segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Borboleta – a passagem


Quando eu viro borboleta fico fininha, fininha, trespassada de luz. Na leveza do meu ser vejo o mundo lá de cima, sinto a brisa deliciosa da primavera roçar as extremidades das minhas asas.

Conheço todas as flores da casa pelo cheiro. Ao nascer do dia, as antenas me levam até o perfume estonteante dos crisântemos; com o sol a pino, sou atraída pelo frescor das folhas de laranjeira, os delicados aromas dos miosótis me seduzem no fim da tarde. Vagabunda dos ares, adoro oferecer-me ao sol que, em troca, vai mudando minhas tonalidades de acordo com sua posição, ao som das músicas do universo que as pessoas não conhecem, mas as borboletas ouvem, sim. Quando viro borboleta sou solta, sou leve, sopro livre de vida do planeta.

Muitas pessoas acham as borboletas superficiais, inconstantes, espécies de dondocas do ar. Nada mais falso. Nós, borboletas, existimos desde tempos imemoriais, nascemos no instante mesmo da criação do universo. E, antes de ser borboleta, fomos lagarta. Como lagarta conheci os sofrimentos dos mundos subterrâneos, compartilhei os gritos dos condenados para sempre à escuridão, ouvi e emiti o murmúrio surdo, ressentido, das entranhas da terra. Arrastei-me aos pés dos outros, comi pó, me alimentei de beiradas de folhas, virei alimento de pássaros. Apesar dos meus esforços para disfarçar-me, como lagarta fui pisoteada, humilhada e morta, a pau, a pedra, a inseticida.


Vivi também a imobilidade e o silêncio da crisálida. Pendurada em algum canto escuro de uma parede esquecida, ou colada a um tronco onde não podiam me distinguir, grávida da beleza vivenciei a doação extrema que é morrer, para dar vida a outro ser. Antes de me extinguir como crisálida, porém, durante aquele período de completo isolamento, tornei-me totalmente translúcida. Limpa das maldades do mundo, pude renascer borboleta.

Nós, borboletas, somos seres depurados. Nos quarenta breves dias de minha vida, recolhi e experimentei todos os tumultos, traições, invejas e culpas espalhados pelos ares e, ao fazer isso, ajudei a purificar o planeta. Respondi aos imensos desafios da minha curta existência modificando-me por inteiro. Por duas vezes transmutei-me em outro alguém, completamente diferente do anterior. Nós, borboletas, somos essência, sumo purificado dos séculos, ar nascido do barro, sofrimento expurgado: delicadeza. Os antigos gregos, que tudo sabiam, descobriram também meu verdadeiro nome: Psyché, a alma, aquela que, liberta do corpo, borboleteia pelos céus descaradamente bela, entre flores e deuses.

Quando eu era bem pequena, me sentia borboleta o tempo inteiro, o vento tocando as pontinhas das minhas antenas, que tremelicavam quando eu mexia a cabeça cheia de cachos. Se alguém entrava na sala e me surpreendia toda colorida batendo as asas, cheirando flores, respirando pelos buraquinhos invisíveis do meu corpo ou brincando com as mariposas enquanto vestia bonecas e afagava bichos de pelúcia, este alguém invariavelmente abanava a cabeça, sorrindo: Criança pequena tem cada uma! Resultado: eu continuava borboleta, e elas, gente.

Com o tempo, percebi que os adultos estranhavam cada vez mais meu comportamento. Olhavam-me sérias, ar preocupado: O que tem essa menina, que não larga das flores? E essa mania agora de dizer que já foi largarta, história mais esquisita! Não tardaram as recriminações, as ordens, os tapas. Surpresa, sofrida, compreendi enfim que eu não era apenas borboleta, era borboleta e menina.

Dupla identidade difícil de gerir, pois os dois mundos, o das borboletas e o dos humanos, não se tocam, jamais se comunicam: opõem-se. Junto à bivó e à Pingá, minha querida cachorrinha, nas horas gostosas do banho, de sonhar acordada, chupar sorvete de manga, receber e dar carinho, andar descalça esparramando os dedos dos pés, nessas horas eu me transformo na mais linda borboleta cor de anil do mundo, salpicada de pintas e estrelas, dona de dois falsos olhos que enlouquecem qualquer ser alado. No restante do tempo, sou gente mesmo.

Sinto que meu tempo de borboleta está terminando. Minhas asas tornam-se cinzentas e nem sempre me obedecem. Meus vôos são agora tortos, desajeitados. Não consigo mais fazer meu corpo respirar inteiro. Definitivamente, perdi aquela capacidade de me soltar pelo mundo em busca do sol, de migrar com as amigas para longe do frio, voar rumo à luz, ao calor, às cores tropicais, àquele lugar mágico onde terra e mar se encontram, e se antevê o paraíso. Aflita, tento economizar ao máximo meu eu-borboleta, mas ele se esvai. Sinto que muito em breve não mais existirá. Por quê? Estou deixando para sempre a infância.

E todo mundo sabe: adulto não voa.


* Imagem daqui.

24 comentários:

giramundo disse...

Que coisa mais linda, Janaína! Dizem que em todo lugar onde existem borboletas é sinal que o ar
ainda não está poluído. Elas são lindas, delicadas, purificadoras e
nos inspiram poesia. E estão sempre
renascendo, de uma forma ou de outra. Portanto, não te preocupes,
continua teu voo, porque ainda tem muito néctar nas flores desse teu
lindo jardim.Como as borboletas,
segue polinizando o que tens ao teu alcance. Quanto ao resto...!?
Beijos

Gerana Damulakis disse...

Protesto! Adulto sabe voar e, com a experiência, o voo é mais seguro.
Isso mesmo: muda o tipo de voo. Sabedor dos limites para não espatifar as asas (como ocorre com muitos jovens), o adulto voa apreciando, degustando, muitas vezes revisitando, outras explorando ainda e sempre.

A borboleta JA tem um voo previsto: cadê o livro de viagem? Janaína, essa borboleta voará muito.

Aninha Pontes disse...

Mais que história linda!
Fiquei aqui, também me imaginando uma borboleta.
Engraçado que sabemos, porém não pensamos na curta vida de uma borboleta.
E essa mutação, muitas vezes de menina para a fase adulta, é sem dúvida dolorosa.
O perder a inocência está ali na mesma linha de perder a capacidade de voar.
Linda, linda.
Beijos querida.

Chorik disse...

Adorei Janaína! As metamorfoses da borboleta são as melhores metáforas da vida.
Bj

Nydia Bonetti disse...

Janaina... Que coisa linda. Eu acho que fui e sou: passarinho. :)

As palavras hoje, são nossas asas. Bom demais poder voar - nas tuas, nas minhas, em tantas...

beijos!

Abadia Lizério disse...

Este texto mostra o ritual de passagem da infancia para a adolescencia. Tenho filhas adolescentes. Ele me comoveu Janaína.

Cáh disse...

LINDOOO!!!

me vi o tempo todo borboleta...
sôfrego na alma e liberdade infinita de um ser tão profundo.
De tudo, o final foi espetacular...
adultos não voam....
não voam mesmo!!!!


beijos imensos!

Edu O. disse...

Você não conhece minha Judite, não é? Uma lagartinha que tem medo de virar borboleta. Lerei este texto para ela.

Dalva disse...

Esse processo que vc descreve tão poeticamente é mesmo doloroso... lembrou-me um trechinho do livro Mar de Dentro, de Lya Luft, onde ela fala exatamente disso. Adorei... voei neste texto! Obrigada por provocar estas sensações e emoções, Janaína!

Bjs.

aeronauta disse...

Oi, Janaína, saudades de seus textos, saudades.
Gosto tanto de sua leveza...

Luci Lacey disse...

Janaina

Crescer doi... mas e maravilhoso.

... Quando eu era bem pequena, me sentia borboleta o tempo inteiro ...

Lindo demais.

Parabens e obrigada por compartilhar conosco.

Beijinhos

Janaina Amado disse...

Muito obrigada por cada um dos comentários. Vocês não têm idéia de como me incentivam!
:-)))
Hoje, a borboleta voou para outro blog, lá nos esteites: a Luci carregou-a para o Hippos:
http://hippopotamo.blogspot.com/
Muito obrigada, querida Luci!

Jeanne disse...

Maravilhoso! Fui visitar a minha amiga Lucy e encontrei teu link.
Parabéns pela poesia, pela lucidez, pela mágica que transita por aqui.
Beijos :)

Luma Rosa disse...

Também protesto!! Adulto sabe voar, um voo mais alto porém mais cauteloso!
Talvez a censura social dizendo que adulto tem que ser adulto sempre!

Oras, sabe a Jurema? A minha borboletinha mascote lá do "Luz"?

Ela tem a função de todas as vezes que a vejo, me lembrar de que ainda não perdi a capacidade de voar, mas que preciso treinar sempre para não esquecer como se faz!

Voa menininha, Janaína! Voa!

Barbara disse...

Adultos que se expressam voam sim.

Meg disse...

Janaína,

E esta Borboleta é mesmo voadora, "Escritora"!!!
Como sabes... adorei.
Simplesmente.
Quem sabe ela não atravessa o Atlântico!!!

Beijo, Janaína!

Grace Olsson disse...

janaina, concordo coma Luma...Adulto voa...pena que sempre tem outro adulto a nos cortar as asas..
parabéns..bjs e dias felizes

Odele Souza disse...

Muito lindo o seu texto Janaina, muito lindo.

Beijos.

Jefferson Bessa disse...

Entre a autora e a borboleta: a experiência única. O voo único. Muito bonito!

bjs

Jefferson

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Amiga, nao estou esquecido de vc, estive afastado e agora retorno calmamente. Já vim visitar seu blog mas nao deixei recado. Venho aqui muitas vezes. Nao podemos esquecer os bons lugares da blogosfera. E este é um desses.
Kandandu

Denise disse...

Borboleta...........leta leta
especialista em renascimentos


e voaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

sempre lindo

comboio turbulento disse...

bonito texto. gostei

Celso Ramos disse...

Belíssimo texto,Janaina!!!!
Ele me ajuda a entender um pouco porque muitos adultos,simplesmente, não se ajustam...crescem se debatendo. Agora você concordará comigo que existem alguns adultos que voam sim!!!! São aqueles que não calam a sua infância e por isso mesmo são capazes de surpreender!!!!

claudio rodrigues disse...

Janaína, unicórnio azul, pegasus, cavalo alado... Podemos voar, sim! Que texto belo... Tenho que ler com mais calma seus textos pós-viagem.

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