domingo, 23 de agosto de 2009

Terra molhada


Verdes campos de capim gordura, imensidões até onde a vista alcança. Borboletas, passarinhos. Silêncio (mas escondido atrás do abacateiro, de vez em quando o lobisomem uiva). Três ou quatro curiós e uma coruja tardia. Madrugada alta, primeiras raias de sol no horizonte Uma paz. Uma alegria. Sapo cururu na beira do rio. Sem-vergonhas espalhadas e margaridas silvestres. Urutau, o chora-lua. A brisa que ondula a relva movimenta como o mar, sereia. Preguiça, sinhô, uruaê batô! Terra sem mal. Que vontade de cantar. Terra molhada de chuva. Terra preta entranhada de água, oferecida espalha sua força, úbere do mundo: cocanha. Minhoca comeu a terra; pássaro preto, a minhoca; urubu não comeu nada – magro, espreita de longe a antevisão do futuro.

Nessa hora (o dia não nasceu, a noite não morreu), menino pequeno e pai passeiam sozinhos pelo campo. Mãe em casa, esquentando o leite. Menino segura a mão imensa do pai. Sabe já que os rudes calos dele são sua âncora — flechas que ensinam o tempo, estrelas-guia nos labirintos do mundo: rochedos. Facão do pai corta o mato denso. Desbastando o mato, pai cria o horizonte.

Menino adora goiaba branca. Pai cata goiaba, dá para o menino. Sossega, menino — tem mais bicho não, pai mordeu a fruta antes, cuspiu fora o bicho. Menino saboreia a goiaba branca com os olhos fechados, tenros carocinhos da polpa derretendo na língua, a boca doce.

De repente menino escorrega no barranco, mas a mão do pai o segura rápido, puxando-o firme pra cima. Menino mais branco do que a goiaba. Pai ri do menino, menino ri do riso do pai, cachoeira. Pai gosta de rir do mundo, satisfação do menino! Sob os pés a terra mole cede, cobrindo os pés do menino e do pai. Gostoso enterrar os pés ao mesmo tempo, mexendo bem os dedos na terra fofa encharcada, barro da vida. Delicioso mergulho de pés, tornozelos, pernas até o fundo incerto da Terra, lá onde coabitam o terror com os mais secretos desejos. Segura caminhada que pai guia em meio aos matos do mundo.

O cheiro da terra molhada ganha o capim, o ar, as folhas das árvores tortas, impregnando para sempre cada poro do menino pequeno, que dele jamais se esquecerá. A este cheiro retornará sempre que a vida lhe for muito dura, faltarem-lhe força, coragem ou consolo ou, simplesmente, sempre que, distraído, baixar o vidro do carro em movimento após alguma chuva, e o mundo da infância entrar-lhe pelas narinas.

Janaína Amado
*Imagem daqui

domingo, 16 de agosto de 2009

Um ano de blog



Este blog está fazendo um ano. Jamais pensei que escreveria esta frase.

Foi minha amiga Maria Sampaio quem insistiu comigo pra criar o blog. Nunca havia pensado nisso, não tinha sequer (confesso!) paciência pra ler blogs... Mas ela insistiu com jeito, e de repente me encontrei blogueira. Estava numa fase de mudanças, recém chegada de uma temporada ensinando história nos Estados Unidos, com muita vontade de voltar à literatura mas sem saber direito como, ao mesmo tempo querendo começar algo novo mas sem saber exatamente o quê... Nasceu assim o acreditandonotruque, em meio às minhas incertezas e ao carinho amigo. Logo depois, para abrigar textos mais longos e literários, dos quais não desejo abdicar, criei este enredosetramas. Aos poucos, à medida que os e-amigos me ensinavam a lincar, colocar imagem, trazer vídeos do you tube etc. — sim, a ignorância aqui era e permanece crassa, ampla, irrestrita e resistente —, fui visitando outros blogs e recebendo leitores no meu.

Sou poeira na blogosfera, este universo infindo, tão ou mais poderoso do que o outro, o concreto. Neste ano, porém, descobri um mundo. Conhecidos que se transformaram em amigos, amigos que trouxeram novos amigos, gente de várias partes do mundo interessada nas mesmas coisas que eu, gente escrevendo muitíssimo bem, gente me incentivando e sendo incentivada, trocas, textos conduzindo a textos conduzindo a textos conduzindo a textos, o poder das imagens, poesia, rapidez, música, o conhecimento de experiências formidáveis feitas mundo afora, os aprendizados, diálogos, palavras apressadas, besteirol, risos, surpresas — muitos favos de mel, poucos travos de jiló —, participação em campanhas, minha literatura reaparecendo, ressurgindo em mim. Vontade de ousar, de cantar, de me jogar neste universo ao mesmo tempo instantâneo e duradouro, efêmero e influente, assustador e apaixonante, poderoso e frágil, ilusório, real.

Nesta blogosfera sempre a descobrir, que se comunica com o restante do mundo virtual e com o mundo concreto mas também representa um espaço específico, com regras próprias, neste admirável mundo novo o que mais me encanta é descobrir um grupo de sentimentos velhos como o mundo, tais como amizade, acolhimento, respeito pelo diálogo: amor, enfim.

No começo, de leitores eu só tinha Maria e alguns parentes. Depois, via meu primo Caco (o único lord da família), apareceram o Valter Ferraz, que inventou uma rádio, e sua mulher, a blogueira Aninha Pontes. A esses primeiros leitores dedico meu primeiro ano de blog. E, simbolizando todos vocês, meus leitores — vocês são a razão de ser do blog, sem vocês não há blog —, dedico este primeiro ano de blogagem também ao meu fiel, solitário, silencioso leitor ou leitora que vive em local marcado como “desconhecido” no meu contador de visitas. Sei apenas que me lê com frequência, de lá do extremo norte de Mato Grosso, perto de Sinop, em plena floresta amazônica.

Juro por Deus que, no segundo ano de blog, vou aprender a ser sucinta.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Literatura e precipício


«¿Entonces qué es una escritura de calidad? Pues lo que siempre ha sido: saber meter la cabeza en lo oscuro, saber saltar al vacío, saber que la literatura básicamente es un oficio peligroso. Correr por el borde del precipicio: a un lado el abismo sin fondo y al otro lado las caras que uno quiere, las sonrientes caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida. Y aceptar esa evidencia aunque a veces nos pese más que la losa que cubre los restos de todos los escritores muertos. La literatura, como diría una folclórica andaluza, es un peligro

(Texto transferido do ótimo blog português
Bibliotecário de Babel, de José Mário Silva)

Ninguém me resumiu tão bem a sensação que a literatura me traz, a vertigem, o perigo, o terror do precipício onde tudo é desconhecido e existe em permanente ebulição, onde um mundo turbulento é criado e recriado a cada instante, em contraposição ao sorridente, prazeroso, previsível mundo cotidiano. Na borda do precipício, irremediavelmente atraído por ele, encontra-se o escritor, este ser irresponsável.

O texto integra o Discurso de Caracas, que o grande escritor chileno Roberto Bolaño (1953 – 2003) leu ao receber, em 1999, o prêmio Rómulo Gallegos, por seu romance Os detetives selvagens, publicado no Brasil pela Companhia das Letras e descrito pelo autor como uma carta de amor à sua geração. Um dos maiores escritores latino-americanos da segunda metade do século XX — há quem o considere um dos maiores de sempre, na América Latina —, Bolaño é autor dos romances Noturno do Chile e A Pista de Gelo, publicados no Brasil pela mesma editora, e de 2666, magnífico romance póstumo, ainda não lançado aqui (espera-se que a lacuna seja logo preenchida).

* Um bom ensaio introdutório sobre Bolaño está aqui.
*Repito a imagem que postei há algumas semanas neste blog, e que adoro. Trouxe-a daqui.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A menina e a mãe


Quando a menina pequena abre os olhos de manhã cedo, pergunta logo Cadê mamãe? Neste dia não tem resposta. Nunca mais terá resposta a essa pergunta. Mazi disfarça, diz que a mãe foi ali e volta já, mas o dia inteiro se passa e a mãe não volta. Irritada, inquieta, a menina não consegue brincar, chora, não tem apetite: Não quero comer esta porcaria!, joga o prato em cima de Mazi.
A menina percebe que alguma coisa está profundamente errada. Não sabe o que é, porém seu corpo alerta indica o perigo a rondar. Precisa da mãe ali para protegê-la, defendê-la. Chama por ela, chora por ela, mas desta vez a mãe não está ali junto, sumiu. Muito confusamente a menina intui que o problema é a mãe, a mãe é o problema, mas não entende nada, e chora.
Quando o pai enfim volta para casa, a menina voa em cima dele. Pula em seu pescoço, ansiosa: Cadê mamãe?, mas o pai a devolve ao chão. A menina percebe que o pai não olha para ela, o olho dele está saindo pela janela, longe. Parece muito cansado, o seu pai. Cadê mamãe, cadê mamãe?, insiste. A resposta chega como surra:
— Mamãe está doente. Vai precisar ficar no hospital.
Doente? Mas mãe não fica doente! Pela primeira vez, o pai sorri. “Fica, sim. Lembra quando ela sentiu aquela dor de garganta e teve de ficar na cama? Estava doente.” Mamãe tá com dor de garganta? Não. Tá com dor de dente? Não. Com dor de olho? De nariz? Andando atrás do pai, a menina vai repetindo a mesma pergunta, com a troca só da última palavra. Não estava nem na metade da sua lista de partes do corpo, quando o pai dá um berro: “Chega! Me deixa em paz!” tão súbito e alto e aterrador que a menina escorraçada dispara rumo à cozinha, vai chorar no colo de Mazi.
Nesta noite, ela consegue dormir só muito tarde, depois de Mazi cantar o sapo cururu várias vezes e seus olhinhos se fecharem de exaustão.
Sonha com a figura forte da mãe a seu lado, as duas caminhando juntas pela rua clara de sol, uma brisa que vem do mar levantando os cabelos delas, a sua mãozinha protegida dentro da mão firme da mãe. Ela observa admirada aquela mãe tão bonita, alta, elegante, empinada. Ri pra ela, de pura satisfação. Com mamãe, eu não tenho medo de carro. Não tenho medo de cachorro. Nem medo de sumir na multidão. Nem medo de esquecer o caminho de casa. Mamãe sabe. Mamãe conhece todos os caminhos. Mas no sonho então a mãe se vira para ela, rosto sério, e diz: “Estou perdida. Não conheço mais os caminhos.”
A partir daí a vida da menina vira confusão barafunda anarquia desarranjo, ela aos trambolhões de uma casa pra outra, o pai no trabalho ou no hospital, Mazi dando adeus e indo embora, um monte de gente estranha em volta, seu mundo de ponta-cabeça, todas as coisas, todas as pessoas fora de lugar, pesadelo.
A menina pergunta a cada hora Por que mamãe tá demorando tanto? Ninguém sabe lhe responder. “Como contar a uma menina pequena que sua mãe enlouqueceu?”, pensam. Quando mamãe vai voltar?, insiste. Ninguém conhece a resposta. À hora de dormir, no escuro, a menina passa devagar a ponta da fronha no rosto, enquanto pensa perguntas que não tem coragem de dirigir aos outros: Por que mamãe não me disse onde ia? Por que não me deu adeus, beijo, nada? Por que ela me deixou aqui sozinha?
No dia seguinte, retorna à pergunta habitual: Quando mamãe vai voltar?
Aquela mãe nunca voltou.
A mãe que sabia todos os caminhos nunca voltou.
A filha não a esquece. Como poderia, se a vida inteira tem caminhado ao seu lado na rua clara de sol, passo a passo com a silhueta sem carnes, com a evocação do vulto esbelto, elegante, altaneiro, a vida inteira assombrada pela convivência íntima com o enigma, com a ausência gigantesca que entretanto misteriosamente ainda é capaz de lhe indicar caminhos?

sábado, 1 de agosto de 2009

Sempre Adélia


Excelente escritora — poeta e contista —, Adélia Prado também desenvolve toda uma reflexão sobre o seu ofício e sobre a natureza da literatura. Abaixo, três pequenos trechos de uma entrevista dela ao repórter Julián Fuks (Folha de São Paulo, 14-11-2005), que me encantaram:


Origem e pertencimento:
"Eu passo a minha vida inteira clamando pela minha origem, para saber a quem pertenço, quem cuida de mim, quem responde por mim, quem me acode, quem me socorre. Quem tem piedade de mim.”

Religião e poesia:
“Os místicos só se expressam em paradoxos, só falam através de metáforas, porque falam do indizível. A poesia é a mesma coisa, e por isso o absurdo da linguagem poética, sua falta de lógica racional, sua obediência única ao estatuto interno da expressão.”

Poesia e biografia:
“A biografia é a linguagem por excelência. Então, na poesia, você está absolutamente salvo de tudo o que uma revelação autobiográfica pode lhe causar.”

terça-feira, 28 de julho de 2009

chuva e não, de Sidney Wanderley


Nascido em 1958 em Alagoas, ele já publicou vários livros de poesia, é poeta lido e respeitado entre poetas. Acaba de publicar novo volume — recém-saído do forno, ainda não oficialmente lançado —, o lindo, comovente chuva e não (Maceió: Edições Catavento, 2009), que, segundo o próprio Sidney, “reúne o que o autor suporta ler de quanto produziu em trinta e três anos de exercício literário”. Exageros à parte — há ótimos poemas do autor deixados de fora —, o volume traz o melhor do muito bom, la crème de la crème, poesia pra se guardar e reler sempre. Dois aperitivos:

Gavetas

Aquela foto sobre a cômoda da tia
fez-me esquecer o que ali eu procurava,
e que jazia (e talvez ainda jaza)
nas gavetas que o tempo desfaria.

— Pois as gavetas que por certo eu perseguia,
repletas de memórias, e de poesia,
era em mim que se fechavam e se abriam.

Chuva e não (II)

Há dias em que chove poesia.
Dias em que pinga.
Dias em que não.

Cautela para os primeiros.
Atenção para os segundos.
Dos últimos, o áspero
aprendizado do silêncio,
a dura ração da recusa.

Alheios a chuva e poesia,
os dias prosseguirão.

* Imagem daqui

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A menina e a boneca

A menina e a boneca brincam hoje aqui.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O mundo absurdo de Rui Manuel Amaral


Outro escritor português que tem me encantado ultimamente é o jovem Rui Manuel Amaral, nascido em 1973 na cidade do Porto. Publicou em 2008 seu primeiro livro, Caravana (Coimbra, Angelus Novus), que eu ainda não consegui adquirir, mas de que já gosto, pelos seus micro-contos absurdos que li na internet. Ele é também poeta, e dos bons.

Reproduzo abaixo um poema de Rui Manuel Amaral, encontrado neste ótimo blog da Amélia Pais, e um dos deliciosos micro-contos do autor, reproduzido deste excelente blog, do José Mário Silva.

Creio que Rui Manuel Amaral ainda é muito pouco conhecido no Brasil. Deliciem-se:

A noite está cheia de olhos.
Os olhos da noite observam os livros.
Os livros têm olhos verdes como certos bichos.
Os olhos da noite são azuis.
Sobre os olhos verdes dos livros
repousam os olhos azuis da noite.
Eu não vejo nada disto,
Apenas suponho.

Rui Manuel Amaral

O bibliotecário

Sempre ao fim da manhã e também ao fim da tarde, o bibliotecário recolhe os livros abandonados em cima das mesas. Aproveita para afagar as lombadas, ajeitar as folhas, limpar as capas, com gestos ternos e profissionais. Depois, e usando de todo o cuidado para não lhes causar algum desgosto ou perturbação, conduz cada livro ao seu exacto lugar. Com veemente paciência, procura então colocar cada volume na posição mais cómoda, alinhando a lombada com as restantes lombadas da mesma estante. As mãos tremem-lhe de tanto zelo.No entanto, e apesar do cuidado com que o bibliotecário se entrega à sua meticulosa tarefa, os livros dedicam-lhe uma profunda inimizade. Conspiram e manobram nas suas costas, desde o primeiro dia.O bibliotecário ouve-os falar e dá conta de tudo. Mas tanto se lhe dá porque ama verdadeiramente os livros. Porque ama-os apaixonadamente com todas as suas forças. Os livros, porém, não se deixam comover por estas demonstrações de afecto. Escarnecem do seu irritante desejo de agradar, lançam ofensas, urdem as piores armadilhas: os livros de história disfarçam-se de livros de botânica, os de medicina escondem-se sob as capas dos de teologia, e assim por diante.Ora, os mais acérrimos inimigos do bibliotecário são os livros de poesia. Já vi livros de poesia enterrarem os dentes, sem cerimónias, nas mãos pequenas do bibliotecário. Mais do que isso: já vi clássicos da poesia puxarem-lhe a língua, cuspirem-lhe na cara, chamarem-lhe falso Judas e lambe-cus. Felizmente, são dos menos solicitados pelos leitores. De facto, apesar dos seus esforços para atraírem as atenções, com as suas capas escandalosamente azuis ou desmesuradamente grandes, raras são as vezes em que saem do lugar. Por isso, o ódio cresce a cada dia que passa. E à noite, colados à sua imensa imobilidade, os livros de poesia sonham com a morte do bibliotecário.
Rui Manuel Amaral
*Imagem daqui

sábado, 11 de julho de 2009

Fernando Morais, poeta português


Uma das alegrias que a blogosfera tem me trazido é a descoberta de excelentes escritores portugueses, principalmente poetas. Quase a cada semana descubro um novo, e me encanto e me comovo e me apaixono e aprendo com seus textos, sem a mínima vontade de largar-lhes os blogs. Outro dia, lendo o excelente Domingo da Mota em Morcegos e Olhimancos (que delícia de nome! E ele tem ainda outros dois blogs), encontrei lá um poema de Fernando Morais que me chamou a atenção. Domingos me pôs em contato com Fernando, que gentilmente me enviou alguns poemas. Transcrevo um deles, que o autor explicou ser bastante recente:

O SERMÃO
Do púlpito saíam sons tremendos
não era fala de gente nem guinchos de bicho
eram ameaças para além da morte
eram chibatadas e roufenhas
quase palavras de castigo
As inocentes vítimas sentadas
murmuravam de cabeça baixa
num templo de fios eléctricos
microfones e sintetizadores…
Às tantas o discurso acabou
e passou a saca das esmolas
toda ufana e contente…
era a única que não estava assustada !

Fernando Morais nasceu em 1935 em Vila Nova de Gaia, cidade situada em frente ao Porto. Tem vários livros publicados, em edições do autor, como Poetas de Rua, O Ano Tenebroso, Viver é Muito Mais e, deste ano, em edição revista e ampliada, A Cidade Ocupada pela Poesia. Fernando Morais lutou contra o salazarismo, sendo por isso preso. Ao longo da vida, tem se posicionado contra as injustiças sociais. Sua poesia apresenta acentuado cunho social.
A foto deste post me foi enviada pelo próprio Fernando. Quando eu quis saber se o barco era dele, explicou-me: “O barco é para turista ver, está ancorado no Rio Douro e eu habito um pouco longe, a 1 kilómetro de distância. O barco chama-se ´rabelo´, é um tipo de embarcação que transportava pipas de vinho através do rio para o interior de Portugal.”

Fernando Morais, com razão, é um entusiasta do seu cantinho no mundo: “Esta região é um sonho poético, uma beleza inexcedível e a viagem de combóio ao longo da margém até à Régua tem a fama de ser a 8ª maravilha do mundo. É aqui que eu sonho com uma vida melhor (para todos os povos).”

domingo, 5 de julho de 2009

Imóvel bem salgado


Acompanhando as dificuldades do meu e-amigo Chorik para encontrar sua nova casa, lembrei-me da história da compra do apartamento onde moro, acontecida há alguns anos.
Meu marido e eu havíamos nos mudado recentemente de Brasília para Maceió, em busca de sol, mar, calor, uma nova etapa de vida. Para experimentar a cidade, alugamos um apartamento. Ótimo, por sinal: no quinto andar, próximo ao mar, linda vista, aluguel em conta, rua calma.
Um ano depois, decididos a nos estabelecer em Maceió, quisemos comprar um apartamento. Parecia fácil: somente no prédio onde morávamos, e de que tanto gostávamos, havia três apartamentos à venda, com possibilidade de mais dois. Era questão de conversar com os vizinhos e... e...
Nada deu certo. A vizinha do oitavo andar, o nosso preferido por ser o mais alto, desistira de vender o imóvel. O pessoal do sétimo andar parece que se envolvera em um escândalo, e tomara um chá de sumiço. O proprietário do terceiro andar queria vender o apartamento, mas sua mulher, não. O dono do lugar onde estávamos queria continuar alugando-o. E por aí foi. Depois de várias tentativas infrutíferas, chegamos à conclusão de que, em nosso prédio, não havia nenhum apartamento disponível para compra.
Começamos a procurar em outros prédios. Quer dizer, começamos, não — eu comecei, já que o marido declarou não ter a menor paciência para isso. Veria apenas os apartamentos que eu selecionasse. Eu procurava, procurava... e voltava para casa desanimada, constatando: “Este nosso apartamento alugado é muito melhor”.
Pensamos em desistir, não comprar coisa nenhuma, continuar exatamente onde estávamos. Mas fomos tragados por mais uma dessas imensas ondas de insegurança que periodicamente assolam o Brasil: Lula ia tomar posse, os boatos fortíssimos, reforçados por comentários diários da imprensa, eram de que a comunidade internacional se oporia energicamente à política econômica do novo governo, que nosso país ia quebrar, que... Confusos, sem entender de negócios, temerosos de vir a perder todas as economias das nossas vidas, decidimos comprar de qualquer forma um imóvel, mesmo pequeno, mesmo um não tão bom, para garantir um lugar seguro onde morar.
Mas estávamos tristes, afinal esse não era o nosso verdadeiro desejo. Queríamos um apartamento iluminado, gostoso de estar, agradável para receber os amigos, parecido com o nosso novo estilo de vida ... e teríamos de nos contentar com algo completamente diferente. Àquela altura, nosso dia-a-dia havia se transformado num inferno. Dezenas de corretores — um dos grupos mais chatos e inconvenientes que existem — nos telefonavam a cada minuto, para oferecer tudo o que não desejávamos.
Aborrecida, desgastada, sem saber o que fazer, resolvi dar um tempo em tudo aquilo: marquei uma massagem. Haviam me dito que a massagista era sensacional, alguém que, além de entender de músculos, nervos e dores do corpo humano, era profundamente espiritualizada, capaz de, ao nos tocar, perceber em nós coisas que não percebíamos, e nos ajudar.
A massagem de Ana era realmente ótima. Deitada sobre lençóis muito limpos, ouvindo música zen, sentindo o aroma delicioso de incensos, massageada por mãos que sabiam fazer relaxar cada músculo tenso do meu corpo, eu já estava começando a dormir, quando ela perguntou, me massageando:
— Como vai a sua vida?
— Hmmmm...
— Não há nada preso em você, algum assunto que não está correndo como deveria?
Pronto. Era o tipo de estímulo perfeito para eu falar do grande assunto da minha existência no momento, meu assuntúnico. Saí do torpor e contei a ela, em detalhes, todos os meus desgostos imobiliários.
Ana ia ouvindo, o rosto sério, concentrada, enquanto me massageava. Ao final, deu seu veredicto:
— Você está com obstrução de energia.
— Ãh?
— Energias negativas – ela explicou -, vindas talvez da inveja, ou de outras coisas, não sei, estão envolvendo você e seu marido, colocando-se entre vocês dois e o apartamento que querem comprar. Posso sentir isso no seu corpo: ele está cheio de nós que não deixam sua energia fluir, vê? – apertou minha perna esquerda, quase me fazendo urrar de dor. — Você tem de tomar providências urgentes.
— Providências urgentes?
— Sim! Vá até o Mercado da Produção, compre sal grosso, faça uma mistura assim assim e ...
Descreveu em minúcias todo o ritual do banho de sal grosso que eu deveria tomar. Na despedida, ainda me disse: — Não se esqueça: concentre-se, o importante é a intenção. Trata-se de um ritual.
Ao chegar em casa, soube que um apartamento menos ruim, no qual havíamos depositado nossas esperanças nos últimos dias, acabara de ser vendido a outra pessoa.
— Rumo ao Mercado da Produção! – exclamei.
Foram precisos três dias de dedicação incansável para convencer o marido a ir comigo até o mercado, do outro lado da cidade, sob chuva intensa, fazer algo em que ele não via sentido algum.
Ao chegarmos lá, nem foi necessário descer do carro, pois logo enxergamos uma senhora carregando pequenos sacos de plástico transparente, cheios de bolinhas de sal. O marido a chamou, e, exagerado como é, comprou quatro saquinhos, de um quilo cada. Já ia arrancando o carro, quando eu lhe disse:
— Este sal aqui está todo sujo, não vê quantas bolotas pretas tem aqui no meio?
Em desespero, ele perguntou: — A massagista disse que o sal tem de ser limpo?
— Não disse, mas claro que tem de ser, ora essa! Onde já se viu fazer ritual com sal sujo?
Ele divisou outra vendedora (nunca pensei que a mercadoria saísse tanto!), chamou-a, comprou mais seis quilos de sal, colocou tudo em meu colo e, impaciente, perguntou: — Satisfeita? Podemos ir, finalmente?
Quando entramos em nossa garagem, atrás de nós entrou outro carro, que estacionou na vaga bem ao lado da nossa. Era a proprietária do apartamento do oitavo andar, o tal que nós havíamos cobiçado tanto, e que desistira de vendê-lo. Suspirando, ajeitei o melhor que pude meus dez saquinhos de sal grosso no colo, e com eles desci, batendo a porta do carro com o corpo.
Toda sorridente, a vizinha do oitavo andar caminhou até nós, dizendo:
— Boa tarde! Então, vocês continuam interessados em comprar meu apartamento? Decidi vendê-lo!
*Imagem daqui

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sístoles e Diástoles

Sístoles e Diástoles

Trago em meu coração
Tristezas e tormentos.
Os sonhos? Afugento-os.
Fujo do que eles são.

Dos matizes da mágica
Dessa contração lida,
Da diástole, a vida,
Traço-a: tímida, trágica,

Involuntariamente,
Envolta nesse invólucro
Feito de verso, ausente.

Enfim, nesse sepulcro,
Enterro-me contente,
Findo o soneto e lucro!

Adriano Nunes

Este é um soneto inédito que gentilmente me enviou o poeta Adriano Nunes, do blog Que faço com o que não faço. Encontrei o Adriano no blog do Antônio Cícero, onde, na parte dos comentários, ele sempre postava os próprios poemas, em geral sonetos, alguns muito bonitos. Visitando seu blog, ali descobri um poeta em expansão, com domínio da técnica, extrema sensibilidade e uma fertilidade poética impressionante — o homem constrói poemas como quem respira —, além de um ser humano afável. Adriano é jovem, mas tem estrada em poesia, pois começou a poetar ainda criança. Promete-nos o primeiro livro, seleção dos melhores poemas, para o final deste ano. Em seu blog há outras poesias dele, além de uma ótima entrevista, dada ao Mariano, do Poeira de Sebo. Nela, entre outras coisas, Adriano Nunes conta que é médico (não sendo acaso, assim, o título do soneto acima), descreve seu processo criativo, e revela ... um heterônimo feminino!
*Imagem: Money, money (2009), do artista David Zink

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Precipício



"Desde o dia em que sua mãe se cansara de gritar no quartinho dos fundos, onde o marido a trancafiava nas madrugadas antes de sair para a roça, desde o dia em que a linda e louca mãe se libertara das grades e ganhara a estrada velha da serra, com metade da cidade gritando atrás — em vão, porque ninguém jamais conseguiu colocar de novo os olhos sobre ela, como um feixe de luz desapareceu para sempre na mata —, desde esse dia, chuvosa madrugada de agosto, o abismo apareceu ao lado da menina Dora. Não sabia se fundo ou o quê, composto de quais matérias, se rochas, dunas, fezes, limbo, fogo, lama, se tudo isso e mais alguma coisa, entumescido de folhas, de bolhas, cavalos marinhos alados, se denso ou rarefeito em mariposas, se gema, sal, luz tardia do universo ou mistérios do mar, vale ou despenhadeiro, sem porquês nem comos, eiras ou beiras, sem nada, nada Dora sabia sobre ele. Abismo apenas, colossal buraco colado ao lado esquerdo do corpo. Bastava uma olhadela a qualquer hora, dia ou noite, para constatar que sim, ele continuava ali, atento, vigilante – um passo em falso, um único passo em falso e a engoliria para sempre."

[Assim começa meu conto “Píncaros precipícios”, parte da obra coletiva Dezamores (S.Paulo, Ed. Escrituras/Sesc SP, 2003). Como minha personagem Dora, há dias em que pressinto um abismo colossal bem aqui ao meu lado. Não sei se me equilibro em suas bordas ou se me atiro dentro dele. Terror e fascinação ao mesmo tempo. Afinal, o que ele significa? O que haverá lá dentro? Liberdade? Dor? Literatura? Autodestruição? Criatividade? Liberdade e dor? Não sei. ]
*Imagem daqui.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Batizado diferente

Meus pais eram ateus e comunistas. Não quiseram, portanto, me batizar.
Meus avós maternos eram profundamente católicos. Se havia alguma coisa com que não podiam concordar era sua neta permanecer pagã.
Numa bela manhã em que, bebê de três meses, fui deixada na casa dos avós, eles não tiveram dúvida: comigo no colo, partiram imediatamente para a igreja de Nazareth, próxima ao local onde moravam. Os dois eram muito conhecidos naquela igreja, frequentavam-na desde que haviam se mudado de Cruz das Almas para Salvador. Não haveria problema algum em ali batizarem a neta, da qual seriam inclusive padrinhos.

Mas as coisas não se passaram exatamente como previam meus avós.
Após receber muito bem o casal, prontificando-se a fazer imediatamente o batizado, o padre começou a anotar os dados:
— Nome da menina?
— Janaína.
— Como? – o padre chegou a dar um pulo para trás, horrorizado. Minha avó repetiu o nome.
— Janaína? Janaína não é um dos nomes de Yemanjá? Virgem Maria, isso é nome de candomblé! Fez o sinal da cruz e anunciou sua firme decisão:
— Não batizo, de jeito nenhum! Onde já se viu dar o batismo a gente de candomblé?
Isso tudo aconteceu muito antes do Concílio Vaticano II, do ecumenismo religioso, da posição tolerante dos católicos em relação às outras religiões. À época, a Igreja Católica considerava-se a dona única da religião, não querendo saber de sincretismos. Sua posição era de confronto com as outras religiões, especialmente as de origem africana.

Assustada, minha avó explicou que meus pais não frequentavam candomblés:
— Não, não. Eles são é intelectuais, o senhor conhece bem Jaci. Ela e o marido gostam dessa coisa de cultura do povo, por isso escolheram esse nome para a menina. É uma homenagem à cultura popular, eles dizem, e... — a pobre avó tentava explicar o que ela não compreendia bem nem aceitava.
— Cultura popular coisa nenhuma, dona Bebé! Onde já se viu escolher para a pobre criança um nome de candomblé? A menina vai levar essa marca para o resto da vida! Não batizo!
Meu avô interferiu seriamente, argumentando sobre o prejuízo maior que a atitude do padre traria à criança – embora inocente do erro dos pais, ela seria impedida de pertencer ao corpo de fiéis da Igreja... O padre, contudo, continuou firme em sua posição.
Após muita controvérsia, o avô — deputado estadual à época, fiel de influência, portanto — resolveu lembrar ao padre o sério prejuízo financeiro, moral e social que sua atitude poderia acarretar à paróquia de Nazareth... Ameaça velada, que o padre compreendeu e à qual se mostrou sensível:
— Então eu batizo. Mas com uma condição: na certidão, o nome tem de ser Janaína Maria!

Assim foi feito. O padre, a contragosto, oficializou seu primeiro sincretismo religioso, meus avós saíram felizes da igreja, e eu tenho esta história pra contar.

Imagem:
Postais Pau Brasilis

quinta-feira, 18 de junho de 2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

Konstantinos Kaváfis


Ele é considerado o mais importante poeta grego da primeira metade do século XX, e um dos maiores do mundo em sua época. Konstantinos Kaváfis (grafa-se também Constantino, Konstantino, Constantinos, Cavafis, Caváfis, Kavafis... Tanto faz, pois o nome é originalmente escrito em alfabeto grego) nasceu e morreu (1863-1933) em Alexandria, Egito, de família grega, originária de Constantinopla. Devido a problemas econômicos, seus pais trocaram Alexandria pela Inglaterra quando Kaváfis era criança, ali vivendo durante sete anos. Este período inglês — reforçado por visita à Grã-Bretanha, quando o poeta era adulto — foi muito importante para Kaváfis, que se tornou grande conhecedor e admirador da literatura inglesa, escrevendo inclusive poemas em inglês (além dos que escreveu em grego, a maioria, e dos poucos em francês).
De volta a Alexandria, viveu tempos de grande dificuldade econômica, até conseguir emprego na Bolsa de Valores, onde trabalhou durante muitos anos. Escreveu poemas desde bem jovem, mas se manteve afastado dos eventos e círculos literários. Publicou seus poemas em revistas literárias ou simplesmente os ofereceu aos amigos. A primeira coletânea de sua poesia foi publicada em 1935, dois anos após sua morte.
Kaváfis esteve várias vezes na Grécia e visitou a França, mas Alexandria foi o centro de sua vida. Homossexual assumido, levou vida discreta, incorporando o tema da homossexualidade à sua poesia. Seus versos unem as tradições helenísticas (pelas quais era apaixonado), que têm mitologia e formas literárias próprias, às preocupações e à linguagem do tempo em que viveu, inclusive com o emprego, pouco usual à época, da linguagem coloquial. Poeta de extraordinária imaginação, Kaváfis tem hoje uma legião de admiradores em todo o mundo. Existem traduções de seus poemas para o português feitas por portugueses e por brasileiros.

O poema a seguir é provavelmente o mais conhecido de Kaváfis. Foi ao lê-lo que me apaixonei pela poesia do autor, daí em diante sempre que posso retornando aos seus versos:

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

(Tradução: José Paulo Paes. Para tradução do mesmo poema por Haroldo de Campos, clique
aqui)

O poema a seguir sempre me comoveu. Não descubro onde está seu apelo, sua magia. Só sei que o releio sempre:

O Sol da Tarde

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

...De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só . . . Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.


(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

Este é outra maravilha, em tradução de José Paulo Paes:

Muros

Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.
E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.

E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.
Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.

Para encerrar, esta obra-prima:

Quando Elas Despertam

Procura guardá-las, Poeta,
por poucas que sejam de guardar,
do teu amar as visões.
Coloca-as no meio ocultas nas tuas frases.

Procura detê-las, Poeta,
quando em tua cabeça elas despertam,
de noite ou na luz crua do meio-dia.

(Tradução: Jorge de Sena)

[Recentemente, Antônio Cícero postou "Quando Despertam", lindo poema de Kaváfis, em seu
blog. Vários leitores acrescentaram lá , nos comentários, outros poemas/traduções do poeta. O Adriano Nunes sugeriu que eu postasse "Muros" aqui. Foi por causa dessas relembranças de Kaváfis que decidi escrever este post.]

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