segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Borboleta – a passagem


Quando eu viro borboleta fico fininha, fininha, trespassada de luz. Na leveza do meu ser vejo o mundo lá de cima, sinto a brisa deliciosa da primavera roçar as extremidades das minhas asas.

Conheço todas as flores da casa pelo cheiro. Ao nascer do dia, as antenas me levam até o perfume estonteante dos crisântemos; com o sol a pino, sou atraída pelo frescor das folhas de laranjeira, os delicados aromas dos miosótis me seduzem no fim da tarde. Vagabunda dos ares, adoro oferecer-me ao sol que, em troca, vai mudando minhas tonalidades de acordo com sua posição, ao som das músicas do universo que as pessoas não conhecem, mas as borboletas ouvem, sim. Quando viro borboleta sou solta, sou leve, sopro livre de vida do planeta.

Muitas pessoas acham as borboletas superficiais, inconstantes, espécies de dondocas do ar. Nada mais falso. Nós, borboletas, existimos desde tempos imemoriais, nascemos no instante mesmo da criação do universo. E, antes de ser borboleta, fomos lagarta. Como lagarta conheci os sofrimentos dos mundos subterrâneos, compartilhei os gritos dos condenados para sempre à escuridão, ouvi e emiti o murmúrio surdo, ressentido, das entranhas da terra. Arrastei-me aos pés dos outros, comi pó, me alimentei de beiradas de folhas, virei alimento de pássaros. Apesar dos meus esforços para disfarçar-me, como lagarta fui pisoteada, humilhada e morta, a pau, a pedra, a inseticida.


Vivi também a imobilidade e o silêncio da crisálida. Pendurada em algum canto escuro de uma parede esquecida, ou colada a um tronco onde não podiam me distinguir, grávida da beleza vivenciei a doação extrema que é morrer, para dar vida a outro ser. Antes de me extinguir como crisálida, porém, durante aquele período de completo isolamento, tornei-me totalmente translúcida. Limpa das maldades do mundo, pude renascer borboleta.

Nós, borboletas, somos seres depurados. Nos quarenta breves dias de minha vida, recolhi e experimentei todos os tumultos, traições, invejas e culpas espalhados pelos ares e, ao fazer isso, ajudei a purificar o planeta. Respondi aos imensos desafios da minha curta existência modificando-me por inteiro. Por duas vezes transmutei-me em outro alguém, completamente diferente do anterior. Nós, borboletas, somos essência, sumo purificado dos séculos, ar nascido do barro, sofrimento expurgado: delicadeza. Os antigos gregos, que tudo sabiam, descobriram também meu verdadeiro nome: Psyché, a alma, aquela que, liberta do corpo, borboleteia pelos céus descaradamente bela, entre flores e deuses.

Quando eu era bem pequena, me sentia borboleta o tempo inteiro, o vento tocando as pontinhas das minhas antenas, que tremelicavam quando eu mexia a cabeça cheia de cachos. Se alguém entrava na sala e me surpreendia toda colorida batendo as asas, cheirando flores, respirando pelos buraquinhos invisíveis do meu corpo ou brincando com as mariposas enquanto vestia bonecas e afagava bichos de pelúcia, este alguém invariavelmente abanava a cabeça, sorrindo: Criança pequena tem cada uma! Resultado: eu continuava borboleta, e elas, gente.

Com o tempo, percebi que os adultos estranhavam cada vez mais meu comportamento. Olhavam-me sérias, ar preocupado: O que tem essa menina, que não larga das flores? E essa mania agora de dizer que já foi largarta, história mais esquisita! Não tardaram as recriminações, as ordens, os tapas. Surpresa, sofrida, compreendi enfim que eu não era apenas borboleta, era borboleta e menina.

Dupla identidade difícil de gerir, pois os dois mundos, o das borboletas e o dos humanos, não se tocam, jamais se comunicam: opõem-se. Junto à bivó e à Pingá, minha querida cachorrinha, nas horas gostosas do banho, de sonhar acordada, chupar sorvete de manga, receber e dar carinho, andar descalça esparramando os dedos dos pés, nessas horas eu me transformo na mais linda borboleta cor de anil do mundo, salpicada de pintas e estrelas, dona de dois falsos olhos que enlouquecem qualquer ser alado. No restante do tempo, sou gente mesmo.

Sinto que meu tempo de borboleta está terminando. Minhas asas tornam-se cinzentas e nem sempre me obedecem. Meus vôos são agora tortos, desajeitados. Não consigo mais fazer meu corpo respirar inteiro. Definitivamente, perdi aquela capacidade de me soltar pelo mundo em busca do sol, de migrar com as amigas para longe do frio, voar rumo à luz, ao calor, às cores tropicais, àquele lugar mágico onde terra e mar se encontram, e se antevê o paraíso. Aflita, tento economizar ao máximo meu eu-borboleta, mas ele se esvai. Sinto que muito em breve não mais existirá. Por quê? Estou deixando para sempre a infância.

E todo mundo sabe: adulto não voa.


* Imagem daqui.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Num rumorejo alegre, a senhora e a menina



Ibeji*

Num rumorejo alegre
as moças cuidadoras
aveludaram a senhora

arrumaram seus cabelos
escolheram seu vestido
e pintaram suas unhas
cor de rosa.

Foi assim adocicada
que a mulher sentou-se
frente ao bolo perolado
entre firme e desvanecido
em cascatas de açúcar.

As velas pulsando 80
e o batuque vigoroso dos corações
bordeando a mesa
atordoaram a menina.

Os mais atentos viram,
apesar da inexatidão dessa hora,
quando ibeji ventou sorrindo
roubando doces da mesa
e fazendo brotar dos olhos dela
a nascente de um rio.
Martha Galrão

*Ibeji - é uma divindade ioruba, sempre representada por gêmeos, presente nos rituais brasileiros do candomblé; às vezes aparece como crianças. Simboliza os opostos que se complementam, a dualidade que caminha junta.


Conheci os poemas de Martha Galrão no seu blog,
Maria Muadiê. Fiquei cativa dos seus poemas de forte influência afro-baiana, das misturas de temas abstratos com assuntos cotidianos, e das surpresas que sua sensibilidade de mulher nos apronta. “Ibeji” reúne isso tudo, além de me remeter, com ou sem razão — afinal, quem domina as próprias associações? —, ao conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector. Uma amostra da poesia sensível e contemporânea desta poeta baiana.
Imagem daqui.

domingo, 24 de janeiro de 2010

De vaidades e ignorâncias


Ele nasceu quase duzentos anos antes de Cristo, na África, em local próximo a Cartago, na atual Tunísia. Vendido como escravo a um senador romano, foi por este educado, tornando-se um dos grandes autores de teatro do seu tempo, em todo o Império Romano. Publius Terentius Afer (195/185 a.C. – 159 a.C), conhecido em português como Terêncio, escreveu seis peças de teatro – entre elas Andria, Eunuco e Hécira (A sogra) – até hoje representadas, pela graça, vivacidade e ironia dos textos.

Atribuem-se a Terêncio algumas frases ótimas:

Nada do que é humano me é estranho.

O mais próximo de mim sou eu.

Nada é agora dito que não tenha sido dito antes.

Esta última frase – criada, sempre é bom repetir, no século II antes de Cristo –, deveria ser lembrada toda vez que algum escritor ou grupo de escritores alardeasse estar criando algo novo, jamais visto, dito ou escrito. Esse tipo de bazófia – infelizmente muito repetida hoje, pois estamos em plena era da valorização da novidade pela novidade – expressa, em geral, apenas uma coisa: ignorância.

Como escritores, creio que devemos, sim, buscar ser criativos, não nos conformando em imitar o que já está aí feito. Mas sem pensar que somos os primeiros, os originais, os inéditos, os únicos. Nada é agora dito que não tenha sido dito antes. Ou, como expressa o ditado popular: Não há nada de novo sob o sol. Ou ainda, como concluiu no século XVIII o químico francês Antoine de Lavoisier: Na natureza nada se cria, tudo se transforma.
*Imagem daqui.
** A frase destacada de Terêncio até há pouco ilustrava o blog de meu e-amigo Mariano.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Glauco Mattoso


Considero-o um dos maiores poetas da língua portuguesa. É múltiplo e é ótimo em todas as atividades artísticas a que se dedica, da tradução à poesia à arte gráfica, em sua maneira original e abusada de conceber o mundo. O glaucoma transformou Pedro José Ferreira da Silva em Glauco Mattoso, poeta vidente. Indico com entusiasmo seu site oficial, apresentando abaixo dois de seus sonetos magistrais, aperitivos para uma obra vasta e variada, ainda em construção. Poesia refinada, que só se degusta com sabedoria e atenção:
Contrariado
Por ser o cedo tarde e o tarde cedo;
por ser tarde a manhã e a noite dia;
por ser gostosa a dor, triste a alegria;
por serem ódio amor, coragem medo;

Se o plágio é mais invento que arremedo;
se exprime mais virtude o que vicia;
se nada vale tudo que valia;
se todos já conhecem o segredo;

Por ser duplipensar barroco a língua;
por menos ter aquele que mais quer;
se a falta excede e tanto abunda a míngua;

Por nunca estar o nexo onde estiver,
desdigo o que falei e a vida xingo-a
de morte, se a cegueira é luz qualquer.


(Glauco
Mattoso, Poesia digesta)


Natal
Nasci glaucomattoso, não poeta.
Poeta me tornei pela revolta
que contra o mundo a língua suja solta
e a vida como báratro interpreta.
Bastardo como bardo, minha meta
jamais foi ao guru servir de escolta
nem crer que do Messias venha a volta,
mas sim invectivar tudo o que veta.
Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche,
lambendo, por debaixo, os pés do algoz.
Mas não compenso, nem que o gozo esguinche,
masoca, esta cegueira, e meus pornôs
poemas de Bocage são pastiche.

(Glauco Mattoso, As mil e uma línguas)
* Imagem do poeta, trazida daqui

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A menina e o mar


Desde pequenina no mar. Este cheiro de mar que entra dentro dela e a deixa tontinha de alegria, com vontade de rir sem parar. À noite, dorme embalada por ondas. A menina sabe que nasceu no mar. Sua mãe abriu as coxas, eram duas montanhas separadas, as coxas fortes da mãe. Ela, a menina, veio lá de dentro da mãedeslizando, de dentro do buraco da mãe escorregou direto no mar. Nasceu com duas lindas cornucópias enfeitadas de conchas, uma de cada lado da cabeça, e com um rabinho verde-brilhante, rabinho este que logo se despregou do seu corpo, sem dor nenhuma, e ganhou vida própria, virou outro ser, independente.
Nascida enfim, a menina ficou flutuando no mar, entre mariscos tentadores, corolas amarelas – que ela não resistiu e, instintivamente, começou a esfregar com todo o cuidado pelo rosto, embora de forma ainda desajeitada –, tartarugas gigantes, bolhinhas de ar, cardumes de peixes listados de rosa e creme, e também aquelas algas transparentes, algas translúcidas que pela primeira vez lhe apresentaram a luz do sol, o que ela, menina, simplesmente adorou.
Feliz. A depender da sua vontade jamais sairia dali, daquele mar que é o seu elemento, seu ambiente, sua morada natural: aquela leveza molhada em perpétuo movimento. Porém antes que pudesse entender o que acontecia, alguém a arrancou de lá, mãos a puxaram com força – ainda viu de relance as duas montanhas da mãe se fechando para sempre. E ela, a menina, teve de começar outro aprendizado, difícil e lento, o da sobrevivência no novo ambiente. Duro, imóvel, infinitamente mais sem graça: a terra.
Sempre que pode a menina veste seu maiôzinho vermelho, que de tão gasto já está até meio pequeno pra ela e que tem um furo nas costas, segura a mão do primeiro adulto que aparece e se manda pra praia, pra areia. De braços abertos corre para abraçar o mar onde nasceu, e ali mergulha. Radiosa. Não se importa nem um pouco com os empurrões dos meninos chatos que pulam na beira, nem com os trambolhões das ondas gigantes. Ao contrário, ama ser embrulhada pelas águas, feito estrela-do-mar, feito sargaço. Esse é um brinquedo que nunca termina, recomeça a cada onda, maravilha.
Tudo ali conhece e ama, do sal da água ao picolé de fruta ao balde e às forminhas, até as conchas minúsculas que gostam de se enterrar na areia molhada, mas ela, sabida, recolhe todas, para enfeitarem as torres do seu castelo de areia. Nesse castelo mora Capitulina, a princesa-sereia prisioneira, que Floro, o príncipe-tubarão, logo salvará.
Não é assim que acontece, não, diz o adulto ao lado, ao ouvir o relato dela sobre seu nascimento no mar. — Você já está ficando grande. Tem de parar com isso, aprender como a vida é.



A menina enxerga o rosto duro do adulto, parecido com o da sua professora. Põe as mãos em concha sobre a testa, aperta os olhinhos devido à luz intensa do sol, e sorri. Com toda a paciência do mundo, explica mais uma vez o que o adulto não quer, não pode mais aprender:


Mas é assim que eu sinto.

E dispara rumo às ondas do mar onde nasceu, barrada de espuma.


[Na falta de uma foto capaz de expressar a ligação da menina com o mar, fica esta mesmo, a única que tenho sobre o tema. Se eu ainda fosse a menina, saberia colorir este mar...]

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Meu desejo secreto para 2010

É o meu desejo pessoal mais fundo, o mais secreto, agora escancarado: em 2010, quero virar escritora de literatura. Alguns de vocês, porque são gentis e amigos, me dirão que já sou uma, que tenho livros publicados, que me leem, que gostam do que escrevo, etc. Sem modéstia: não escrevo mal, às vezes escrevo bem, resultado de algum talento e de muito exercício, pois passei a vida inteira escrevendo, como estudante ou professora. Sem dúvida é por escrito que melhor me comunico.

Mas, apesar de já ter publicado um romance e três livros para crianças, e de ter escrito alguns contos, além de diversos livros de história do Brasil, eu ainda não me sinto uma escritora de ficção. Onde em mim aquele compromisso interior, aquela chama que faz alguém largar tudo para escrever imaginações, eleger a escrita de ficção sua prioridade absoluta na vida, onde aquela necessidade doida de criar ou morrer, que leva a pessoa a encontrar disciplina e superar faltas? Onde a gana e a garra, onde a fé absoluta na própria arte, no poder transformador da minha escrita? Onde olhar/viver a vida e nela enxergar, a cada minuto, a outra vida, aquela criada pela livre associação de idéias e sensações e pela imaginação do artista?

Procuro isso em mim, e não encontro. Escrevo de forma intermitente, sinto uma preguiça mortal para escrever, não gosto do que escrevo — paro no meio —, me disperso entre várias coisas, não termino meus escritos com vistas à publicação… Cadê a escritora de ficção? Ela não se realiza!

Quando, porém, em alguma madrugada silenciosa, asculto a mim mesma, quando colo o ouvido atentamente sobre meu coração e fico muda, encontro, sim, a escritora. Entro em contato com meu próprio desejo de escrever, minha crença absoluta na imaginação, meu olhar criativo, sensível sobre o mundo, minha alegria em ler, em criar…

A escritora de ficção existe em mim escondida, opaca, embotada, em segundo plano. O quê a impede de desabrochar, exibir-se, realizar-se? Volto ao meu coração, escuto-o de novo, em busca da resposta. Ela vem direta, não deixa dúvida: o medo. Medo do quê? De tantas coisas! De errar, falhar, não corresponder à minha própria e altíssima exigência, ser criticada, enlouquecer… tantas coisas, que me confundem. E por aqui eu paro, pois isto é um blog, não um consultório psicanalítico.

Neste último dia de 2009, porém, de uma coisa eu sei: meu desejo de virar uma escritora de ficção tornou-se avassalador. Tem alguém aqui com imensa vontade de em 2010 escrever histórias imaginadas, de fazer disso o seu compromisso e o seu prazer maiores, o centro da vida nos próximos doze meses. 2010 será, sim, o ano em que libertarei a escritora, para que sem vergonha nem limites nem bom senso corra pelas areias do mundo. É o meu desejo.
[Imagem daqui]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Neste Natal, um conto de Miguel Torga

[Meus amigos: para vocês, nesta época de Festas, envio um abraço caloroso e ofereço este conto de um dos meus escritores preferidos, o português Miguel Torga. Para mim, este pequeno conto exala essências do Natal, como simplicidade, acolhimento, mistério, epifania. Vale a pena entregar-se à sua magia.]

Um Conto de Natal

Miguel Torga

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha demais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.
Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

* Conheci este conto de Torga quando ainda era adolescente, e me encantei com ele. Reencontrei-o recentemente num e-mail enviado por Amélia Pais, a quem agradeço.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O encontro do sol, da água e da cidade


Para saber que encontro é este, clique aqui.

domingo, 15 de novembro de 2009

Tudo é tradução


Se pensarmos bem, tudo é tradução, ou seja, a maioria das atividades humanas consiste em transmitir uma ideia, uma impressão, uma canção, um poema, um objeto, um conhecimento de uma realidade para outra, em traduzi-los, em torná-los inteligíveis de um ambiente para outro, de um grupo de pessoas para outro. Quando dou uma aula, estou traduzindo um determinado conteúdo para os alunos. Se toco uma peça ao piano, traduzo, usando meus conhecimentos e técnica, uma peça que originalmente alguém compôs, em si também uma tradução dos sentimentos e ideias do seu compositor... a teia que vai se estabelecendo entre os humanos é quase infinita, nessas aproximações que fazemos, para nos comunicar.
Conheço poucos textos sobre tradução tão bons quanto este de Saramago. Referente à escrita e à tradução entre idiomas, foi no entanto concebido no sentido amplo a que me referi:

“Escrever é traduzir. Sempre o será. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos […] para um código convencional de signos, a escrita, e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não a integridade da experiência que nos propusemos transmitir (inevitavelmente parcelar em relação à realidade de que se havia alimentado), mas ao menos uma sombra do que no fundo do nosso espírito sabemos ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o resto de um sonho que o tempo não apagará por completo.
O trabalho de quem traduz consistirá, portanto, em passar a outro idioma (em princípio, o seu próprio) aquilo que na obra e no idioma originais já havia sido “tradução”, isto é, uma determinada percepção de uma realidade social, histórica, ideológica e cultural que não é a do tradutor, substanciada, essa percepção, num entramado linguístico e semântico que igualmente não é o seu. O texto original representa unicamente uma das “traduções” possíveis da experiência da realidade do autor, estando o tradutor obrigado a converter o “texto-tradução” em “tradução-texto”, inevitavelmente ambivalente, porquanto, depois de ter começado por captar a experiência da realidade objecto da sua atenção, o tradutor realiza o trabalho maior de transportá-la intacta para o entramado linguístico e semântico da realidade (outra) para que está encarregado de traduzir, respeitando, ao mesmo tempo, o lugar de onde veio e o lugar para onde vai. Para o tradutor, o instante do silêncio anterior à palavra é pois como o limiar de uma passagem “alquímica” em que o que é precisa de se transformar noutra coisa para continuar a ser o que havia sido. O diálogo entre o autor e o tradutor, na relação entre o texto que é e o texto a ser, não é apenas entre duas personalidades particulares que hão-de completar-se, é sobretudo um encontro entre duas culturas colectivas que devem reconhecer-se."


[José Saramago,
O Caderno de Saramago, 2/7/09]

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Abre aspas para a poesia


Amaresia

Magias e morfemas
beijam madrepérolas
no marulhar da nudez
dos teus passos nacarados
– búzio a cantar o mar –
vestindo rendas chuvas
organzas
espumas
e calemas...

Namibiano Ferreira

Na blogosfera descobri o fascínio, a força e a beleza da poesia de Namibiano Ferreira, poeta nascido no deserto do Namibe, Angola, atualmente morador em Norfolk, Inglaterra. Volto ao seu blog com frequência: seus versos me atraem irresistivelmente para o esplendor do espaço mágico do Namibe, aonde eu nunca fui, mas é como se conhecesse cada grão de areia, pois sinto o Namibe deste poeta como uma espécie de substrato mítico de onde viemos todos, e desde sempre. A poesia poderosa de Namibiano Ferreira — aqui representada por Amaresia, delicado poema de amor e mar, pois, pasmem, o Namibe também é mar — é minha contribuição para a blogagem coletiva "Abre aspas para a poesia", ótima iniciativa da Lunna, do Teorias Impossíveis, com o objetivo de encher a blogosfera de poesia.
*Imagem daqui

sábado, 31 de outubro de 2009

Uma velha que me contava histórias



[Embora os métodos educacionais tenham mudado, creio que as crianças de hoje sentem a mesma distância abissal entre a escola e a vida, como no tempo do grande poeta brasileiro Ascenso Ferreira. Curtam o poema, e me digam se concordam com essa minha opinião. Abraços!]

Minha escola

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!

À sua porta eu estava sempre hesitante...
De um lado a vida... — A minha adorável vida de criança:
Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio...
Jogos de castanhas...
— O meu engenho de barro de fazer mel!

Do outro lado, aquela tortura:
"As armas e os barões assinalados!"
— Quantas orações?
— Qual é o maior rio da China?
— A 2 + 2 A B = quanto?
— Que é curvilíneo, convexo?
— Menino, venha dar sua lição de retórica!
— "Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!"
— Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
— Agora, a de francês:
— "Quand le christianisme avait apparu sur la terre..."
— Basta
— Hoje temos sabatina...
— O argumento é a bolo!
— Qual é a distância da Terra ao Sol?
— ?!!
— Não sabe? Passe a mão à palmatória!
— Bem, amanhã quero isso de cor...

Felizmente, à boca da noite,
eu tinha uma velha que me contava histórias...
Lindas histórias do reino da Mãe-d'Água...
E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.


Ascenso Ferreira. Catimbó (1927).
*Imagem daqui

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

À beira do Tejo


[Hoje acordei com saudades de Portugal. Imagens lindas e ternas do país e de sua gente me voltam, são tantas... Hoje acordei com saudades de Portugal. Para diminui-las, copio abaixo o poema deste jovem poeta brasileiro]

À beira do Tejo

Finjo não ver: a noite
me esconde, e não sei
mais o que é preciso.
Finjo que vou à janela
e grito os palavrões
habituais. Finjo ser
Fernando Pessoa,
a fingir as dores de si e de
todos em volta de si. Mas
finjo sem a mesma
convicção: não, não há como
ser Fernando Pessoa, e há
essa outra vida no além mar,
no depois. Finjo a inteira
consciência deste outro,
deste lado do Atlântico.
A essa hora da noite,
entretanto, finjo mais que tudo
o cigarro que jamais traguei.

Nilson Galvão

* Há mais poemas do Nilson Galvão aqui
** Imagem
daqui

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A escrita perfeita de Raduan Nassar


Ele publicou apenas duas pequenas novelas e um livro de contos, mas é um dos maiores escritores brasileiros. Filho de imigrantes libaneses, de família numerosa (10 irmãos), nascido em 1935 no interior de São Paulo, Raduan Nassar transferiu-se aos 20 anos, com a família, para a capital do Estado, onde se formou em Filosofia e estudou também Letras e Direito, mas sem concluir. Após a publicação de seus dois romances, na década de 1970, decidiu abandonar a literatura (seu livro de contos A menina a caminho, de 1994, reuniu textos escritos anteriormente). Desde então, dedica-se a atividades agrícolas numa fazenda que comprou no interior de São Paulo. Não dá entrevistas. Recebeu prêmios importantes, foi traduzido em diversas línguas e teve dois livros transformados em bons filmes do cinema brasileiro.

A prosa de Raduan Nassar é absolutamente única, seu estilo denso e opressor, inconfundível. Em seu texto não há uma palavra a mais, um termo equivocado, uma frase sobre a qual se possa pensar: “Isto poderia ser melhor escrito!”. Seus livros compactos contém apenas aquilo que devem conter: a escrita perfeita e toda a dor do mundo.

Li primeiro Um copo de cólera (1978), seu segundo livro, densa novela urbana em que um casal em crise expõe todos os aspectos de sua conturbada relação. Escrito em apenas quinze dias, é apontado por muitos críticos como “a novela essencial da literatura moderna e contemporânea brasileira”. Quase a seguir, me debrucei sobre seu primeiro livro, Lavoura arcaica (1975), extraordinária saga familiar de imigrantes árabes, narrada em primeira pessoa, onde se fundem incesto, amor e culpa. As duas leituras balançaram completamente meu mundo, e o fizeram de forma literal: provocaram-me vertigens, falta de ar e de sono, choro, garganta seca, sensação de soco no estômago, além daquele maravilhamento diante do poder dos textos canônicos. Até hoje alguns trechos me voltam à cabeça e ao coração, sem que eu peça: simplesmente residem em mim.

Foi este o instante: ela transpôs a soleira, me contornando pelo lado como se contornasse um lenho erguido à sua frente, impassível, seco, altamente inflamável; não me mexi, continuei o madeiro tenso, sentindo contudo seus passos dementes atrás de mim, adivinhando uma pasta escura turvando seus olhos, mas a sombra indecisa foi aos poucos descrevendo movimentos desenvoltos, perdendo-se logo no túnel do corredor: fechei a porta, tinha puxado a linha, sabendo que ela, em algum lugar da casa, imóvel, de asas arriadas, se encontraria esmagada sob o peso de um destino forte; ali mesmo, junto da porta, tirei sapatos e meias, e sentindo meus pés descalços na umidade do assoalho senti também meu corpo de repente obsceno, surgiu, virulento, um osso da minha carne, eu tinha esporas nos meus calcanhares, que crista mais sangüínea, que paixão desassombrada, que espasmos pressupostos!
(Raduan Nassar, Lavoura arcaica, S.Paulo: Cia. das Letras, 3ª ed. 1989, p. 102-3)

[Este texto integra a blogagem coletiva “Vida de Escritor”, proposta pela Vanessa, do ótimo blog Fio-de-Ariadne]
* Imagem: cena do longa-metragem Lavoura Arcaica (2001), direção de Luiz Fernando Carvalho, com Selton Mello, Simone Spoladore, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha e outros.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A menina e o menino (II)


[Para quem tá chegando agora, sugiro ler primeiro A menina e o menino (I)]
Este menino que veio do mar é um espanto. Não é como ela. Não se comporta, não fala baixo, não engole choro, não é ordeiro nem certinho, não brinca com bonecas, não come de boca fechada, não segura direito a colher nem age por trás, escondido. Nada disso. Este menino faz um barulho danado, dá beijo em todo mundo, atira os óculos do avô pela janela do apartamento e fica depois na ponta dos pés, espiando pra ver onde caíram, este menino trepa nos móveis, corre pela casa, desce correndo as escadas do prédio, empurra as pessoas, com a maior alegria espalha mel e farinha e ovos quebrados pelo chão da cozinha, ri muito, desenha nas paredes, briga, levanta a saia da empregada e sai em disparada, tranca-se no banheiro e esmurra a porta por dentro, chora alto .... Já mostrou pra ela, menina, que tem pinto e faz xixi em pé, e quer porque quer ver a xoxota dela.
Este menino é um enigma. Ela sente-se irresistivelmente atraída para ele, que brilha como o sol e ri como o mar, que dá beijos e abraços nas pessoas, enlaçando-as pelo pescoço. Ele sabe tudo o que ela ignora, ele transgride todas as normas a que ela, obediente, se submete por medo. Encantada e amedrontada, a menina não tem respostas.
A cada dia, sente-se mais ameaçada. O que este menino metido está fazendo aqui? Esta casa antes era só pra mim! Por que vovó agora anda toda derretida pra ele? Por que ele bate em mim?
O menino também sente ciúmes. E descobre rápido que é bem mais forte do que ela. Passa a chamá-la para a briga, a todo momento. Bate nela com força e dedicação, puxa-lhe os cabelos, cospe na sua cara, dá-lhe rasteiras, empurra-a contra a parede, arranha-lhe o corpo. Ela resiste como pode, mas perde todas. Impotente, chora, várias vezes por dia. Chora de dor, raiva, abandono, solidão, ciúme, impotência, humilhação. Joga-se na cama vazia dos avós, e chora. Nunca se sentiu tão infeliz na vida. Pela primeira vez, pensa em morrer.
As brigas constantes das crianças provocam confusão entre os adultos da família. Irritado por ver a filha apanhar todos os dias, o pai da menina tira satisfação do menino, e acaba por dar-lhe uns safanões. A mãe do menino não aceita ver seu filho tratado assim. Os dois discutem feio, o avô das crianças interfere, porém suas palavras pioram a situação. Assustada, a bebezinha começa a berrar, o que exaspera os adultos.
E o menino bate, e a menina chora. E a menina chora, e o menino bate, dia e noite, noite e dia. Dentro do apartamento onde todos se apertam, a tensão torna-se insuportável. Sufoca. A menina começa a chamar pela mãe. Se minha mãe estivesse aqui, isso tudo não acontecia. A gente tava morando na nossa casa.
O menino parte enfurecido para cima da menina, que foge correndo. Ele consegue encantuá-la contra a parede da sala. Ofegantes os dois, olham-se. A menina se apavora, pois vê na mão dele um cano de ferro, prestes a ser arremessado contra ela. Instintivamente, protege o rosto com os braços, encolhe-se toda à espera da dor ... que não vem. Abre os olhos, enxerga a tia imobilizando o menino, gritando para ela:
— Bate nele! Agora! Quero ver você bater nele!
Assustada, a menina sente muita vontade de fazer xixi, chora, quer fugir dali. Mas a tia insiste:

— Você tem de bater nele! Vamos, eu estou segurando ele, não tem perigo. Pode bater! Já!

E, como a menina ainda vacila:

— Se você não bater agora nele, eu é que bato em você!

A menina reúne toda a força que não sabe que tem, força que brota do ódio, do desamparo, do desejo de vingança, da rejeição,do ciúme, do instinto de sobrevivência, e parte pra cima do menino. Ele tenta chutá-la, mas a mãe imobiliza suas pernas, enquanto a menina bate, bate, bate, cospe, chuta, xinga, dá cabeçadas, bate, bate, bate, bate, cada vez mais forte, com uma fúria que nunca soube possuir. Está adorando. Sente-se triunfante, vingada, poderosa.

Bate até o menino chorar alto, que é também quando ela se cansa. A tia vai soltando o menino aos poucos. Surpreso, humilhado, doído, ele chora. A mãe abraça o filho com carinho e o beija, afagando-lhe os cabelos molhados de suor.

No dia seguinte, o menino ensaia nova surra. Mas, esperta e poderosa, a menina depressa lhe arranha o rosto. Ele recua.

Deste momento em diante, a menina e o menino tornam-se inseparáveis. Juntam forças, manhas e saberes. Não brigam. Aliam-se os dois contra o resto do mundo. Combatem e vencem todas as maldades. Juntos são rei e rainha, índia e cowboy, índio e índia, professora e aluno, desbravadores do velho oeste, alvos aterrorizados das injeções do Seu Petrônio da Farmácia, sol e lua, telespectadores, leitores e personagens de histórias em quadrinhos, cinéfilos, namorados, concha e água-viva, astronautas, vítimas de caxumba, sarampo e catapora, descobridores de fundos de mares e longínquas galáxias, fanáticos colecionadores de figurinhas, vendedores de distintivos do Partido Comunista e de papel alumínio retirado dos maços de cigarro, cúmplices de artimanhas, frequentadores de parques de diversão... Unidos contra o resto do mundo, são imbatíveis. Um sempre de olho no outro.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sophia de Mello Breyner, a força da poesia



Sophia de Melo Breyner Andresen (1919-2004) é considerada uma das maiores poetas portuguesas do século XX. Penso que é uma das maiores poetas de todos os tempos. Seu verso é claro, preciso, elegante, comovedor. No final de um poema dedicado a Sophia, escreveu Manuel Alegre:“Sua escrita é de nau e singradura / e há nela o mar o mapa a maravilha./ Sophia lê-se como quem procura / a ilha sempre mais ao sul.”

Nascida no Porto, de família aristocrática — por parte de pai, de origem dinamarquesa —, Sophia passou a infância e adolescência na cidade natal, na fabulosa Quinta do Campo Alegre (hoje simplesmente o Jardim Botânico do Porto), que pertencia à sua família. A infância e a natureza são dois temas preferenciais da poesia de Sophia. Outro tema central é o mar, presente em dezenas de poemas seus, como este

Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Já o poema a seguir recria de forma magistral um tema caro aos portugueses, o do mar ligado aos descobrimentos:

Descobrimento

Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado.
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados
Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam as crinas nos alísios
O mar tomou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados


Em Lisboa, Sophia de Melo Breyner formou-se em Filologia Clássica (1939) — a herança clássica tornando-se essencial à sua percepção do mundo —, participou de movimentos literários, tornou-se amiga de poetas como Jorge de Sena e, ao lado deles, combateu a ditadura salazarista. Tinha coragem e um forte senso de justiça. Casou-se em 1946 com o advogado, jornalista e político Francisco Sousa Tavares, tendo cinco filhos, entre os quais o escritor Miguel Sousa Tavares.
Em 1974, Sophia apoiou a Revolução dos Cravos, que pôs fim ao salazarismo, e no ano seguinte foi eleita, pelo Partido Socialista, para a Assembléia Constituinte. Seu profundo senso de cidadania inspirou-lhe vida e obra. Não colocou sua poesia a serviço da ideologia, mas trouxe para os versos situações vividas no dia-a-dia da história do seu país. A dura situação do exílio, por exemplo, experimentada por tantos de seus amigos durante o salazarismo, a comovia:
Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades


Sophia sabia que, acima e além dos homens, das circunstâncias e das guerras, reinava o poder da poesia, único capaz de fazer reflorir a vida:

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.


Sophia de Mello Breyner publicou numerosos livros de poesia a partir de 1945, entre eles Mar Novo (1958), Livro Sexto (1962), O Nome das Coisas (1977) e Ilhas (1989). Foi também contista, escrevendo ainda diversos livros para crianças. Recebeu prêmios importantes, entre eles, em 1999, o Prêmio Camões. Poucos foram tão grandes quanto ela:

Deus escreve direito por linhas tortas

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento.

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