quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sosígenes Costa

(Foto encontrada aqui)

[Baianos ligados às letras o conhecem, mas, fora da Bahia, quase ninguém ouviu falar dele. É um grande poeta brasileiro, cuja obra, no ano de seu centenário de nascimento, foi reunida em Poesia completa (Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 2001). Em vida, o baiano Sosígenes Costa (Belmonte, 1901- Rio, 1968) publicou apenas um livro, o primoroso Obra poética (1959). Muitos poetas, como o paulista José Paulo Paes, afirmaram que ler Sosígenes foi fundamental para a construção de suas obras. Eu gosto sobretudo de “Iararana”, longo poema narrativo do início da década de 30, inspirado na mitologia e no folclore, cheio de invenções e surpresas, que o poeta gostava de chamar "história de alma com bichos falantes". É ainda melhor que Cobra Norato, de Raul Bopp. Reservado, muito discreto em sua vida pessoal, Sosígenes Costa viveu na Bahia e depois no Rio de Janeiro, sempre escrevendo poesia, jamais cortejando críticos, muito menos eventos e mídia. Seguem pequeno trecho de “Iararana” e um de seus belos, sofisticados sonetos:]

(...)
“— Esta anta com cabeça de gente não era anta, meu neto.
Aquilo era cavalo com cabeça de gente.

Era cavalo da Oropa com feição de mondrongo.
Veio da Oropa o danado descobrir este rio.
Ele nasceu na Oropa num lugar muito bonito de lá.
Então um bicho com cabelo de cobra
avançou em cima dele
e ele teve que disparar daquela terra
teve que cair n’água
atavessou mar como quê
e foi se esconder na pontinha da Oropa.

E da ponta da Oropa
ele de novo timbum! Dentro dágua
e veio nadando e chegou neste rio.
Foi quando Romãozinho avistou o bicho entrando
e veio dizer à gente daqui, virado em dom Grilo.
A caipora quando viu o bicho na Ipibura
ficou de boca aberta.
Jabuti veio ver e ficou de boca aberta.
Boitatá não sabia o que era: ficou de boca aberta.
Saruê chegou e ficou de boca aberta.
Jundiá, quando soube, danou pro rio do Bu.
E os cachorros do rio se esconderam no mato
e quiseram dar flechada mas a flecha não pegou.


— Não pegou não, meu avô?[...]

O pavão vermelho
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

3 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

nos '70 participava de um grupo de leitura e uma vez lemos delícias do poeta com nome quase impronunciável; depois, nunca mais. brigado pela lembrança.

Verônica Cobas disse...

Janaína,

Tenho total identificação com a prosa e poesia nordestina. Lendo o poeta que você me apresenta, lembrei de trechos memoráveis da prosódia de José Cândido de Carvalho, que embora nordestino não fosse, tinha a alma agreste, colorida e viva dos escritores nessa região abençoada.

Gostei de conhecer. bjss. Veronica

Anônimo disse...

É sempre bom conhecer autores pouco difundidos.

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