domingo, 21 de dezembro de 2008

José Paulo Paes




Ele sempre foi um dos meus poetas preferidos, daqueles que a gente nunca se cansa de reler, redescobrir. Sua palavra precisa, seu domínio do verso, seu poder de concisão, habilidades a cada livro mais afiadas e refinadas, sobretudo seu humor e seu olhar irônico, cético, crítico e ético do mundo — olhar cada vez mais pessoal — me conquistaram para sempre. Agora, quando a Companhia das Letras está lançando sua Poesia Completa, volto com todo o prazer a falar dele e a mostrar um pouco de sua poesia.
José Paulo Paes sabia residir na concisão a essência do poema. Ele a foi perseguindo e conquistando, e produziu maravilhas como estas, sobretudo a partir de Calendário perplexo (1983):

Poética

conciso? com siso
prolixo? pro lixo

Epitáfio para um sociólogo
deus tem agora
um sério concorrente


Celebridade
Eu sou o poeta mais importante
da minha rua.
(Mesmo porque a minha rua
é curta.)


Sucessão

o concretismo está morto
viva a poesia
concreta

Múltiplo, escreveu também poemas longos, assim como deliciosos, inventivos poemas para crianças, reunidos em vários livros. Foi crítico literário de alto nível. Foi também excelente tradutor — aprendeu grego somente para traduzir do original os poetas da Grécia que amava, sobretudo os modernos, como Kaváfis, que difundiu pelo Brasil, ao lado de outros importantes escritores de outras partes, como Williams Carlos Williams, Rainer Maria Rilke, Edgar Allan Poe, etc. Talvez por isso seja um dos raros poetas a valorizar tradutores:
Do Evangelho de São Jerônimo
A tradução — dizem-no com desprezo — não é a mesma
coisa que o original.

Talvez porque tradutor e autor não sejam a mesma pessoa.

Se fossem, teriam a mesma língua, o mesmo nome, a mes-
ma mulher, o mesmo cachorro.

O que, convenhamos, havia de ser supinamente monótono.

Para evitar tal monotonia, o bom Deus dispôs, já no dia da
Criação, que tradução e original nunca fossem exata-
mente a mesma coisa.

Glória, pois, a Ele nas altura, e paz, sob a terra, aos leito-
res de má vontade.


Aproximou-se dos modernistas e concretistas, porém, com exceção do primeiro livro (muito inspirado em Drummond), não se deixou influenciar excessivamente, no sentido de permitir o abafamento de sua voz, por quaisquer tendências literárias. Seu compromisso era com a qualidade da poesia. Homem de esquerda, porém sem se filiar a partidos, foi crítico — indignado no início, irônico depois —, da mercantilização excessiva e da exploração, da sociedade de consumo, enfim, assim como defensor da ética. Escreveu poemas de amor para a mulher, Dora, companheira da vida toda.

Madrigal
Meu amor é simples, Dora.
Como a água e o pão.

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.


Cena Legislativa

Primeiramente condenou-se a pomba
Por amar uma paz entorpecente
Onde o leão perde a juba e a hiena os dentes.

Depois, condenou-se o cordeiro
A perigosa dúvida que o anima.
O rio dos lobos corre sempre para cima.

Condenou-se a cigarra, finalmente.
Pelo crime de cantar nas horas vagas.
Que a faina das formigas não tem paga.

Consolidada a ordem, festejou-se.
E o leão rugindo, a hiena rindo,
Os trabalhos foram dados por bem findos.

Tomar: mutatis mutandis

a capela dos templários em tomar é tão grande quanto o
palácio de herodes e nela os cruzados assistiam à missa
montados em seus corcéis.
a sinagoga de tomar é tão pequena quanto uma estrebaria
onde só houvesse lugar para uma vaca um burrinho e
um recém-nascido.

Nascido em 1926 em Taquaritinga, interior de São Paulo, José Paulo Paes mudou-se aos dezenove anos para Curitiba, a fim de estudar química industrial. Inspirado talvez pelo avô tipógrafo, nessa época já demonstrava amor pela literatura: ligou-se aos intelectuais de Curitiba (1945-49), colaborando na revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan, e publicando suas poesias no livro O aluno (1947). Na cidade de São Paulo, onde viveu de 1949 até falecer, em 1998, trabalhou como químico e, a partir de 1963, como editor da Cultrix. Nos últimos dez anos de vida, aposentado, dedicou-se integralmente à literatura, produzindo muito como poeta, crítico e tradutor, e reunindo em torno de si um círculo fiel de intelectuais amigos, com quem adorava dialogar. Foram seus anos de alforria, como gostava de dizer. Publicou muito ao longo da vida, destacando-se, em poesia, seus livros Meia palavra (1973), A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988) e Prosas seguidas de Odes mínimas (1992). De saúde frágil, nos últimos anos de vida teve uma perna amputada; sobre este assunto, escreveu:
À minha perna esquerda


Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.

Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas
do mundo.

17 comentários:

Chorik disse...

Confesso que não conhecia, mas gostei do estilo da escrita. Obrigado pela dica Jana. Bj

FERNANDA & POEMAS disse...

Querida Janaina, não conhecia este poeta!... Gostei muito da sua poesia... Bom Domingo Amiga!...
Um abraço de muito carinho,
Fernandinha

romério rômulo disse...

janaína:
o primeiro livro do zé paulo,o aluno,foi inteiramente feito pelo scliar.poeta respeitável.
romério
ps.como vai aquele gato maluco?

valter ferraz disse...

Janaína,
poeta completaço. Poetaço, poeta e aço!
Beijo, menina

ADRIANO NUNES disse...

Jana,

Bela postagem!


Adriano Nunes.

Luci Lacey disse...

Janaina

Adoro vir aqui, aprendo mais, saio mais sabida e inteligente.

Beijinhos

. fina flor . disse...

Jesus, ando precisando me dedicar mais a poesia...... Crê que não conhecia? aff... obrigada por apresentá-lo

>>> o engraçado é que reconheci o poeminha da rua, mas não sabia de quem era......

beijos e obrigada pela visita :o)

MM.

>>> um ótimo natal para você e um "dois mil e love" repleto de conquistas, cadência na alma e quentura no coração :o)

Anônimo disse...

Obrigado pelo poema da minha cidade: Tomar.

Anônimo disse...

Janaina,

trabalhei com o Zé Paulo durante alguns anos, na Fundação Nestlé de Cultura.
Contemplar sua foto e reler seus poemas, te confesso, não é fácil. Bate uma saudade danada.

Beijo comovido

Vivina.

Adelino disse...

Formidável, Janaina...
Gostei. Simples, práticas e curtas. Grande poeta.
FELIZ NATAL.

comboio turbulento disse...

fel
iz
nata
l

paradoXos disse...

FESTAS FELIZES!

abraços

Renata Belmonte disse...

Não conhecia e adorei!
Bjs

romério rômulo disse...

janaína:
encontrei seu comentário,mas o gato maluco era só palavra.
romério

Janaina Amado disse...

Gente, obrigada pelos comentários, foi bom demais apresentar a alguns de vocês o grande poeta que foi Zé Paulo Paes, e relembrá-lo para outros. Bom também aprender coisas novas, como a participação do Scliar no primeiro livro do Zé Paulo. Vivina, também senti muita saudade do nosso poeta, gente da mais fina estirpe, tão amigo de meu pai...

nydia bonetti disse...

Janaína
Acabei de encontrar teu blog e gostei demais. Voltarei.
beijo
Nydia

Janaina Amado disse...

Volte sim, Nydia. Gosto muito do seu espaço no V&P, volta e meia o visito.

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