segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tocando a vida


Não eram lembranças. Não havia nomes, personagens, enredos, histórias, nada que ela pudesse identificar.
Eram lampejos. Raios que irrompiam de repente em sua vida, dentro da escola, no banho, lavando louça, no trabalho, onde estivesse surgiam e sumiam aqueles clarões, estilhaços, sem que ela soubesse que coisas eram.
Aconteceu assim durante anos, desde pequena, vida afora. Como pesadelos se repetiam, tudo muito rápido mas tão intenso e verdadeiro e doloroso que não era possível fazer de conta que não existiam.
Achou que seriam defeitos dos seus olhos estrábicos. Certa vez, deprimida, convenceu-se de que eram alucinações, provas de que, afinal, sempre fora meio maluca. Arritmia, epilepsia, esquizofrenia? Os médicos lhe disseram que não. Se nenhuma das anteriores, o quê, então? Ao longo da vida buscou explicações para aqueles terremotos internos. “São bobagens, de um jeito ou de outro todo mundo sente alguma coisa parecida, não liga não”, um namorado meigo lhe soprou certa vez ao ouvido, acalmando-a com carinhos. Deixou-se convencer, afinal o namorado era ótimo, beijava como ninguém, e ela não podia mesmo ficar presa a uma besteira sem nome, precisava tocar a vida.
Tocou a vida o melhor que pôde. Casamentos, filhos, trabalho, divórcios, falta de grana, mudanças, sonhos feitos, desfeitos, refeitos, tombos, fantasias. Houve época em que, feliz, quase se esqueceu dos lampejos que em centésimos de segundo faziam tudo tremer à volta, destroçando seu mundo.
Os truques da experiência lhe ensinaram a conviver com aqueles sem nome que a atormentavam. Apertava bem os olhos, para não cair segurava com força a primeira coisa sólida ao redor, respirava fundo algumas vezes, e... pronto. Eles se iam, deixando no ar apenas seu rastro passageiro: um risco de fogo, uma centelha ou fenda muito estreita, um arrepio... Causavam também, é verdade, desconforto profundo, persistente sensação de mundo deslocado, de vertigem, de coisas completamente fora de lugar, mas contra isso nada podia fazer, a não ser empurrar tudo para o fundo, bem para o fundo e para dentro, e ir tocando a vida.
Um dia a vida a tocou. Viu-se diante de tantos impasses, becos sem saída, cofres cujos segredos perdera, portas cerradas, fracassos, que decidiu buscar apoio.
Encontrou um grupo, formado por pessoas que, como ela, procuravam ajuda para situações de vida difíceis. Dirigido por profissionais, este grupo, concentrado em uma fazenda por dias, submeteu-se a um trabalho psicológico. Por meio de técnicas variadas, cada um do grupo buscava identificar em si os padrões emocionais e de comportamento que lhe atrapalhavam a vida, para superá-los.
Ela se entregou totalmente à experiência, a cada exercício deixava cair paredes, véus, punhais, armadilhas, espelhos, ataduras, escudos, petardos, a cada dolorosa descoberta deixava entrar ar fresco no porão, raios de lua iluminando o rio, respingos de cachoeira nos cabelos, pelo corpo sensações de prazer, insuspeitas renovações internas, descobrimentos de mundos.
No penúltimo dia, um nervosismo extremo, uma urgência de algo que não sabia o que era. Angustiada, andou de um lado para outro na fazenda inteira sem encontrar lugar, andou tudo de novo mas não descobriu o seu lugar, dor infernal no peito, no corpo inteiro, vontade incontrolável de chorar... E aqueles lampejos, aqueles tremores, aquelas descargas elétricas internas que por falta de nome chamava raios, relâmpagos, terremotos, tudo voltou com força, diversas vezes, uma descarga após a outra, quase sem intervalo.
Desta vez, não quis chorar na frente dos outros nem com os outros. Abandonou o trabalho do grupo, enfiou-se sozinha no quarto, jogou-se na cama, chorou como nunca pensou ter lágrimas. Exausta, adormeceu.
E sonhou.
Ao acordar, seguindo orientação dos psicólogos, imediatamente anotou o sonho. Anotou tudo sem pensar, escrevendo muito rápido para não deixar fugir as imagens. Ao terminar, largou o caderno. Sentiu necessidade de tomar banho.
Cabelos lavados, fresca, sentou-se sozinha na varanda, para ler o próprio sonho. Quase desmaiou. Não teve nenhuma dúvida: aquilo acontecera com ela! Não era apenas um sonho, era uma memória... recuperada! Seu texto:

“Sonho estranho. Uma menina pequena, com 3, 4 anos, brinca numa sala. Brinquedos espalhados pelo chão e sofá. A menina está descalça, só de calcinha. Feliz, entretida com os brinquedos. Tem cabelo cacheado.
Cena 2: a mesma menina, deitada sobre o sofá, de frente para a parede. Deitado atrás dela, encostado nela, um homem. O sonho é da perspectiva da menina. Ela não vê o homem. Ela sente o homem. A menina está um pouco assustada, mas não muito, porque conhece aquele homem.
Cena 3: Na mesma sala anterior, uma conversa maluca entre a mesma menina e seu cérebro adulto. Isto é: o cérebro é o intelecto da menina depois que ela se tornou adulta. Menina e intelecto têm a seguinte conversa:
M – Intelecto, deixe de racionalizar, de se enganar! Quem viveu esta cena não foi você, adulta, fui eu, criança!
I – Então me conte como você viveu — você nunca me contou!
M – Eu sou pequena. Então, o meu coraçãozinho é pequeno. E ele nem fica escondido como o seu, de adulta, não. Na verdade, eu inteirinha sou um coração, um coração que anda, um coração que brinca, aqui, em toda a sala.
I – Ah, é? E o que foi que lhe aconteceu? Conta pra mim!
M – Eu tava brincando toda felizinha na sala, só de calcinha, quando de repente, POU! O meu pai veio com um cacete e... POU! Atirou o cacete em cima de mim, bem na minha cabeça-coração, e eu, puft! Caí desmaiada no chão.
I – Como assim, menininha? Não estou entendendo a cena – sei pai entrou de repente na sala com um cacete?! Como era este cacete?
M – Era grandão, igual ao do Barney e do Fred Flintstone.
I – Sei. Ele estava vestido como?
M – De Barney. Então ele chegou pelas minhas costas, eu não vi, ele chegou por trás e... plaft! Arrumou o cacete com toda força em mim, e eu morri.
I – O que você sentiu, criança?
M – Eu morri.
I – Antes de morrer, o que você sentiu?
M – Doeu, doeu, doeu... e eu morri.”


Chorou muito.
De repente, as coisas começaram a fazer algum sentido para ela. Os dolorosos raios e relâmpagos eram traços, sinais que emitia para si mesma desde um tempo e uma sala muito antigos, vividos na infância. Memória insuportável, que enterrara no lugar mais escondido, remoto, recôndito que pudera encontrar: no mesmo túmulo onde há décadas sepultara a menina morta.
Lembrou-se de uns versos: “Assassinei a criança / Que tinha dentro me mim.” Mas não se lembrou do autor dos versos.

[Este texto integra a blogagem coletiva “Em Defesa da Infância”, proposta pelo blog Diga não à erotização infantil. Dia 18 de maio foi o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, e hoje, 25, é o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas. Vários blogs aproveitaram essas datas para postar imagens, textos e sons sobre esses assuntos infelizmente tão atuais. Desculpo-me por não ter postado o selo da blogagem, mas, retornando de viagem longa e me reorganizando ainda, só reparei nele há pouco.]

10 comentários:

Ana Tapadas disse...

Texto inquietante, Janaína.Belo porém...
Um beijo

Luma disse...

Nossa!! Janaína, acredito que muitas adultos não se lembram de coisas que lhe aconteceram na infância. No caso da menina do texto, teve sequelas e a pessoa procurou saber porque elas aconteciam. Muitos adultos cometem atrocidades contra crianças, achando que essas irão esquecer ou então usam do artifício quando questionados: As crianças são fantasiosas ou entao "É mentira! Quando chegar em casa vai ficar de castigo" e vira um ciclo - a criança nao conta por medo do castigo e o adulto apronta sabendo que estará impune. Existem as leis que protegem as crianças e fiquei sabendo de um projeto que começou em escolas no interior de São Paulo, em que crianças são instruídas a como se comportar em caso de qualquer abuso, seja sexual ou da autoridade familiar.
Boa semana! Beijus

Janaina Amado disse...

Exatamente, Luma. A variedade e quantidade de ato violentos cometidos contra criaças é impressionante, em todos os países, incuindo o Brasil. Por muitas razões, em gera impera o silêncio sobre estes atos. Mas, de uma forma ou de outra, as vítimas sempre "se lembram", de maneira consciente ou inconsciente (através das cicatrizes, físicas e psicológicas, que carregam vida afora).

Kimangola disse...

este é o reflexo ( o texto) de alguém que tem os olhos e coração abertos à vida.
infelizmente se vê uma maioria de mortiços olhos embalados pelo plasmático fruir artificial, onda de esquecimento no comprar, comprar, comprar...
as crianças , as outras e a que temos em nós correm verdadeiro perigo, pois são elas o depositário do Futuro.

na defesa de valores assim tou incondicionalmente com Vc.

xaxuaxo

adelaide amorim disse...

Como se vê, o velho Freud tinha toda razão. Muito esclarecedor, o texto sobre um acontecimento mais comum do que se imagina.Beijo pra você, menina.

Barbara disse...

Nem sei o que comentar.
Casos assim, mereceriam o pior castigo - a castração antes da prisão.
A menina que ela não pôde deixar crescer dentro dela, ferida.
Morta.
E viveu esse fantasma-luto-medo-confusão.
O luto da criança dentro de nós é a pior das patologias da alma.

Aninha Pontes disse...

Jana querida:
Um texto de fazer chorar. Principalmente porque sabemos o quanto é uma situação comum, triste, mas comum.
Veja o estrago que se faz na cabeça de uma criança, um ato impensado de um animal, que só quer dar vazão ao seu instinto.
Um doente, sem cura.
Lindo texto. Bem de você.
Um beijo nosso e um lindo domingo

Sílvia Câmara disse...

Forte texto, Janaína.
E a incrivel possibilidade de redenção pela escrita.
Quem sabe é o coração quem lembra???!!!
bjo grande e grata pela passagem no Brisa. Volte sempre.

Satyagraha with Robertinho disse...

Texto muito forte, mas é a realidade. Vale a pena para atentar que isto pode acontecer em qualquer lugar. Muito bom, parabéns pelo texto.

Satyagraha with Robertinho disse...

Postei um texto contra pedofilia...

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