quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy









Para escrever esta história, tenho de sair de onde estou, fazer uma longa viagem por lugares que não conheço, terras onde nunca pisei. Uma viagem de volta, ainda que eu não tenha saído de lugar algum. Não sei se conseguirei realizá-la, se algum dia sairei do meu próprio quarto, mas a urgência existe (p.12).

Ao terminar de ler, muito emocionada, A Chave da Casa, fiquei pensando sobre qual seria o tema principal do livro. O primeiro que me ocorreu foi a dor, depois pensei na viagem e, finalmente, cheguei à herança. O livro é sobre tudo isso, uma travessia encharcada de dor em busca da própria herança: uma neta recebe do avô a chave da casa que ele deixara em Esmirna, ao emigrar da Turquia para o Brasil, e decide buscar em terras estranhas a própria história. O livro é também sobre outras coisas – memória, doença, sexo, afeto, corpo, amor, medo… –, enfim, sobre o que importa na vida. O espantoso é que a autora tinha apenas 28 anos em 2007, quando publicou este primeiro romance, que, pela densidade, parece ter muito mais do que as suas 206 páginas.

A Chave da Casa
ganhou o Premio São Paulo de Literatura de 2008, como melhor livro estreante, e no mesmo ano foi finalista do Jabuti e do Zaffari e Boubon, de forma que muito já foi escrito sobre ele. Minha intenção aqui é modesta: recomendar com entusiasmo a leitura do romance – além da qualidade literária, é também daqueles que a gente não consegue largar, inteiramente rendida a seus mistérios e tramas —, e registrar alguns sentimentos e ideias que tive, à medida que lia.

Tatiana Salem Levy denomina seu livro de “autoficção”, isto é: apesar da narrativa ser em primeira pessoa, não são memórias da autora. É um texto que usa o material da memória de forma criativa, sem muito compromisso com os acontecimentos em si, mas com os significados afetivos dos acontecimentos, e com seu rendimento literário.

Adorei a ideia de “autoficção”. Como o leitor nunca sabe o que “aconteceu de fato” (como se isso existisse) na vida de Tatiana e de sua família, e o que foi inventado ou livremente associado por ela, fica perdido no jogo verdade x mentira. E acaba por desistir dele, mergulhando na narrativa pelo que ela é, uma ficção que atrai, emociona e se sustenta por si mesma, descolada da veracidade dos fatos, apoiada na veracidade dos sentimentos. Tatiana resolve assim a dicotomia entre teoria, história e memória, de um lado, e ficção, do outro, o que para ela deve ter sido em algum momento uma questão importante, já que este romance – pasmem – foi originalmente apresentado como tese de doutorado à PUC do Rio, na área de literatura brasileira contemporânea.

A voz da narradora (que, no romance clássico, representa A voz da autoridade), neste romance é frequentemente desautorizada pela voz da mãe, que a recrimina por ser dramática demais, passando a recontar os mesmos fatos a partir de outros sentimentos e perspectivas. Assim a narradora conta o próprio nascimento:

Nasci no exílio em Portugal, de onde séculos antes a minha família havia sido expulsa por ser judia. […] Nasci fora do meu país, no inverno, num dia frio e cinzento. Duas horas de contração sem poder parar, porque eu não tinha virado e a anestesista não estava lá. Penou, minha mãe, para me ter. E, quando vim ao mundo, ela nem pôde me segurar nos braços, tinham-lhe dado anestesia geral. Pior: quanta acordou, percebeu que lhe tinham feito um corte na vertical. (p.25)

Mas, logo a seguir, entra a voz da mãe:

Lá vem você, narrando sob o prisma da dor. O exílio não é necessariamente sofrido. No nosso caso, não foi. […] Quando você nasceu, não estava frio nem cinzento. Não penei para parir. Não tomei anestesia geral nem tenho cicatriz, você nasceu de parto normal.
(p.26)

Assim, o leitor não apenas não consegue distinguir o que foi fato ou invenção em A Chave da Casa, como fica exposto a diferentes formas de inventar, uma desautorizando (na verdade, complementando) a outra, a diferentes versões para o mesmo fato (concreto ou criado). Isso é que é provocar os leitores...

O livro gira em torno de três eixos: a viagem da narradora à Turquia e Portugal, em busca da própria história; a relação, fortemente sexualizada e com características sadomasoquistas, entre a narradora e um homem; e a doença e morte da mãe da narradora. As três histórias se intercalam, mas seus enredos não são entrelaçados. E no entanto existem muitos laços entre elas, já que foram vivenciadas e contadas pela mesma pessoa, cabendo ao leitor descobrir ou imaginar quais são. Minha imaginação já voou um bocado em torno disso, a começar do corpo purulento da jovem que recebe a chave do avô, passando pelo corpo dominado pelo prazer da mesma jovem, ao corpo que, para não ser vencido pela morte, dialoga com fantasmas. O círculo é infinito, o leitor pode arrumá-lo e desarrumá-lo como desejar.

Meu único reparo ao livro vai para a parte final, quando os conflitos começam a ser “resolvidos”. Tive um pouco a sensação de pressa, como se a autora precisasse encerrar logo as histórias tão bem trabalhadas ao longo do romance. Não gosto da cena da tortura da mãe, que me parece excessiva (foi excessiva também na vida, eu sei), nem da cena do assassinato: as duas me parecem pesar sobre a narrativa, enfraquecendo-a. Mas o fechamento de A Chave da Casa, que li sempre profundamente comovida, à beira do choro ou em lágrimas, volta a ser magnífico.

Como é bom encontrar novos grandes autores na literatura brasileira.

*Imagens: capa do livro e foto da autora.

12 comentários:

cirandeira disse...

Oi janaína, peguei a máquina de volta! Espero que ela esteja "bem afiada" desta vez, pq eu, ando meio
borocochô por esses dias...!
Tua resenha sobre o livro de Tatiana Levy(não a conhecia)é simplesmente fantástica:tive a nítida sensação de estar lendo "A Chave da Casa", ao mesmo tempo que
me deu uma vontade muito forte de
ter o livro em mãos para lê-lo em seguida.Parabéns para ti e para a autora!
Beijos

Vanessa Gil disse...

Eu também adorei este livro, já dei de presente pra muitas amigas minhas.

Dalva disse...

Uma dica excelente. Não conheço a autora, mas fiquei entusiasmada com o círculo história, memória, ficção... Vou anotar na minha lista!

Bjs.

Barbara disse...

Autoficção.
Não estaremos todos nisso não?
A autora foi arrojada e adiantou-se na idéia.
Atraiu-me sua indicação - mas por ora estou lendo os livros da Biblioteca Municipal.
No $...
1 abraço.

Gerana Damulakis disse...

Você sabe como sou aberta, sem radicalismos, sempre pronta para aplaudir, mas não suportei o estilo.
A resenha está maravilhosa.

Lisarda disse...

Oí Jananina, obrigado por teu comentario!Agora frecuentarei o teu blog, 1 beijo

Paloma Siqueira Fonseca disse...

Janaína, sou eu, a Paloma de Brasília. Também li o livro, apaixonei-me por ele e gostaria de escrever uma narrativa tão boa quanto essa. Bem, não achei a cena da tortura sofrida pela mãe tão excessiva, em se tratando de um livro sobre a dor. O que achei excessivo, isso sim, foi o assassinato, pois contrasta com a compreensão que a personagem teve de seu relacionamento com o homem violento (para se libertar dele, precisava matá-lo? e mesmo que consideremos que foi um recurso de imaginação da personagem na trama de 'autoficção' da autora, achei ainda assim demasiado, pois não combina com o perfil da personagem, por mais que se trate de uma mente angustiada - a passagem de vítima dos maus-tratos do outro para autora da violência maior foi um grande contraste; esse recurso do assassinato rompeu, em mim, a afinidade com a personagem narradora). Acrescentaria um outro eixo, ainda que menor, o da história do avô que parte da Turquia para viver no Brasil. Concordo com você quando afirma que a ficção do livro está apoiada na "veracidade dos sentimentos", mas para mim os fatos não perdem sua veracidade, eles ganham a cor da percepção da personagem/autora: o mau-trato, a tortura, a viagem, o assassinato, o sexo, a doença são fatos-verdade recheados de enredo (fatos-verdade no sentido de que são experimentados fisicamente por pessoas - e até mesmo a decomposição do corpo ganha em veracidade, apesar de nenhum ser humano experimentar pessoalmente a decomposição de seu próprio corpo). Que papo pesado, né? Grande abraço.

Anônimo disse...

Depois de ler isso aqui, eu fui correndo comprar o livro. Já o estou lendo, encantada. Muito obrigada pela indicação.
Mariana Vellozo

Aninha Pontes disse...

Pois é.
Minha imaginação também voou, e foi tanto, que estava aqui adivinhando toda a história que vc leu, e não eu.
Mas fiquei curiosa.
Um beijo nosso.

Celso Ramos disse...

Me deu vontade de conferir o livro pelo entusiasmo com o qual você comenta...bela escrita, diga-se de passagem!!!
Abraços, fica na Paz!!!

Marilda Confortin disse...

Oi Janaína. É muito bom mesmo encontrar novos escritores. E é ótimo quando alguém compartilha esse encontro conosco. Adorei esse teu blog. Muito informativo.
Agradeço também as visitas ao meu. E acabei de postar uma prosa sobre borboletas que tinha esquecido. Ao ler teu blog, lembrei. Obrigada.
Beijo.

Em tempo: Para ler outras coisas minhas, clique no menu ao lado direito do meu blog, que os textos estão categorizados.

TARDE disse...

ôpa! Conheci a escritora pessoalmente e estive com ela em duas ocasiões distintas. Curiosamente, ela só fala da viagem e do avô... mas isto deve ser para que seus interlocutores não comprem nem leiam. Muito tímida a autora procura se livrar das pessoas e dos microfones o mais rapido que pode. Parabéns pela sua resenha e aniversário. Obrigado pela visita em meu Blog.
Vi que você é historiadora. Eu finalmente tomei coragem e comecei meu mestrado em História, por enquanto apenas como aluno especial em vias de apresentar um projeto e em busca de um orientador... Abs

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