sexta-feira, 19 de março de 2010

Sempre valeu a pena


Retorno de uma viagem agradável ao interior de Minas e de São Paulo. Nesses interiores, encontrei por acaso uma antiga aluna, minha orientanda no mestrado e doutorado. Foi uma festa nosso encontro, uma alegria. Ela hoje é professora da UNESP, onde desenvolve bonita carreira, como pesquisadora inclusive. São esses os frutos maiores do ensino, que exerci durante décadas: ajudar a formar gente de qualidade, que ajudará a formar outros, que ajudarão...


O encontro me fez lembrar deste pequeno texto que escrevi em março de 2004, quando me dei conta de que minha última orientanda (Leny Caselli Anzai, profa. da UFMT) defenderia seu doutorado no dia seguinte, na Universidade de Brasília. Seria meu último compromisso universitário, pois eu já me encontrava aposentada. Sentei-me então em frente ao computador e escrevi este pequeno texto nada acadêmico, que no dia seguinte li para uma platéia comovida, durante o intervalo da defesa, e ainda expressa o que sinto:
Sempre valeu a pena


Sempre valeu a pena, desde as escolinhas que montávamos nos saguões dos prédios da nossa infância, onde as crianças mais velhas, como eu, se punham no papel de sádicos professores, e as menores, no de obedientíssimos alunos, obediência garantida graças ao mais antigo dos métodos, a supremacia da nossa força física. Aos nove anos, eu examinava e aprovava os deveres de casa dos meus primeiros alunos: desenhos sobre o que cada um achava a coisa mais bonita do mundo. Em meio a singelas casinhas, figuras de mamães e flores, destacou-se o desenho de uma prima de cinco anos de idade: um homem nu em folha inteira, órgão sexual masculino detalhadíssimo, primeiro plano. O desenho provocou a imediata expulsão de sua autora da escola: "Pouca vergonha, aqui na minha escola, não!", gritei-lhe, dedo em riste, do alto do meu autoritarismo. Este desenho me ensinou a primeira grande lição como professora, aprendida naquela mesma noite, quando, trancada no banheiro, eu examinava cheia de espanto a obra da pequena prima – que, em vez de rasgar, espertamente enfiara no bolso –, e, boquiaberta, pensava: "Puxa vida, minha aluna sabe mais do que eu!”


Daí em diante, foi sempre assim. Aprendi com os sorrisos, a irreverência e a energia deles, à medida que a minha própria energia ia diminuindo, transmutada em ar fresco que me entrava pulmão adentro, a cada manhã renovando a vida. Aprendi com a ignorância, a cultura e a curiosidade deles (como a da caloura que, após a primeira aula da última disciplina de graduação que ensinei, perguntou, olhinhos brilhantes de expectativa: "Então, fessora, nesse seu curso vai ou não vai rolar stress?"). Aprendi, sobretudo com os orientandos da pós: por mais que eu me esforçasse, jamais encontraria "A" fórmula para orientá-los, pois cada um era e é único e ao mesmo tempo múltiplo, transformando-se à medida que seu trabalho de pesquisa amadurecia. Se alguma coisa havia a aprender com aquela troca, era a respeitá-los e aos seus caminhos. Para mim, eles e elas é que sempre valeram a pena.

Nesses últimos 30 anos, mesmo nos piores momentos de uma profissão que no Brasil é difícil, quando me senti sufocada pela burocracia insana, pelas tentativas de vários grupos para assassinar o recém-nascido sistema universitário brasileiro, mesmo nos piores momentos, quando me senti desanimada, desvalorizada ou incompetente, jamais duvidei de que eles e elas, sim, sempre valeram a pena.
*Imagem daqui.

13 comentários:

Ana Cecília S. Bastos disse...

Adorei, Janaína. Texto tão sincero.
E me identifiquei, pois estou justamente me aposentando e passando o ramo para a próxima geração.
Vale a pena, sim!
grande abraço,
Ana Cecília

Ana Tapadas disse...

Parabéns professora doutora, és fantástica! A minha homenagem sincera.
beijinho

Marta disse...

eu tb adorei chegar aqui.
um beijo Janaina e obrigada :)

Nydia Bonetti disse...

Na minha opinião, a mais bela e a mais importante de todas as profissôes, Janaína. Sacerdócio. Beijos.

Mi Müller disse...

Janaína que texto tão singelo e verdadeiro, com esta postagem descobri uma grata coincidência entre nós: somos as duas professoras, e mais ainda, apaixonadas pela profissão! Gostaria eu de ter a oportunidade de orientada por uma professora com tua sensibilidade!
estrelinhas coloridas...

Celso Ramos disse...

Olá Profª Janaina!!!

Lendo seu texto renovam-se as esperanças em nosso ofício. O processo burocratizante a que estamos submetidos , todos, vai aos poucos desencantando quem é vocacionado para o magistério seja ele infantil, médio ou universitário!!! Eu mesmo já pude sentir o gostinho ( o primeiro) de assitir a colação de grau (bacharelado em violão UFRJ) de um aluno que estudou comigo iniciação musical!!! Espero trilhar uma carreira tão bonita quanto a sua, Parabéns!!!!

giramundo disse...

Que experiências boas, Janaína!
Achei fantástico teu texto. Ai de nós todos se não eixtissem professores, principalmente os que gostam de sê-lo, que têm vocação e
talento, como é o teu caso. Pra mim
é a mais importante das profissões.
Só lamento que seja tão pouco respeitada, pouco valorizada como merece.
Minha louvação, professora!!

O que elas estão lendo!? disse...

Gostei muito Janaína. Sempre vale a pena. Serao tantas recordacoes, quem sabe vira livro?


Estou vindo te convidar para ler a entrevista de uma autora brasileira bem legal.
Aqui neste link.

http://www.elasestaolendo.blogspot.com/

Um beijao Georgia

Luli Facciolla disse...

Uma das coisas mais lindas que já li, Jana!
Nós professores temos mesmo que acreditar que "Sempre valeu a pena", ou é melhor desistir...
Comecei cedo também, aos 15!
E sinto tanta falta das minhas turmas...

Beijos

claudio rodrigues disse...

Janaína, seu texto me comoveu muito. Queria expressar meu agradecimento em um texto, mas não sei... Agradecer porque vc diz o que nós, professores, não ousamos dizer. Agradecer por partilhar sua trajetória de amor à educação. Agradecer porque, como doutorando em vias de consumar o ato (kkk) tudo é insegurança. Agradecer por encontrar no seu texto um "vai em frente", "Não desanime". nesse sentido, é bom louvar a internet, por nos paroximar de pessoas que nos fazem pensar, ir adiante.

Cris disse...

Oi, Janaína,

Texto amoroso, generoso. Não sou mas estou professora há quase 5 anos e me emocionei.

Beijo cheio de cainho.

Aninha Pontes disse...

Texto lindo. Como você é.
Sinceridade em assumir um aprensizado, inclusive com as pequenas coisas.
Sempre vale a pena.
Beijos querida.

Gregorio Omar Vainberg disse...

Muito bom o seu texto, e seguramente tambem a sua atuação como professora.
Parabens y um abraço

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