terça-feira, 6 de outubro de 2009

A menina e o menino (II)


[Para quem tá chegando agora, sugiro ler primeiro A menina e o menino (I)]
Este menino que veio do mar é um espanto. Não é como ela. Não se comporta, não fala baixo, não engole choro, não é ordeiro nem certinho, não brinca com bonecas, não come de boca fechada, não segura direito a colher nem age por trás, escondido. Nada disso. Este menino faz um barulho danado, dá beijo em todo mundo, atira os óculos do avô pela janela do apartamento e fica depois na ponta dos pés, espiando pra ver onde caíram, este menino trepa nos móveis, corre pela casa, desce correndo as escadas do prédio, empurra as pessoas, com a maior alegria espalha mel e farinha e ovos quebrados pelo chão da cozinha, ri muito, desenha nas paredes, briga, levanta a saia da empregada e sai em disparada, tranca-se no banheiro e esmurra a porta por dentro, chora alto .... Já mostrou pra ela, menina, que tem pinto e faz xixi em pé, e quer porque quer ver a xoxota dela.
Este menino é um enigma. Ela sente-se irresistivelmente atraída para ele, que brilha como o sol e ri como o mar, que dá beijos e abraços nas pessoas, enlaçando-as pelo pescoço. Ele sabe tudo o que ela ignora, ele transgride todas as normas a que ela, obediente, se submete por medo. Encantada e amedrontada, a menina não tem respostas.
A cada dia, sente-se mais ameaçada. O que este menino metido está fazendo aqui? Esta casa antes era só pra mim! Por que vovó agora anda toda derretida pra ele? Por que ele bate em mim?
O menino também sente ciúmes. E descobre rápido que é bem mais forte do que ela. Passa a chamá-la para a briga, a todo momento. Bate nela com força e dedicação, puxa-lhe os cabelos, cospe na sua cara, dá-lhe rasteiras, empurra-a contra a parede, arranha-lhe o corpo. Ela resiste como pode, mas perde todas. Impotente, chora, várias vezes por dia. Chora de dor, raiva, abandono, solidão, ciúme, impotência, humilhação. Joga-se na cama vazia dos avós, e chora. Nunca se sentiu tão infeliz na vida. Pela primeira vez, pensa em morrer.
As brigas constantes das crianças provocam confusão entre os adultos da família. Irritado por ver a filha apanhar todos os dias, o pai da menina tira satisfação do menino, e acaba por dar-lhe uns safanões. A mãe do menino não aceita ver seu filho tratado assim. Os dois discutem feio, o avô das crianças interfere, porém suas palavras pioram a situação. Assustada, a bebezinha começa a berrar, o que exaspera os adultos.
E o menino bate, e a menina chora. E a menina chora, e o menino bate, dia e noite, noite e dia. Dentro do apartamento onde todos se apertam, a tensão torna-se insuportável. Sufoca. A menina começa a chamar pela mãe. Se minha mãe estivesse aqui, isso tudo não acontecia. A gente tava morando na nossa casa.
O menino parte enfurecido para cima da menina, que foge correndo. Ele consegue encantuá-la contra a parede da sala. Ofegantes os dois, olham-se. A menina se apavora, pois vê na mão dele um cano de ferro, prestes a ser arremessado contra ela. Instintivamente, protege o rosto com os braços, encolhe-se toda à espera da dor ... que não vem. Abre os olhos, enxerga a tia imobilizando o menino, gritando para ela:
— Bate nele! Agora! Quero ver você bater nele!
Assustada, a menina sente muita vontade de fazer xixi, chora, quer fugir dali. Mas a tia insiste:

— Você tem de bater nele! Vamos, eu estou segurando ele, não tem perigo. Pode bater! Já!

E, como a menina ainda vacila:

— Se você não bater agora nele, eu é que bato em você!

A menina reúne toda a força que não sabe que tem, força que brota do ódio, do desamparo, do desejo de vingança, da rejeição,do ciúme, do instinto de sobrevivência, e parte pra cima do menino. Ele tenta chutá-la, mas a mãe imobiliza suas pernas, enquanto a menina bate, bate, bate, cospe, chuta, xinga, dá cabeçadas, bate, bate, bate, bate, cada vez mais forte, com uma fúria que nunca soube possuir. Está adorando. Sente-se triunfante, vingada, poderosa.

Bate até o menino chorar alto, que é também quando ela se cansa. A tia vai soltando o menino aos poucos. Surpreso, humilhado, doído, ele chora. A mãe abraça o filho com carinho e o beija, afagando-lhe os cabelos molhados de suor.

No dia seguinte, o menino ensaia nova surra. Mas, esperta e poderosa, a menina depressa lhe arranha o rosto. Ele recua.

Deste momento em diante, a menina e o menino tornam-se inseparáveis. Juntam forças, manhas e saberes. Não brigam. Aliam-se os dois contra o resto do mundo. Combatem e vencem todas as maldades. Juntos são rei e rainha, índia e cowboy, índio e índia, professora e aluno, desbravadores do velho oeste, alvos aterrorizados das injeções do Seu Petrônio da Farmácia, sol e lua, telespectadores, leitores e personagens de histórias em quadrinhos, cinéfilos, namorados, concha e água-viva, astronautas, vítimas de caxumba, sarampo e catapora, descobridores de fundos de mares e longínquas galáxias, fanáticos colecionadores de figurinhas, vendedores de distintivos do Partido Comunista e de papel alumínio retirado dos maços de cigarro, cúmplices de artimanhas, frequentadores de parques de diversão... Unidos contra o resto do mundo, são imbatíveis. Um sempre de olho no outro.

23 comentários:

Ana Tapadas disse...

Texto muito lindo!
Fez-me pensar no meu «menino» que conheci já na adolescência dos meus 17 anos...agora meu marido!
Beijão

traposcoloridos disse...

Quer dizer que meu pai era o "capeta em forma de guri" e depois se quixa dos netos.. tsc tsc.
Tou amando as histórias Jana.
Beijão

Maria Muadiê disse...

Jana. Estou emocionada.

Dôra disse...

LINDO, LINDO, LINDO, JANA!!!
Agora eu sei como começou essa história de amor...
Mil beijos.

Barbara disse...

Fui longe e fui fortemente em dores da menina assustada que fui - e sou.
O texto é simplesmente fantástico a ponto de levar-nos no tempo e no espaço, prá rotina do menino e da menina.
Bom passar por aqui!

Gerana Damulakis disse...

Excelente! As histórias estão ótimas, com uma linguagem cativante. Adorável.

Vieira Calado disse...

Obrigado pelas suas palavras no meu blog.

Bem haja!

cirandeira disse...

Coisa mais bonita de se ler, hein Janaína...Essa estória...! Sei não, mas tem um longo e belo romance pela frente. Vamos aguardar.
Bjs

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Janaina, voce talvez esteja interessada ou conheca alguém que possa estar, de uma olhada em meu blogue Cores & Palavras http://coresepalavras.blogspot.com/2009/10/iii-antologia-de-poetas-lusofonos.html

Kandandu

claudio rodrigues disse...

Ai, li de um folego só, tamanha velocidade com que as frases são encadeadas. Amei o triunfo da menina. E amei mais ainda a mãe do menino dando a lição que ele merece, sem deixar de lado a ternura de mãe.

dade amorim disse...

História poderosa, Jana. Escrita igualmente poderosa, que prende até o fim. Lindo.
Ando querendo dar um tempo nos blogs. Aproveito que vou sair de viagem e fazer uma pausa para meditação. Mas venho ler os amigos.
Beijo dos grandes.

Ana Cecília disse...

Lindo, Jana! Envolvente, enternecedor. Grande beijo!

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Esse menino e essa menina emocionam.

Adorei!

Beijo grande, menina linda.

Rebeca

-

Mario Poloni disse...

Que delícia de conteúdo e de forma... Bjs

Luma Rosa disse...

Ufa!! Assustada com a violência do menino! Que bom, tudo acabou bem! Que peste, heim?? (rs*) Beijus

Cristina e Márcia disse...

Oi Janaína,tudo bem? Passando por aqui pela primeira vez e adoraaannndo!!!
Conheci o seu blog,pois também participaremos da blogagem coletiva do dia 12...
Vc escreve com a alma!
Bjs Cris e Márcia

PS. se tiver um tempinho visite-nos:www.almastatuadas.blogspot.com

Meg disse...

Sempre que venho aqui, sei que ficarei enredada nestes enredos e tramas... de tal forma a escrita me absorve.
De adultos ou de crianças, suas histórias têm sempre uma lição de vida, minha amiga.
É um prazer estar com você, aqui.

Um beijo deste lado do mar...

maria guimarães sampaio disse...

Janaína, eu amo de paixão seus textos. E esta série do menino e da menina... Eu choro. (mesmo quando aparece alguma história que já conheço)

Betho Side disse...

Puxa...que texto magnifico!
Vim lhe convidar a participar do
1º Encontro Nacional de blogeiros em Dezembro. + informações no blog:
http://bethsides.blogspot.com/
Forte abraço
Betho

Mariano disse...

Belo texto!

costacarvalho disse...

Invadi seu blog, descobri um menino que me lembra muito outro menino. Havia um menina também, aliás, algumas meninas... O terror espalhava-se vigoroso. Todas desapareceram.

Depois, outra apareceu, mas já não eram mais menino e menina.

Adorei o que li.
Perdoe-me a invasão.

Melk disse...

Muito lindo!
Quem nunca vivenciou algo parecido?
Fantástico o seu blog!

Beijos

Aninha Pontes disse...

Do medo ao aprendizado.
Do ódio ao amor, apenas um passo.
Lindo!
Só agora na volta, pude ler a segunda parte.
Um beijo Jana.

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