, o que o enfraquecera muito, escreveu um texto simples e absolutamente pessoal sobre a poesia de Jacinta Passos. Este texto abrirá o livro dela, que sairá publicado este ano. Sou profundamente grata a Mindlin e à sua filha Betty por este gesto, e por tudo o que José e Guita fizeram pela cultura e educação no Brasil. São exemplos.


Como o casal queria que os tesouros de sua biblioteca alcançassem o maior número possível de pessoas, doaram a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin à Universidade de São Paulo, que a está agora digitalizando. A beleza e relevância desse acervo, assim como o ótimo trabalho que está sendo realizado com ele, pode ser conferido neste site.

PS: Sobre o importante assunto tratado no blog anterior - plágio em tradução, e processo da Landmark contra Denise Bottmann -, está circulando na internet um manifesto de apoio à tradutora, assinado por gente de muita expressão na área. Para obter mais informações sobre o assunto e o texto do manifesto, entre aqui.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Derek Walcott: sobre traduções e plágio

No post anterior, apresentei o poeta caribenho Derek Walcott, seu poema "A far cry from Africa" (um dos meus preferidos), e a tradução do poema em português, feita por Thereza Christina Rocque da Motta. Hoje, apresento-lhes uma outra tradução do mesmo poema, realizada por Ricardo Cabús. Minha intenção é tanto homenagear Walcott – um dos mais importantes poetas contemporâneos, ainda pouco conhecido no Brasil –, como homenagear os tradutores (estes seres tão amaldiçoados), chamando a atenção para seu difícil trabalho: pois as possibilidades que cada tradutor tem diante de um texto são múltiplas, quase infinitas, e não é fácil decidir entre elas. Isso se pode comprovar pela simples comparação entre as duas traduções apresentadas, aqui e no post anterior. Ricardo e Thereza buscaram soluções próprias para os desafios que encontraram, ao traduzir o difícil poema de Walcott. Daí provêm as diferenças entre suas traduções. As razões de suas escolhas, eles próprios saberão justificar.

Pois bem: havia eu preparado os dois posts (este, pensei em publicar somente daqui a alguns dias, para os leitores terem tempo de ler o anterior), quando uma notícia me chamou a atenção hoje: a tradutora Denise Bottmann, em seu blog naogostodeplagio.blogspot.com, havia denunciado que as traduções de O Morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, e Persuasão, de Jane Austen, publicadas pela editora Landmark, eram plágios de antigas traduções portuguesas. Para comprovar, Denise apresentou trechos das traduções em Portugal e no Brasil, demonstrando que elas são praticamente idênticas, inclusive nos erros. Pois bem: por denunciar uma farsa, Denise... está sendo processada pelo proprietário da editora, que entrou inclusive com liminar (que o juiz negou), para que o blog fosse preventivamente retirado do ar! Ficam nossos protestos contra todos os tipos de plágio, assim como nossa solidariedade àqueles que têm coragem de denunciar e comprovar os plágios.

Abaixo, o poema de Walcott em tradução de Ricardo Cabús (original do poema no post anterior), a provar que uma tradução jamais é igual a outra, e que suas diferenças não residem em pormenores apenas, mas nas escolhas substanciais dos tradutores, esses recriadores:


Um grito distante da África

Um vento está eriçando a pele morena
Da África, Kikuyu, rápido como moscas,
Deleitando-se na corrente sanguínea da savana.
Cadáveres são espalhados por um paraíso.
Apenas o verme, coronel da carniça, grita:
“Não tenham compaixão com estes mortos isolados!”
As estatísticas justificam e os estudiosos apreendem
As saliências da política colonial.
O que é isso para a criança branca mutilada na cama?
Para selvagens, dispensáveis como judeus?
Esmagados por agressores, os longos ataques irrompem
Em uma nuvem branca de íbis cujos gritos
Ecoam desde o amanhecer das civilizações.
Do rio ressequido ou de planícies repletas de animais
A violência entre as feras é entendida
Como uma lei natural, mas o homem ereto
Busca sua divindade infligindo dor.
Delirantes como estas bestas atormentadas, suas guerras
Dançam ao som agudo de um tambor,
Enquanto ele ainda chama coragem esse medo nativo
Da paz branca conquistada através dos mortos.

De novo, a necessidade estúpida limpa suas mãos
No guardanapo de uma causa suja, de novo
Um desperdício de nossa compaixão, como com a Espanha,
O gorila luta com o super-homem.
Eu que estou envenenado com o sangue de ambos,
Para onde devo seguir, com a veia dividida?
Eu que tenho xingado
O funcionário britânico viciado, como escolher
Entre esta África e a língua inglesa que eu amo?
Trair ambas ou devolver o que elas dão?
Como posso enfrentar tal massacre e ficar bem?
Como posso abdicar da África e viver?


Derek Walcott
(Tradução de Ricardo Cabús, poeta, tradutor e professor brasileiro)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um grito distante da África


Nascido em 1930 no Caribe, na pequena ilha de Santa Lúcia, ex-colônia britânica, Derek Walcott ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1992. É considerado um dos maiores poetas contemporâneos de língua inglesa. De sintaxe e pensamento complexos, articula questões dentro do que se convencionou chamar “literatura pós-colonial”, ou seja, a literatura dos escritores nascidos em ex-colônias, que, hoje, interrogam o futuro e o presente à luz do que a história lhes plasmou. Apaixonei-me pela poesia de Derek Walcott desde que li o poema abaixo; gosto especialmente da segunda estrofe. Desconheço traduções de livros de Derek Walcott no Brasil: já passou da hora de termos sua obra divulgada aqui.

PS: Meu amigo Sidney Wanderley me fez ver que, em 1994, a Companhia das Letras publicou a principal obra de Derek Walcott, Omeros, em tradução de Paulo Vizioli. Obrigada, Sidney, fica o registro aqui. E lá vou eu, correndo, comprar este livro!

Um grito distante da África


Um vento brame o escuro tambor
da África, dos Kikuyu, rápido como moscas,
que vivem nas veias que cortam os campos.
Cadáveres se espalham pelo paraíso.
Apenas o verme, nos restos mortais, exclama:
– Não se compadeçam destes infelizes!
As estatísticas justificam e os especialistas se agarrama
os aspectos da política colonialista.
O que é isto para a criança branca mutilada em sua cama?
Para os selvagens, desprezíveis como os judeus?
Flagelada por batedores, os longos ataques rompem
em brancas nuvens de íbices, cujos gritos
reverberam desde os primórdios das civilizações
do rio seco ou das planícies repletas de animais.
A violência entre animais é vista
como lei natural, mas o homem ereto
busca a divindade infligindo a dor.
Loucos como animais horrendos, suas guerras
dançam ao som abafado dos tambores,
enquanto clama por coragem esse temor nativo
da branca paz contraída pelos mortos.

Novamente a necessidade brutal lava as mãos
no guardanapo de uma causa suja, novamente
desperdiça-se nossa compaixão, como na Espanha,
o gorila se bate com o super-homem.
Envenenado pelo sangue de ambos,
o que me restará, dividido ao meio?
Eu que xinguei
o oficial embriagado pela lei britânica, como escolher
entre esta África e a língua inglesa que amo?
Trair os dois, ou dar a eles o que me dão?
Como encarar essa mortandade e manter-me lúcido?
Como dar as costas à África e viver?

Derek Walcott
(Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, poeta, tradutora e editora brasileira)

A far cry from Africa

A wind is ruffling the tawny pelt
Of Africa, Kikuyu, quick as flies,
Batten upon the blood streams of the veldt.
Corpses are scattered through a paradise.
Only the worm, colonel of carrion, cries:
"Waste no compassion on these separate dead!
"Statistics justify and scholars seize
The salients of colonial policy.
What is that to the white child hacked in bed?
To savages, expendable as Jews?
Threshed out by beaters, the long rushes break
In a white dust of ibises whose cries
Have wheeled since civilizations dawn
From the parched river or beast-teeming plain.
The violence of beast on beast is read
As natural law, but upright man
Seeks his divinity by inflicting pain.
Delirious as these worried beasts, his wars
Dance to the tightened carcass of a drum,
While he calls courage still that native dread
Of the white peace contracted by the dead.

Again brutish necessity wipes its hands
Upon the napkin of a dirty cause, again
A waste of our compassion, as with Spain,
The gorilla wrestles with the superman.
I who am poisoned with the blood of both,
Where shall I turn, divided to the vein?
I who have cursed
The drunken officer of British rule, how choose
Between this Africa and the English tongue I love?
Betray them both, or give back what they give?
How can I face such slaughter and be cool?
How can I turn from Africa and live?

Derek Walcott

*Imagem daqui.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Tempos dionisíacos


Dyonisio

Ungido para o fado e a nova festa
meu carnaval profano já celebra
as quarentenas dívidas da carne Adicionar imagem
na cela de costela das mulheres.

Como devasso réu, confesso fauno,
no vinho das delícias me declaro
sem culpa e sem pecado original
pois nessa pena sou igual a tantos.

Já disse certa vez em cantoria:
de nada me arrependo e reconfirmo
agora que o meu tempo é só de gozo.

A vida que me dou não dá guarida
nem guarda desalentos de tristeza
somente na alegria é que me morro.


Anibal Beça

(Palavra parelha. Edições Galo Branco, 2008, p.189).


[Outro dia, topei com um lindo poema de Anibal Beça no Gira Mundo!. Comentei lá que não conhecia o poeta, mas aquele seu poema havia me encantado. A poeta Nydia Bonetti, em e-mail para mim, reforçou a qualidade de Anibal Beça. Animada, adquiri um livro do poeta, Palavra parelha e outros poemas, nele descobrindo uma poesia (que eu antevira precisa e seca, imaginem) caudalosa, múltipla, lúdica, cuidadosa, inteligente, desigual porém inesgotável, em formas, temáticas, fascínio: poesia amazônica, que me fisgou, poesia-boto encantada, chegada via blogosfera – obrigada às duas e-amigas –, que veio para ficar comigo, em casa, no coração, na imaginação.

Homem de múltiplas atividades, poeta, compositor, jornalista, Anibal Beça nasceu em Manaus (1946), onde também faleceu, no ano passado, aos 63 anos de idade. Deixa obra vasta, em poesia, ensaios, letras de música, crítica e artigos jornalísticos, que merece ser cada vez mais conhecida, divulgada e estudada, e da qual o lindo soneto acima é pequena amostra.]
* Imagem: Baco, de Caravaggio

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy









Para escrever esta história, tenho de sair de onde estou, fazer uma longa viagem por lugares que não conheço, terras onde nunca pisei. Uma viagem de volta, ainda que eu não tenha saído de lugar algum. Não sei se conseguirei realizá-la, se algum dia sairei do meu próprio quarto, mas a urgência existe (p.12).

Ao terminar de ler, muito emocionada, A Chave da Casa, fiquei pensando sobre qual seria o tema principal do livro. O primeiro que me ocorreu foi a dor, depois pensei na viagem e, finalmente, cheguei à herança. O livro é sobre tudo isso, uma travessia encharcada de dor em busca da própria herança: uma neta recebe do avô a chave da casa que ele deixara em Esmirna, ao emigrar da Turquia para o Brasil, e decide buscar em terras estranhas a própria história. O livro é também sobre outras coisas – memória, doença, sexo, afeto, corpo, amor, medo… –, enfim, sobre o que importa na vida. O espantoso é que a autora tinha apenas 28 anos em 2007, quando publicou este primeiro romance, que, pela densidade, parece ter muito mais do que as suas 206 páginas.

A Chave da Casa
ganhou o Premio São Paulo de Literatura de 2008, como melhor livro estreante, e no mesmo ano foi finalista do Jabuti e do Zaffari e Boubon, de forma que muito já foi escrito sobre ele. Minha intenção aqui é modesta: recomendar com entusiasmo a leitura do romance – além da qualidade literária, é também daqueles que a gente não consegue largar, inteiramente rendida a seus mistérios e tramas —, e registrar alguns sentimentos e ideias que tive, à medida que lia.

Tatiana Salem Levy denomina seu livro de “autoficção”, isto é: apesar da narrativa ser em primeira pessoa, não são memórias da autora. É um texto que usa o material da memória de forma criativa, sem muito compromisso com os acontecimentos em si, mas com os significados afetivos dos acontecimentos, e com seu rendimento literário.

Adorei a ideia de “autoficção”. Como o leitor nunca sabe o que “aconteceu de fato” (como se isso existisse) na vida de Tatiana e de sua família, e o que foi inventado ou livremente associado por ela, fica perdido no jogo verdade x mentira. E acaba por desistir dele, mergulhando na narrativa pelo que ela é, uma ficção que atrai, emociona e se sustenta por si mesma, descolada da veracidade dos fatos, apoiada na veracidade dos sentimentos. Tatiana resolve assim a dicotomia entre teoria, história e memória, de um lado, e ficção, do outro, o que para ela deve ter sido em algum momento uma questão importante, já que este romance – pasmem – foi originalmente apresentado como tese de doutorado à PUC do Rio, na área de literatura brasileira contemporânea.

A voz da narradora (que, no romance clássico, representa A voz da autoridade), neste romance é frequentemente desautorizada pela voz da mãe, que a recrimina por ser dramática demais, passando a recontar os mesmos fatos a partir de outros sentimentos e perspectivas. Assim a narradora conta o próprio nascimento:

Nasci no exílio em Portugal, de onde séculos antes a minha família havia sido expulsa por ser judia. […] Nasci fora do meu país, no inverno, num dia frio e cinzento. Duas horas de contração sem poder parar, porque eu não tinha virado e a anestesista não estava lá. Penou, minha mãe, para me ter. E, quando vim ao mundo, ela nem pôde me segurar nos braços, tinham-lhe dado anestesia geral. Pior: quanta acordou, percebeu que lhe tinham feito um corte na vertical. (p.25)

Mas, logo a seguir, entra a voz da mãe:

Lá vem você, narrando sob o prisma da dor. O exílio não é necessariamente sofrido. No nosso caso, não foi. […] Quando você nasceu, não estava frio nem cinzento. Não penei para parir. Não tomei anestesia geral nem tenho cicatriz, você nasceu de parto normal.
(p.26)

Assim, o leitor não apenas não consegue distinguir o que foi fato ou invenção em A Chave da Casa, como fica exposto a diferentes formas de inventar, uma desautorizando (na verdade, complementando) a outra, a diferentes versões para o mesmo fato (concreto ou criado). Isso é que é provocar os leitores...

O livro gira em torno de três eixos: a viagem da narradora à Turquia e Portugal, em busca da própria história; a relação, fortemente sexualizada e com características sadomasoquistas, entre a narradora e um homem; e a doença e morte da mãe da narradora. As três histórias se intercalam, mas seus enredos não são entrelaçados. E no entanto existem muitos laços entre elas, já que foram vivenciadas e contadas pela mesma pessoa, cabendo ao leitor descobrir ou imaginar quais são. Minha imaginação já voou um bocado em torno disso, a começar do corpo purulento da jovem que recebe a chave do avô, passando pelo corpo dominado pelo prazer da mesma jovem, ao corpo que, para não ser vencido pela morte, dialoga com fantasmas. O círculo é infinito, o leitor pode arrumá-lo e desarrumá-lo como desejar.

Meu único reparo ao livro vai para a parte final, quando os conflitos começam a ser “resolvidos”. Tive um pouco a sensação de pressa, como se a autora precisasse encerrar logo as histórias tão bem trabalhadas ao longo do romance. Não gosto da cena da tortura da mãe, que me parece excessiva (foi excessiva também na vida, eu sei), nem da cena do assassinato: as duas me parecem pesar sobre a narrativa, enfraquecendo-a. Mas o fechamento de A Chave da Casa, que li sempre profundamente comovida, à beira do choro ou em lágrimas, volta a ser magnífico.

Como é bom encontrar novos grandes autores na literatura brasileira.

*Imagens: capa do livro e foto da autora.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Borboleta – a passagem


Quando eu viro borboleta fico fininha, fininha, trespassada de luz. Na leveza do meu ser vejo o mundo lá de cima, sinto a brisa deliciosa da primavera roçar as extremidades das minhas asas.

Conheço todas as flores da casa pelo cheiro. Ao nascer do dia, as antenas me levam até o perfume estonteante dos crisântemos; com o sol a pino, sou atraída pelo frescor das folhas de laranjeira, os delicados aromas dos miosótis me seduzem no fim da tarde. Vagabunda dos ares, adoro oferecer-me ao sol que, em troca, vai mudando minhas tonalidades de acordo com sua posição, ao som das músicas do universo que as pessoas não conhecem, mas as borboletas ouvem, sim. Quando viro borboleta sou solta, sou leve, sopro livre de vida do planeta.

Muitas pessoas acham as borboletas superficiais, inconstantes, espécies de dondocas do ar. Nada mais falso. Nós, borboletas, existimos desde tempos imemoriais, nascemos no instante mesmo da criação do universo. E, antes de ser borboleta, fomos lagarta. Como lagarta conheci os sofrimentos dos mundos subterrâneos, compartilhei os gritos dos condenados para sempre à escuridão, ouvi e emiti o murmúrio surdo, ressentido, das entranhas da terra. Arrastei-me aos pés dos outros, comi pó, me alimentei de beiradas de folhas, virei alimento de pássaros. Apesar dos meus esforços para disfarçar-me, como lagarta fui pisoteada, humilhada e morta, a pau, a pedra, a inseticida.


Vivi também a imobilidade e o silêncio da crisálida. Pendurada em algum canto escuro de uma parede esquecida, ou colada a um tronco onde não podiam me distinguir, grávida da beleza vivenciei a doação extrema que é morrer, para dar vida a outro ser. Antes de me extinguir como crisálida, porém, durante aquele período de completo isolamento, tornei-me totalmente translúcida. Limpa das maldades do mundo, pude renascer borboleta.

Nós, borboletas, somos seres depurados. Nos quarenta breves dias de minha vida, recolhi e experimentei todos os tumultos, traições, invejas e culpas espalhados pelos ares e, ao fazer isso, ajudei a purificar o planeta. Respondi aos imensos desafios da minha curta existência modificando-me por inteiro. Por duas vezes transmutei-me em outro alguém, completamente diferente do anterior. Nós, borboletas, somos essência, sumo purificado dos séculos, ar nascido do barro, sofrimento expurgado: delicadeza. Os antigos gregos, que tudo sabiam, descobriram também meu verdadeiro nome: Psyché, a alma, aquela que, liberta do corpo, borboleteia pelos céus descaradamente bela, entre flores e deuses.

Quando eu era bem pequena, me sentia borboleta o tempo inteiro, o vento tocando as pontinhas das minhas antenas, que tremelicavam quando eu mexia a cabeça cheia de cachos. Se alguém entrava na sala e me surpreendia toda colorida batendo as asas, cheirando flores, respirando pelos buraquinhos invisíveis do meu corpo ou brincando com as mariposas enquanto vestia bonecas e afagava bichos de pelúcia, este alguém invariavelmente abanava a cabeça, sorrindo: Criança pequena tem cada uma! Resultado: eu continuava borboleta, e elas, gente.

Com o tempo, percebi que os adultos estranhavam cada vez mais meu comportamento. Olhavam-me sérias, ar preocupado: O que tem essa menina, que não larga das flores? E essa mania agora de dizer que já foi largarta, história mais esquisita! Não tardaram as recriminações, as ordens, os tapas. Surpresa, sofrida, compreendi enfim que eu não era apenas borboleta, era borboleta e menina.

Dupla identidade difícil de gerir, pois os dois mundos, o das borboletas e o dos humanos, não se tocam, jamais se comunicam: opõem-se. Junto à bivó e à Pingá, minha querida cachorrinha, nas horas gostosas do banho, de sonhar acordada, chupar sorvete de manga, receber e dar carinho, andar descalça esparramando os dedos dos pés, nessas horas eu me transformo na mais linda borboleta cor de anil do mundo, salpicada de pintas e estrelas, dona de dois falsos olhos que enlouquecem qualquer ser alado. No restante do tempo, sou gente mesmo.

Sinto que meu tempo de borboleta está terminando. Minhas asas tornam-se cinzentas e nem sempre me obedecem. Meus vôos são agora tortos, desajeitados. Não consigo mais fazer meu corpo respirar inteiro. Definitivamente, perdi aquela capacidade de me soltar pelo mundo em busca do sol, de migrar com as amigas para longe do frio, voar rumo à luz, ao calor, às cores tropicais, àquele lugar mágico onde terra e mar se encontram, e se antevê o paraíso. Aflita, tento economizar ao máximo meu eu-borboleta, mas ele se esvai. Sinto que muito em breve não mais existirá. Por quê? Estou deixando para sempre a infância.

E todo mundo sabe: adulto não voa.


* Imagem daqui.

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