quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A menina e a mãe


Quando a menina pequena abre os olhos de manhã cedo, pergunta logo Cadê mamãe? Neste dia não tem resposta. Nunca mais terá resposta a essa pergunta. Mazi disfarça, diz que a mãe foi ali e volta já, mas o dia inteiro se passa e a mãe não volta. Irritada, inquieta, a menina não consegue brincar, chora, não tem apetite: Não quero comer esta porcaria!, joga o prato em cima de Mazi.
A menina percebe que alguma coisa está profundamente errada. Não sabe o que é, porém seu corpo alerta indica o perigo a rondar. Precisa da mãe ali para protegê-la, defendê-la. Chama por ela, chora por ela, mas desta vez a mãe não está ali junto, sumiu. Muito confusamente a menina intui que o problema é a mãe, a mãe é o problema, mas não entende nada, e chora.
Quando o pai enfim volta para casa, a menina voa em cima dele. Pula em seu pescoço, ansiosa: Cadê mamãe?, mas o pai a devolve ao chão. A menina percebe que o pai não olha para ela, o olho dele está saindo pela janela, longe. Parece muito cansado, o seu pai. Cadê mamãe, cadê mamãe?, insiste. A resposta chega como surra:
— Mamãe está doente. Vai precisar ficar no hospital.
Doente? Mas mãe não fica doente! Pela primeira vez, o pai sorri. “Fica, sim. Lembra quando ela sentiu aquela dor de garganta e teve de ficar na cama? Estava doente.” Mamãe tá com dor de garganta? Não. Tá com dor de dente? Não. Com dor de olho? De nariz? Andando atrás do pai, a menina vai repetindo a mesma pergunta, com a troca só da última palavra. Não estava nem na metade da sua lista de partes do corpo, quando o pai dá um berro: “Chega! Me deixa em paz!” tão súbito e alto e aterrador que a menina escorraçada dispara rumo à cozinha, vai chorar no colo de Mazi.
Nesta noite, ela consegue dormir só muito tarde, depois de Mazi cantar o sapo cururu várias vezes e seus olhinhos se fecharem de exaustão.
Sonha com a figura forte da mãe a seu lado, as duas caminhando juntas pela rua clara de sol, uma brisa que vem do mar levantando os cabelos delas, a sua mãozinha protegida dentro da mão firme da mãe. Ela observa admirada aquela mãe tão bonita, alta, elegante, empinada. Ri pra ela, de pura satisfação. Com mamãe, eu não tenho medo de carro. Não tenho medo de cachorro. Nem medo de sumir na multidão. Nem medo de esquecer o caminho de casa. Mamãe sabe. Mamãe conhece todos os caminhos. Mas no sonho então a mãe se vira para ela, rosto sério, e diz: “Estou perdida. Não conheço mais os caminhos.”
A partir daí a vida da menina vira confusão barafunda anarquia desarranjo, ela aos trambolhões de uma casa pra outra, o pai no trabalho ou no hospital, Mazi dando adeus e indo embora, um monte de gente estranha em volta, seu mundo de ponta-cabeça, todas as coisas, todas as pessoas fora de lugar, pesadelo.
A menina pergunta a cada hora Por que mamãe tá demorando tanto? Ninguém sabe lhe responder. “Como contar a uma menina pequena que sua mãe enlouqueceu?”, pensam. Quando mamãe vai voltar?, insiste. Ninguém conhece a resposta. À hora de dormir, no escuro, a menina passa devagar a ponta da fronha no rosto, enquanto pensa perguntas que não tem coragem de dirigir aos outros: Por que mamãe não me disse onde ia? Por que não me deu adeus, beijo, nada? Por que ela me deixou aqui sozinha?
No dia seguinte, retorna à pergunta habitual: Quando mamãe vai voltar?
Aquela mãe nunca voltou.
A mãe que sabia todos os caminhos nunca voltou.
A filha não a esquece. Como poderia, se a vida inteira tem caminhado ao seu lado na rua clara de sol, passo a passo com a silhueta sem carnes, com a evocação do vulto esbelto, elegante, altaneiro, a vida inteira assombrada pela convivência íntima com o enigma, com a ausência gigantesca que entretanto misteriosamente ainda é capaz de lhe indicar caminhos?

24 comentários:

aeronauta disse...

Lindo, lindo, excelente remédio. Afinal, como diz Calvino, "a literatura pode ensinar a dureza, a piedade, a tristeza (...) e muitas outras coisas assim necessárias e difíceis." Bjos.

Bernardo Guimarães disse...

li de um golpe só,coração na mão,nó na garganta.como é bonito este texto...

Dôra disse...

Há alguns dias, li "A menina e a boneca". Agora, "A menina e a mãe".
Se fosse possível agora, sem dizer nem uma palavra, daria um abraço na menina. Um abraço cheio de emoção, carinho e amor.
Dôra

Anônimo disse...

Belíssimo texto.
Mariano.

Gerana disse...

Nossa Senhora: angústia, desespero, mudança radical de um dia para o outro, tudo junto.
Estou sem palavras, Janaína.

Carlos Barbosa disse...

Estava na plateia, anos atrás, impressionado com sua segurança ao falar da poeta e mãe na FPC. Fiquei sabendo, então, desse terrível episódio. E a admirei bastante pelas coragem e grandeza humana que transbordavam de sua fala; agora, ainda mais. Abr. (carlos)

Janaina Amado disse...

Amigos, os comentários de vocês me emocionaram. Este texto foi libertador para mim. Dôra, a menina adorou o seu abraço!

Maria Muadiê disse...

Jana, também quer dar um abraço, bem apertado e acolhedor.Não tenho palavras pra lhe dizer da minha emoçã com seus sentimentos e palavras


**

Recebi os livros e amei! Especialmente aquelo do mar...Muitíssimo obrigada, usaei eles também pra trabalhar. Um beijo bem grande

Nydia Bonetti disse...

Janaína
É o que disse Bernardo: nó na garganta, coração apertado, suspiro... Como é bom te ler. Um beijo, querida.

maria guimarães sampaio disse...

Jana
Maria

meus instantes e momentos disse...

muito bom o texto, ótimo blog.
Gosto de voltar aqui,
Maurizio

Maria Muadiê disse...

Jana, voltei várias vezes ontem a noite para rever a foto e reler o texto....

OLha, sabe que nunca pensei que eu e M. poderíamos nos confundir?
Fiz como vc sugeriu, escrevi meu nome todo.
beijo, querida.

clarice ge disse...

Como não sentir um aperto no coração, como não ir as lágrimas de emoção?
Beijos Janaína

Luiz Alberto Machado disse...

Aqui também é tudo muito bom, vasculhei seus dois blogs, gostei. Indicarei este também nas minhas páginas.
Beijabrações & tataritaritatá!!!
www.luizalbertomachado.com.br
http://twitter.com/lalbertomachado

M. disse...

Janaína, sinceramente, acho que esse texto é uma das coisas mais lindas e dolorosas que já li. Beijos, M.

babfbabf disse...

Mae,

O texto ta otimo: poesia enraizada na dor do mundo real.

O mais importante pra mim é saber: Como esta a menina agora?

beijos

Nado

claudio rodrigues disse...

Lindo texto, de uma sensibilidade impar... Acabei de postar uma foto lá nos bregueços das crianças na ilha lendo seus livros. Vê lá que emoção. Beijão e obrigado. Adorei tb.

Janaina Amado disse...

Um abraço apertado para todos vocês, tanto os leitores novos quanto os leitores fiéis. Nado, agora que a menina pôde de novo se expressar, agora que ela ganhou atenção, carinhos e abraços, meus e de outras pessoas, ela está se sentindo muito melhor, tá toda prosa e até rindo!!! Beijos também.

dade amorim disse...

Uma narrativa do grande medo que acompanha a infância, que acompanhou a minha também. Quando a mãe é quase tudo na vida, e no entanto já não está a nsoso lado. Triste, terno e acima de tudo a marca que nunca se apaga.
Um beijo de muito carinho, Jana.

Chá das Cinco disse...

Estou aqui por uma razão, pedir para você deixar no meu blog uma mensagem contra a VIOLÊNCIA no TRÂNSITO, no post " JUSTIÇA".

Sei que o irresponsável e os seus advogados procuram no Google notícias que tenham o nome do autor do crime, essa seria uma maneira de comunicarmos com ele e mostrarmos o nosso repúdio.A violência no trânsito mata mais do que as guerras.
Estou lutando duas vezes, uma contra o poder econômico do criminoso e outra contra o desrespeito as nossas leis.
Conto com a tua colaboração.
Gemária Sampaio

Chá das Cinco disse...

Obrigada pelo apoio, muitas vezes diante dos problemas não encontramos uma maneira de ajudar, mas a solidariedade é a maior delas.
Tenho certeza de que o bêbado assassino vai ler o que você escreveu, na época a matéria esteve em todos os jornais e tvs do país e em alguns importantes jornais do mundo.
Ele é economista e mora num luxuoso apartamento no endereço mais caro do Rio de Janeiro,ele nunca se preocupou como estou fazendo para criar a minha filha,nenhuma ajuda psicológica ou financeira.
Para mim é importante que o nome dele apareça na internet,uma pessoa como ele não pode ficar no anonimato.
A lei seca vigorou, mas não está havendo a punição esperada pelas familias das vitimas.
Mais uma vez obrigada.

Aninha Pontes disse...

Não sei o que dizer.
Fiquei assim, estarrecida, muda.
Faço assim: Me junto ao abraço da Dôra. Um longo abraço, para que a menina sinta ao menos um pouquinho de conforto.
Me senti tão pequena.
Beijos minha querida.

Georgia disse...

Oi Janaina, olha que eu gostaria de abracar essa menina que certamente cresceu...

Tô emocionada.

Um beijo grande menina

Anônimo disse...

Jana,
Você sabe o quanto é bom ser seu irmâo?
Te amo
Mau

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