quarta-feira, 14 de abril de 2010

A menina e o pai


Amor, amor desmesurado doido fulgurante absoluto, amor resplandecente a menina sente mesmo é pelo pai. Entre todas as pessoas do mundo, é a ele que desde bebê ela procura, para ele joga os bracinhos, busca seu cheiro, seu riso, seu abraço. Desde pequena enxerga aquele pai-lampião à sua frente, às suas costas, pendurado no céu da fazenda, debruçado no seu berço, suspenso sozinho no teto da sala, na viga da varanda, no seu carrinho. Não tem ninguém mais bonito nem mais forte nem mais sabido nem mais valente que o meu pai, a menina pensa explodindo de orgulho, enquanto caminha de mãos dadas com ele.

De mãos dadas com meu pai. Assim é que ela sempre se imagina. Quando sua mãe sumiu de repente no mundo, foi ele, o pai, quem ficou com ela. Ele lhe dá banho, penteia seus cabelinhos, calça-lhe o sapato de fivela, dá-lhe comida, bota-a para dormir. Tudo no seu jeito desajeitado – Ele não sabe, é bobinho, a menina pensa condescendente, tapando o sorriso para não o magoar, com a outra mão fazendo de leve um carinho nos cabelos dele, abaixado à sua frente, suando para enfiar-lhe a meia. Ele é que cuida de mim. Ele é meu, eu sou dele, pensa secretamente, cada vez mais agarrada àquele pai, o tesouro que eu tenho na vida, assim sente, maior que o de Ali Babá, maior que o de todos os piratas do mundo.

Quando visitam pela primeira vez a mãe no sanatório, a menina se apavora: o corredor comprido à sua frente, portas brancas fechadas dos dois lados, pequenas janelas no meio, com grades; pelas frestas das grades saem mãos que se contorcem, lá de dentro vêm gritos altos e lancinantes, gritos soltos, gritos sem dono. Horrorizada a menina estaca, coração aos pulos. Deseja demais abraçar a mãe porém seus pés não se movem, chumbados no chão. Nunca vou conseguir atravessar este corredor, nunca vou conseguir, começa a chorar alto, apertando Macaco Simão contra o peito. De novo é ele, o pai, quem a socorre, com carinho a acalma, com firmeza a conduz por aquele corredor difícil e cheio de perigos do mundo. Com ele eu consigo, ele cuida de mim, ele é meu, eu sou dele, eu consigo com ele, a menina vai dizendo baixinho para si mesma enquanto atravessa o corredor, olhos bem fechados, mãozinha protegida dentro da mão grande do pai.

Uma garota, porém, aprende cedo as verdades do mundo: Eu sou dele, mas ele não é só meu, conclui certo dia, amargurada. O seu é um pai de olhos compridos para as outras mulheres, principalmente para as pernas das outras mulheres (ele pensa que ela não vê, mas ela vê, ela sabe de tudo, essa menina), o seu é um pai do mundo, pai da rua, pai do trabalho, das mulheres, da política, pai da viagem à União Soviètica lá do outro lado do planeta, pai das histórias cheias de gargalhadas, pai que a deixa ali com os tios, os avós e os primos mas tão sozinha tão sozinha tão sozinha, que é como ela se sente longe dele.

Intensamente concentrada, ruguinha na testa marcando a dramaticidade que carregará pela vida, a menina enfim entende: O único jeito de conseguir ficar sempre perto do pai, ficar dentro do coração do pai, é dividindo ele com os outros! Começa então para a menina o longo aprendizado do compartilhamento do pai. Serão as barganhas e alianças que seu instinto aconselha mas sua vontade recusa: conquistar, com gracinhas, as mulheres que ele conquistou ou quer conquistar, mesmo que seu desejo seja o de chutá-las para bem longe dali; ir com ele aos jogos de futebol, mesmo que nem saiba direito onde está a bola; estudar estudar estudar, para tentar receber a atenção e os elogios parcos dele... O aprendizado é longo e é difícil, nem sempre a menina acerta, porém a recompensa é maior do que tudo no mundo: o amor dele, deste pai sem tamanho que é exemplo, é norte e é sul, é âncora, bússola, inteligência, resplendor.

Sem que ele soubesse, caberia a ela depois sair  procurando vida afora aquele pai inexistente, aquele pai que só vivia dentro dela, que ela inventara e por isso mesmo por mais que procurasse jamais encontraria em qualquer outro ser do universo. Sem que ele soubesse, caberia também a ela viver quase uma vida inteira para enfim descobrir e desvendar (e conseguir amar) o pai frágil e defeituoso, humano, como são todos os pais do mundo, como não são todos os pais do mundo.

28 comentários:

Bípede Falante disse...

Janaina, preciosíssimo texto. Poético, dolorido, vitorioso. Estou emocionada...

Bípede Falante disse...

Voltei porque esqueci de dizer que as fotografias são tão bem raras...

LUNA disse...

Janaina, Uma história emocionante. Cheia de sentimentos e de situaçöes donde podemos vernos e sentirnos.

Coitada, criança que täo cedo soube o que era o sofrimento,estar sózinha, no meio da nada....
Achou o remedio à solidäo na figura do pai.
Ele era tudo na sua vida.
Masis além de tudo era a sua segurança.

Mas a vida que é longa e näo muitas vezes brincadeira, loqo le ensinou, que sua felicidade dependía de saber compartilharlo com mais gente...

Parece uma contradiçäo mais asim era.
Ele que era seu, sómente seu, para ser seu, tinha que ser seu e de outros ....

A vida näo é fáci, quem disse que era fácil?

Assim ela perdeu a sua mäe e parte de seu pai, para poder ser, poder ter, um pouco de alguém....
Um beijinho e a minha admiraçäo.

Dalva Maria Ferreira disse...

Gostei do epílogo: "...como são todos os pais do mundo, como não são todos os pais do mundo" - Diz muito, diz tudo!

Lisarda disse...

Testemunho intimista e amoroso: a fortaleza dos pais são as crianças, com esa mixtura de levedad e misterio.E maravilhoso retrato de vc mesma.

aeronauta disse...

Comovente, lírico, bem-escrito. E as fotografias são singulares!
Bjos.

Bernardo Guimarães disse...

jana,
QUE TEXTO!!!
ainda estou respirando mais devagar pra me aprumar de novo.
bj.

Anônimo disse...

Um texto belo, sofrido, chorado, doído. Um texto humano - como são todos os textos -, demasiado humano - como são raríssimos textos.
Do poeta rabugento
SIDNEY WANDERLEY

cirandeira disse...

Muito comovente, Janaína. É tão bom
e tão importante, quando conseguimos resgatar nossa infância
com lucidez e carinho...!E melhor
ainda quando conseguimos fazê-lo
com maestria literária, como o fizeste.
Um abraço carinhoso

Maria Muadiê disse...

ô, Jana, menina, que lindo...
me emocionou profundamente.
um beijo

dade amorim disse...

Janaína, li esse texto - excelente - pensando nos casos sem número de pais e mães que se separam quando os filhos ainda estão na fase em que o mundo se resume neles. Às vezes, os motivos justificam uma separação, mesmo nesse momento tão delicado da vida da criança. Mas quantas vezes os motivos são fúteis e pesam bem menos na balança do afeto do que a dor do filho. Sabe, talvez o mundo fosse bem melhor e mais fácil de se viver se todos os pais usassem essa balança e levassem em conta o sofrimento e o trauma afetivo que sua irreflexão - e tantas vezes egoísmo - podem causar.

Beijo.

Nydia Bonetti disse...

A imagem do corredor é tão forte Janaína. Ser pai e mãe talvez seja exatamente isso: ensinar a atravessar corredores - o que fatalmente um dia o faremos sózinhos. Você sempre emociona.

PS: Sim muito trabalho ainda. E muita preguiça (cansaço, talvez). A soma de tudo resultou num sumiço temporário. Mais alguns dias e volto à rotina das leituras dos blogs - que eu gosto tanto e eme faz tão bem) Beijo, querida.

Luma Rosa disse...

Muito perspicaz a menininha de sua crônica. Desde cedo a vida foi mondando suas ações para que recebesse elogios, fosse admirada por seu único objeto de amor ou sobrevivência. O amor é instintivo!! Beijus,

Ana Tapadas disse...

Estas fotografias de recuperação da infância, ilustram textos magníficos! Inspiram-te, particularmente.
Pai é uma palavra difícil, para mim. Comovi-me.
Beijinho

Gerana Damulakis disse...

Eu não tenho palavras. Totalmente emocionada.

CeciLia disse...

Ah, querida Janaína,
que dor indi~´ivel, que confissão, a dessa menina, tanta sabedoria...
Sem palavras, aqui, eu que já fui mãe e já fui filha e já fui também as pernas olhadas de outro pai...
Beijos, querida, abraço que entende.

valter ferraz disse...

Janaína,
beleza de texto. Comovido faço a mim a pergunta: quantas vezes minha menina (que não é só minha como imaginava) procurou no pai defeituoso, torto e malacabado o herói que ela criou?
Somos assim mesmo. Imperfeitos.
Beijo, menina

Ana Cecília disse...

Janaína,
que beleza de texto. Intenso, comovente,tão dentro.

Denise disse...

Passei a vida esperando um pai do jeitinho q eu achava q era bom pra amar,ate q aprendi a amar o meu do jeitão torto que ele é rs


Você me encanta
bem querer

http://graceolsson.com/blog disse...

Janaina, nunca tive essa relacaon com meu pai:tenho e tive tudo isso pelo meu irmao mais velho.ele, sim, FOI O PAI QUE EU DESEJEI PARA MIM.BJS E DIAS FELIZES

Fernando Campanella disse...

Boa tarde, Janaina, muito agradecido pela visita ao meu blog. Nesta visita ao teu espaço posso dizer que me idenfiquei, pelo que vi, com o que você escreve. Vi que há boa poesia, assuntos relevantes, uma seriedade literária que muito me agrada.
Parabéns, também,virei mais vezes.
Um grande abraço.

Dalva disse...

Uma preciosidade este texto... escreveste com a pena da alma!

Boa semana!

Bjs.

traposcoloridos disse...

Jana: você como sempre me emociona.

Amo muito o seu pai.

Luli Facciolla disse...

Ai ai...


Beijos

M. disse...

Acho que já reli este texto umas dez vezes, e todas as vezes choro. A vida é trágica, mas é maravilhoso viver, sem dúvida. Bjs

Marcus Gusmão disse...

"escreveste com a pena da alma!" Dalva disse tudo.

líria porto disse...

li de enfiada até aqui, e é tudo tão delicado, tão bonito...
gosto de te saber assim.

sobre o teu livro, a tua mãe, estou curiosíssima!
besos

aivilana disse...

Precisei de uma foto de uma menina bem novinha com um homem mais velho. Encontrei a sua e não só isso, me prendi ao texto.
Minha história tomou um rumo totalmente diferente. Se tiver curiosidade, dê uma passadinha para ler. :)
De uma sensibilidade ímpar. Eu que amo o meu pai e dou tão certo, enxergo bem o que essa menina passa.

Parabéns, adorei! :)
Aproveitando, vou te seguir, ok? ;)

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