sábado, 11 de julho de 2009

Fernando Morais, poeta português


Uma das alegrias que a blogosfera tem me trazido é a descoberta de excelentes escritores portugueses, principalmente poetas. Quase a cada semana descubro um novo, e me encanto e me comovo e me apaixono e aprendo com seus textos, sem a mínima vontade de largar-lhes os blogs. Outro dia, lendo o excelente Domingo da Mota em Morcegos e Olhimancos (que delícia de nome! E ele tem ainda outros dois blogs), encontrei lá um poema de Fernando Morais que me chamou a atenção. Domingos me pôs em contato com Fernando, que gentilmente me enviou alguns poemas. Transcrevo um deles, que o autor explicou ser bastante recente:

O SERMÃO
Do púlpito saíam sons tremendos
não era fala de gente nem guinchos de bicho
eram ameaças para além da morte
eram chibatadas e roufenhas
quase palavras de castigo
As inocentes vítimas sentadas
murmuravam de cabeça baixa
num templo de fios eléctricos
microfones e sintetizadores…
Às tantas o discurso acabou
e passou a saca das esmolas
toda ufana e contente…
era a única que não estava assustada !

Fernando Morais nasceu em 1935 em Vila Nova de Gaia, cidade situada em frente ao Porto. Tem vários livros publicados, em edições do autor, como Poetas de Rua, O Ano Tenebroso, Viver é Muito Mais e, deste ano, em edição revista e ampliada, A Cidade Ocupada pela Poesia. Fernando Morais lutou contra o salazarismo, sendo por isso preso. Ao longo da vida, tem se posicionado contra as injustiças sociais. Sua poesia apresenta acentuado cunho social.
A foto deste post me foi enviada pelo próprio Fernando. Quando eu quis saber se o barco era dele, explicou-me: “O barco é para turista ver, está ancorado no Rio Douro e eu habito um pouco longe, a 1 kilómetro de distância. O barco chama-se ´rabelo´, é um tipo de embarcação que transportava pipas de vinho através do rio para o interior de Portugal.”

Fernando Morais, com razão, é um entusiasta do seu cantinho no mundo: “Esta região é um sonho poético, uma beleza inexcedível e a viagem de combóio ao longo da margém até à Régua tem a fama de ser a 8ª maravilha do mundo. É aqui que eu sonho com uma vida melhor (para todos os povos).”

domingo, 5 de julho de 2009

Imóvel bem salgado


Acompanhando as dificuldades do meu e-amigo Chorik para encontrar sua nova casa, lembrei-me da história da compra do apartamento onde moro, acontecida há alguns anos.
Meu marido e eu havíamos nos mudado recentemente de Brasília para Maceió, em busca de sol, mar, calor, uma nova etapa de vida. Para experimentar a cidade, alugamos um apartamento. Ótimo, por sinal: no quinto andar, próximo ao mar, linda vista, aluguel em conta, rua calma.
Um ano depois, decididos a nos estabelecer em Maceió, quisemos comprar um apartamento. Parecia fácil: somente no prédio onde morávamos, e de que tanto gostávamos, havia três apartamentos à venda, com possibilidade de mais dois. Era questão de conversar com os vizinhos e... e...
Nada deu certo. A vizinha do oitavo andar, o nosso preferido por ser o mais alto, desistira de vender o imóvel. O pessoal do sétimo andar parece que se envolvera em um escândalo, e tomara um chá de sumiço. O proprietário do terceiro andar queria vender o apartamento, mas sua mulher, não. O dono do lugar onde estávamos queria continuar alugando-o. E por aí foi. Depois de várias tentativas infrutíferas, chegamos à conclusão de que, em nosso prédio, não havia nenhum apartamento disponível para compra.
Começamos a procurar em outros prédios. Quer dizer, começamos, não — eu comecei, já que o marido declarou não ter a menor paciência para isso. Veria apenas os apartamentos que eu selecionasse. Eu procurava, procurava... e voltava para casa desanimada, constatando: “Este nosso apartamento alugado é muito melhor”.
Pensamos em desistir, não comprar coisa nenhuma, continuar exatamente onde estávamos. Mas fomos tragados por mais uma dessas imensas ondas de insegurança que periodicamente assolam o Brasil: Lula ia tomar posse, os boatos fortíssimos, reforçados por comentários diários da imprensa, eram de que a comunidade internacional se oporia energicamente à política econômica do novo governo, que nosso país ia quebrar, que... Confusos, sem entender de negócios, temerosos de vir a perder todas as economias das nossas vidas, decidimos comprar de qualquer forma um imóvel, mesmo pequeno, mesmo um não tão bom, para garantir um lugar seguro onde morar.
Mas estávamos tristes, afinal esse não era o nosso verdadeiro desejo. Queríamos um apartamento iluminado, gostoso de estar, agradável para receber os amigos, parecido com o nosso novo estilo de vida ... e teríamos de nos contentar com algo completamente diferente. Àquela altura, nosso dia-a-dia havia se transformado num inferno. Dezenas de corretores — um dos grupos mais chatos e inconvenientes que existem — nos telefonavam a cada minuto, para oferecer tudo o que não desejávamos.
Aborrecida, desgastada, sem saber o que fazer, resolvi dar um tempo em tudo aquilo: marquei uma massagem. Haviam me dito que a massagista era sensacional, alguém que, além de entender de músculos, nervos e dores do corpo humano, era profundamente espiritualizada, capaz de, ao nos tocar, perceber em nós coisas que não percebíamos, e nos ajudar.
A massagem de Ana era realmente ótima. Deitada sobre lençóis muito limpos, ouvindo música zen, sentindo o aroma delicioso de incensos, massageada por mãos que sabiam fazer relaxar cada músculo tenso do meu corpo, eu já estava começando a dormir, quando ela perguntou, me massageando:
— Como vai a sua vida?
— Hmmmm...
— Não há nada preso em você, algum assunto que não está correndo como deveria?
Pronto. Era o tipo de estímulo perfeito para eu falar do grande assunto da minha existência no momento, meu assuntúnico. Saí do torpor e contei a ela, em detalhes, todos os meus desgostos imobiliários.
Ana ia ouvindo, o rosto sério, concentrada, enquanto me massageava. Ao final, deu seu veredicto:
— Você está com obstrução de energia.
— Ãh?
— Energias negativas – ela explicou -, vindas talvez da inveja, ou de outras coisas, não sei, estão envolvendo você e seu marido, colocando-se entre vocês dois e o apartamento que querem comprar. Posso sentir isso no seu corpo: ele está cheio de nós que não deixam sua energia fluir, vê? – apertou minha perna esquerda, quase me fazendo urrar de dor. — Você tem de tomar providências urgentes.
— Providências urgentes?
— Sim! Vá até o Mercado da Produção, compre sal grosso, faça uma mistura assim assim e ...
Descreveu em minúcias todo o ritual do banho de sal grosso que eu deveria tomar. Na despedida, ainda me disse: — Não se esqueça: concentre-se, o importante é a intenção. Trata-se de um ritual.
Ao chegar em casa, soube que um apartamento menos ruim, no qual havíamos depositado nossas esperanças nos últimos dias, acabara de ser vendido a outra pessoa.
— Rumo ao Mercado da Produção! – exclamei.
Foram precisos três dias de dedicação incansável para convencer o marido a ir comigo até o mercado, do outro lado da cidade, sob chuva intensa, fazer algo em que ele não via sentido algum.
Ao chegarmos lá, nem foi necessário descer do carro, pois logo enxergamos uma senhora carregando pequenos sacos de plástico transparente, cheios de bolinhas de sal. O marido a chamou, e, exagerado como é, comprou quatro saquinhos, de um quilo cada. Já ia arrancando o carro, quando eu lhe disse:
— Este sal aqui está todo sujo, não vê quantas bolotas pretas tem aqui no meio?
Em desespero, ele perguntou: — A massagista disse que o sal tem de ser limpo?
— Não disse, mas claro que tem de ser, ora essa! Onde já se viu fazer ritual com sal sujo?
Ele divisou outra vendedora (nunca pensei que a mercadoria saísse tanto!), chamou-a, comprou mais seis quilos de sal, colocou tudo em meu colo e, impaciente, perguntou: — Satisfeita? Podemos ir, finalmente?
Quando entramos em nossa garagem, atrás de nós entrou outro carro, que estacionou na vaga bem ao lado da nossa. Era a proprietária do apartamento do oitavo andar, o tal que nós havíamos cobiçado tanto, e que desistira de vendê-lo. Suspirando, ajeitei o melhor que pude meus dez saquinhos de sal grosso no colo, e com eles desci, batendo a porta do carro com o corpo.
Toda sorridente, a vizinha do oitavo andar caminhou até nós, dizendo:
— Boa tarde! Então, vocês continuam interessados em comprar meu apartamento? Decidi vendê-lo!
*Imagem daqui

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sístoles e Diástoles

Sístoles e Diástoles

Trago em meu coração
Tristezas e tormentos.
Os sonhos? Afugento-os.
Fujo do que eles são.

Dos matizes da mágica
Dessa contração lida,
Da diástole, a vida,
Traço-a: tímida, trágica,

Involuntariamente,
Envolta nesse invólucro
Feito de verso, ausente.

Enfim, nesse sepulcro,
Enterro-me contente,
Findo o soneto e lucro!

Adriano Nunes

Este é um soneto inédito que gentilmente me enviou o poeta Adriano Nunes, do blog Que faço com o que não faço. Encontrei o Adriano no blog do Antônio Cícero, onde, na parte dos comentários, ele sempre postava os próprios poemas, em geral sonetos, alguns muito bonitos. Visitando seu blog, ali descobri um poeta em expansão, com domínio da técnica, extrema sensibilidade e uma fertilidade poética impressionante — o homem constrói poemas como quem respira —, além de um ser humano afável. Adriano é jovem, mas tem estrada em poesia, pois começou a poetar ainda criança. Promete-nos o primeiro livro, seleção dos melhores poemas, para o final deste ano. Em seu blog há outras poesias dele, além de uma ótima entrevista, dada ao Mariano, do Poeira de Sebo. Nela, entre outras coisas, Adriano Nunes conta que é médico (não sendo acaso, assim, o título do soneto acima), descreve seu processo criativo, e revela ... um heterônimo feminino!
*Imagem: Money, money (2009), do artista David Zink

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Precipício



"Desde o dia em que sua mãe se cansara de gritar no quartinho dos fundos, onde o marido a trancafiava nas madrugadas antes de sair para a roça, desde o dia em que a linda e louca mãe se libertara das grades e ganhara a estrada velha da serra, com metade da cidade gritando atrás — em vão, porque ninguém jamais conseguiu colocar de novo os olhos sobre ela, como um feixe de luz desapareceu para sempre na mata —, desde esse dia, chuvosa madrugada de agosto, o abismo apareceu ao lado da menina Dora. Não sabia se fundo ou o quê, composto de quais matérias, se rochas, dunas, fezes, limbo, fogo, lama, se tudo isso e mais alguma coisa, entumescido de folhas, de bolhas, cavalos marinhos alados, se denso ou rarefeito em mariposas, se gema, sal, luz tardia do universo ou mistérios do mar, vale ou despenhadeiro, sem porquês nem comos, eiras ou beiras, sem nada, nada Dora sabia sobre ele. Abismo apenas, colossal buraco colado ao lado esquerdo do corpo. Bastava uma olhadela a qualquer hora, dia ou noite, para constatar que sim, ele continuava ali, atento, vigilante – um passo em falso, um único passo em falso e a engoliria para sempre."

[Assim começa meu conto “Píncaros precipícios”, parte da obra coletiva Dezamores (S.Paulo, Ed. Escrituras/Sesc SP, 2003). Como minha personagem Dora, há dias em que pressinto um abismo colossal bem aqui ao meu lado. Não sei se me equilibro em suas bordas ou se me atiro dentro dele. Terror e fascinação ao mesmo tempo. Afinal, o que ele significa? O que haverá lá dentro? Liberdade? Dor? Literatura? Autodestruição? Criatividade? Liberdade e dor? Não sei. ]
*Imagem daqui.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Batizado diferente

Meus pais eram ateus e comunistas. Não quiseram, portanto, me batizar.
Meus avós maternos eram profundamente católicos. Se havia alguma coisa com que não podiam concordar era sua neta permanecer pagã.
Numa bela manhã em que, bebê de três meses, fui deixada na casa dos avós, eles não tiveram dúvida: comigo no colo, partiram imediatamente para a igreja de Nazareth, próxima ao local onde moravam. Os dois eram muito conhecidos naquela igreja, frequentavam-na desde que haviam se mudado de Cruz das Almas para Salvador. Não haveria problema algum em ali batizarem a neta, da qual seriam inclusive padrinhos.

Mas as coisas não se passaram exatamente como previam meus avós.
Após receber muito bem o casal, prontificando-se a fazer imediatamente o batizado, o padre começou a anotar os dados:
— Nome da menina?
— Janaína.
— Como? – o padre chegou a dar um pulo para trás, horrorizado. Minha avó repetiu o nome.
— Janaína? Janaína não é um dos nomes de Yemanjá? Virgem Maria, isso é nome de candomblé! Fez o sinal da cruz e anunciou sua firme decisão:
— Não batizo, de jeito nenhum! Onde já se viu dar o batismo a gente de candomblé?
Isso tudo aconteceu muito antes do Concílio Vaticano II, do ecumenismo religioso, da posição tolerante dos católicos em relação às outras religiões. À época, a Igreja Católica considerava-se a dona única da religião, não querendo saber de sincretismos. Sua posição era de confronto com as outras religiões, especialmente as de origem africana.

Assustada, minha avó explicou que meus pais não frequentavam candomblés:
— Não, não. Eles são é intelectuais, o senhor conhece bem Jaci. Ela e o marido gostam dessa coisa de cultura do povo, por isso escolheram esse nome para a menina. É uma homenagem à cultura popular, eles dizem, e... — a pobre avó tentava explicar o que ela não compreendia bem nem aceitava.
— Cultura popular coisa nenhuma, dona Bebé! Onde já se viu escolher para a pobre criança um nome de candomblé? A menina vai levar essa marca para o resto da vida! Não batizo!
Meu avô interferiu seriamente, argumentando sobre o prejuízo maior que a atitude do padre traria à criança – embora inocente do erro dos pais, ela seria impedida de pertencer ao corpo de fiéis da Igreja... O padre, contudo, continuou firme em sua posição.
Após muita controvérsia, o avô — deputado estadual à época, fiel de influência, portanto — resolveu lembrar ao padre o sério prejuízo financeiro, moral e social que sua atitude poderia acarretar à paróquia de Nazareth... Ameaça velada, que o padre compreendeu e à qual se mostrou sensível:
— Então eu batizo. Mas com uma condição: na certidão, o nome tem de ser Janaína Maria!

Assim foi feito. O padre, a contragosto, oficializou seu primeiro sincretismo religioso, meus avós saíram felizes da igreja, e eu tenho esta história pra contar.

Imagem:
Postais Pau Brasilis

quinta-feira, 18 de junho de 2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

Konstantinos Kaváfis


Ele é considerado o mais importante poeta grego da primeira metade do século XX, e um dos maiores do mundo em sua época. Konstantinos Kaváfis (grafa-se também Constantino, Konstantino, Constantinos, Cavafis, Caváfis, Kavafis... Tanto faz, pois o nome é originalmente escrito em alfabeto grego) nasceu e morreu (1863-1933) em Alexandria, Egito, de família grega, originária de Constantinopla. Devido a problemas econômicos, seus pais trocaram Alexandria pela Inglaterra quando Kaváfis era criança, ali vivendo durante sete anos. Este período inglês — reforçado por visita à Grã-Bretanha, quando o poeta era adulto — foi muito importante para Kaváfis, que se tornou grande conhecedor e admirador da literatura inglesa, escrevendo inclusive poemas em inglês (além dos que escreveu em grego, a maioria, e dos poucos em francês).
De volta a Alexandria, viveu tempos de grande dificuldade econômica, até conseguir emprego na Bolsa de Valores, onde trabalhou durante muitos anos. Escreveu poemas desde bem jovem, mas se manteve afastado dos eventos e círculos literários. Publicou seus poemas em revistas literárias ou simplesmente os ofereceu aos amigos. A primeira coletânea de sua poesia foi publicada em 1935, dois anos após sua morte.
Kaváfis esteve várias vezes na Grécia e visitou a França, mas Alexandria foi o centro de sua vida. Homossexual assumido, levou vida discreta, incorporando o tema da homossexualidade à sua poesia. Seus versos unem as tradições helenísticas (pelas quais era apaixonado), que têm mitologia e formas literárias próprias, às preocupações e à linguagem do tempo em que viveu, inclusive com o emprego, pouco usual à época, da linguagem coloquial. Poeta de extraordinária imaginação, Kaváfis tem hoje uma legião de admiradores em todo o mundo. Existem traduções de seus poemas para o português feitas por portugueses e por brasileiros.

O poema a seguir é provavelmente o mais conhecido de Kaváfis. Foi ao lê-lo que me apaixonei pela poesia do autor, daí em diante sempre que posso retornando aos seus versos:

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

(Tradução: José Paulo Paes. Para tradução do mesmo poema por Haroldo de Campos, clique
aqui)

O poema a seguir sempre me comoveu. Não descubro onde está seu apelo, sua magia. Só sei que o releio sempre:

O Sol da Tarde

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

...De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só . . . Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.


(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

Este é outra maravilha, em tradução de José Paulo Paes:

Muros

Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.
E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.

E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.
Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.

Para encerrar, esta obra-prima:

Quando Elas Despertam

Procura guardá-las, Poeta,
por poucas que sejam de guardar,
do teu amar as visões.
Coloca-as no meio ocultas nas tuas frases.

Procura detê-las, Poeta,
quando em tua cabeça elas despertam,
de noite ou na luz crua do meio-dia.

(Tradução: Jorge de Sena)

[Recentemente, Antônio Cícero postou "Quando Despertam", lindo poema de Kaváfis, em seu
blog. Vários leitores acrescentaram lá , nos comentários, outros poemas/traduções do poeta. O Adriano Nunes sugeriu que eu postasse "Muros" aqui. Foi por causa dessas relembranças de Kaváfis que decidi escrever este post.]

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Colo


Têm dias, sabe, em que me sinto completamente sozinha no mundo. Tô fazendo alguma coisa - passeando, por exemplo, ou estudando -, aí me bate uma solidão absoluta, como se ninguém existisse no planeta, apenas eu, perdida entre as altas dunas amarelas de um deserto onde o vento é tão forte que me seca o corpo e carrega para sempre a minha alma. Nesses momentos é ótimo encontrar seus olhos escuros, atentos, atenciosos. Só eles conseguem me trazer de volta a luz e a alegria do mundo.

Às vezes eu me sinto muito fraca diante da vida. Todos são mais bonitos, mais fortes, melhores do que eu. Os meus colegas são mais espertos, as minhas amigas, mais belas, e até Juliana, a irmã caçula, está conseguindo muito mais sucesso do que jamais tive. Sou poeira, cisco que a ventania leva para onde quer e depois deposita junto aos caranguejos da lama. A mais fraca de todos os seres, nem consigo carregar meu próprio peso. Ando curvada. Sugada por alguma força misteriosa, minha energia escorre por um ralo enorme que nem sei onde está. Por isso, de noite, me tranco sozinha no quarto. Choro sem ninguém ver, baixinho, cara enterrada no travesseiro. Se no caminho pro meu quarto, porém, eu encontro você, e se você, parecendo que percebe o que vai dentro de mim, ou mesmo sem perceber você me abraça, me beija, me afaga, então vou sentindo renascer a vida, no começo fraca, aos poucos mais intensa, espalhando-se pelo corpo desde o centro, o meu umbigo. Às vezes melhoro tanto que desisto de chorar. Vou ficando por ali mesmo, plugada na sua tomada, mina das minhas energias. Afinal, se você gosta de mim, diabos! eu não posso ser tão fraca e ruim assim.
Lembra da última vez em que tratei você super mal, quando lhe fiz aquela má-criação tamanho gigante? Eu andava nervosa, tudo naquela época estava dando errado pra mim. Até o papagaio da vizinha implicava comigo! Descontei em você, a mais próxima, a primeira que me apareceu pela frente naquela noite, reclamando não me lembro mais do quê. Fui grossa demais. O pior é que nem notei, mergulhada na minha própria vidinha, no meu redemoinho particular, apartada dos sentimentos alheios. Só muitos dias depois percebi o tamanho da minha estupidez, e sabe como? Senti falta do seu riso. Meu astral já estava melhor, o mundo parecia aos poucos voltar aos eixos, mas, se era assim, por que então aquela tristeza, logo na hora do jantar? Vi de relance seu rosto cabisbaixo, olhos desconsolados acompanhando os movimentos da faca na toalha... Na saudade do seu riso, lembrei da minha explosão de dias antes, juntei causa e consequência. O remorso que senti, sei, foi egoísta: “Não posso feri-la de novo”, lembro que pensei, “pois eu não suportaria viver sem o riso dela.”

Só pra terminar: até hoje, do que mais gosto na vida são dos seus colinhos! Tô sabendo - sou grande demais pra colo, nunca sei direito onde colocar esses braços e pernas tão finos que cresceram desmesuradamente, escapando desordenados para todos os lados, sei que dói em você quando pulo em cima... Mesmo assim, repito: eu, a garça pernalta, até hoje adoro o seu colinho! Ele é como um útero, acolhedor e calmo, silencioso, quentinho... Traz paz. Seu colo é bom demais, minha filha!

[ Este texto faz parte de uma série que estou escrevendo para adolescentes]
*Imagem daqui

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Quem somos, mesmo?



Uma conhecida anedota conta que, ao criar o Brasil, Deus caprichou: praias belíssimas, terra fértil, água abundante, paisagens de tirar o fôlego, vegetação esplendorosa, clima ameno... Sentindo-se injustiçados, os outros países logo protestaram junto a Deus, que lhes respondeu:
— Calma, esperem só para ver o povinho que eu vou colocar lá!
A anedota desnuda uma das mais significativas representações da nação brasileira, presente tanto nas idéias, sentimentos e imaginação populares, quanto nas produções e círculos de intelectuais, artistas e profissionais da mídia. O núcleo dessa representação reside na profunda separação entre, de um lado, a “terra boa”, o belo país “abençoado por Deus e bonito por natureza” cantado por Jorge Benjor, de que nós, brasileiros, tanto nos orgulhamos, e, de outro lado, o “povo ruim”, a gente brasileira que não está à altura da beleza e fertilidade do país. A “ruindade” do povo (ou seja, a “ruindade” de cada um de nós), dependendo de quem fala, de quando fala e para quem fala, é explicada pela mistura ou degeneração das raças, pela preguiça, corrupção, presença de degredados, falta de patriotismo, séculos de colonialismo, escravidão, superexploração econômica, herança católica ibérica, malandragem, preconceitos, atraso, etc.
Essa postura inferiorizada costuma vir alternada com efusivas, e igualmente obsessivas, afirmações acerca das maravilhas do país Brasil, não só da sua terra, mas do seu povo, apresentado como cordial, guerreiro, alegre, honesto, amigo, sem preconceito racial, inteligente, musical, obediente, capaz, heróico, patriota, atleta e trabalhador, um povo muito melhor do que qualquer outro existente no planeta. Esse conjunto de idéias afirmativas e orgulhosas, que com freqüência descamba para o nacionalismo exaltado, representa a outra face da mesma moeda.
Os dois tipos de representação, tanto a que nos deprime como a que nos exalta, remontam ao início do período colonial, e vêm de muitas formas se adensando entre nós. Elas nos envolvem a todos em suas teias invisíveis, a ponto de existir hoje, no país, uma obsessão nacional acerca da própria identidade, num grau e intensidade que não acontece nos Estados Unidos nem nos países europeus.
Como um pêndulo, nós nos movimentamos entre a sensação de que, no fundo, há algo de profundamente errado conosco, de que nunca “damos certo” — incapazes que somos de construir a nação que desejamos; e, no pólo oposto, a também persistente sensação de que somos fantásticos, maravilhosos, capazes de estourar a boca de qualquer balão, e por isso exibimos esse imenso e desmedido orgulho de sermos brasileiros.
Nos limites desse pêndulo — que é uma armadilha —, nós vivemos nos perguntando obsessiva, agitada, angustiadamente que país é este, e qual será o nosso destino: um mítico abismo infalivelmente nos ronda, mas um pote de ouro e felicidade também nos espera logo ali, na esquina do futuro. Deslocados, vivemos em busca de nossa identidade.
[Este meu texto saiu publicado na úlima “Revista de História da Biblioteca Nacional”, Ano 4, nº 45, Junho 2009, atualmente nas bancas.]

terça-feira, 2 de junho de 2009

domingo, 31 de maio de 2009

O lobisomem de Iagos


Na cidade de Iagos, interior do Brasil, moram três lobisomens.
O mais velho é meu pai. Está vivo há tanto tempo que não se lembra mais onde nasceu nem quem eram seus pais. De vez em quando, ele é assombrado por visões estranhas, que lhe provocam fortes dores de cabeça e o deixam angustiado. Nessas ocasiões, vislumbra ao longe florestas perdidas no cume de montanhas, altíssimas montanhas nevadas. É um lugar encantado, lugar isolado, onde não existem pessoas, cores nem ruídos. Há apenas silêncio, tempo suspenso no ar. No meio da clareira de pinheiros, à luz da lua, ele vê uma loba lambendo carinhosamente um bebê deitado no chão. Meu pai sente que essas visões de alguma forma se relacionam às suas origens, mas não pode garantir que a loba seja sua mãe, a minha avó.
O pai apareceu em Iagos em meados do século XVIII, quando isto aqui era terra de garimpo e o ouro dos rios enlouquecia a imaginação dos homens. A riqueza era tanta, diziam, que até no papo das perdizes se encontravam grãos de ouro e pedras preciosas. Ávidos de fortunas, confiantes no futuro, mineradores de todas as partes do mundo acorriam para se enfiar neste buraco, de onde muitos nunca mais saíram. Iagos nasceu da ganância, filha dileta da luxúria, como até hoje o velho padre Zezinho gosta de pregar em seus sermões aos domingos, esmagando-nos a todos de culpa, devido a esse pecado original.
Meu pai mudou-se para Iagos porque sempre gostou do garimpo. A agitação e o perigo o fascinam, ele adora o burburinho, o esbanjamento, a violência, a confluência de sonhos, as mulheres desgarradas e aventureiras, as lutas e as loucas histórias dos mineradores. Até hoje, mais de duzentos anos depois, quando o ouro em Iagos se tornou apenas tênue, longínqua, orgulhosa lembrança dos bons tempos que se foram, até hoje ele não consegue resistir. Toda madrugada levanta-se, solitário, saindo a esburacar os bancos de areia dos rios, em busca de gramas de ouro que não mais existem e que ele sabe que não mais existem. Várias vezes o encontrei nessa procura inútil, cabeçorra enfiada na bateia, a separar com cuidado cascalhos que os olhos cansados não conseguem distinguir.
Acho que busca um mundo. Sente saudade da juventude, quer recuperar séculos que se passaram e quase apagaram o passado, revive a nostalgia de um mundo antigo, cujos ecos se encontram nas douradas catedrais, no casario colonial e na conformação irregular dos be¬cos de Iagos, mas se escondem também no ínimo de si mesmo, em sua consciência. Lobisomens são mesmo desse jeito. Sofrem crises monumentais de saudade, pois há mais recordações dentro deles do que possibilidade de memória. Desse conflito brota o sentimento do passado incompleto e irresolvido, provocando as dores de cabeça e a angústia das visões. Nada mais são, essas visões alucinadas, do que lembranças de tempos idos e queridos que a memória não consegue restaurar.
Ainda muito jovem, recém-chegado a Iagos à época da mineração, meu pai apaixonou-se por Dandara, filha caçula de um escravo fugido morador no Quibano, quilombo aqui perto, na Serra das Esmeraldas. Reservado a respeito de intimidades, o pai nunca me deu a ousadia de uma única confidência sobre esse grande amor antigo. Não importa. Sei de tudo por essa lenda de Iagos, até hoje contada pelos velhos cegos às crianças, que a escutam sem respirar, olhinhos brilhantes de prazer:

[Primeiro capítulo do meu romance "Dandara" (S.Paulo, Maltese, 1994, edição esgotada). Estou selecionando partes dele para integrar um livro que ando preparando. ]

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tocando a vida


Não eram lembranças. Não havia nomes, personagens, enredos, histórias, nada que ela pudesse identificar.
Eram lampejos. Raios que irrompiam de repente em sua vida, dentro da escola, no banho, lavando louça, no trabalho, onde estivesse surgiam e sumiam aqueles clarões, estilhaços, sem que ela soubesse que coisas eram.
Aconteceu assim durante anos, desde pequena, vida afora. Como pesadelos se repetiam, tudo muito rápido mas tão intenso e verdadeiro e doloroso que não era possível fazer de conta que não existiam.
Achou que seriam defeitos dos seus olhos estrábicos. Certa vez, deprimida, convenceu-se de que eram alucinações, provas de que, afinal, sempre fora meio maluca. Arritmia, epilepsia, esquizofrenia? Os médicos lhe disseram que não. Se nenhuma das anteriores, o quê, então? Ao longo da vida buscou explicações para aqueles terremotos internos. “São bobagens, de um jeito ou de outro todo mundo sente alguma coisa parecida, não liga não”, um namorado meigo lhe soprou certa vez ao ouvido, acalmando-a com carinhos. Deixou-se convencer, afinal o namorado era ótimo, beijava como ninguém, e ela não podia mesmo ficar presa a uma besteira sem nome, precisava tocar a vida.
Tocou a vida o melhor que pôde. Casamentos, filhos, trabalho, divórcios, falta de grana, mudanças, sonhos feitos, desfeitos, refeitos, tombos, fantasias. Houve época em que, feliz, quase se esqueceu dos lampejos que em centésimos de segundo faziam tudo tremer à volta, destroçando seu mundo.
Os truques da experiência lhe ensinaram a conviver com aqueles sem nome que a atormentavam. Apertava bem os olhos, para não cair segurava com força a primeira coisa sólida ao redor, respirava fundo algumas vezes, e... pronto. Eles se iam, deixando no ar apenas seu rastro passageiro: um risco de fogo, uma centelha ou fenda muito estreita, um arrepio... Causavam também, é verdade, desconforto profundo, persistente sensação de mundo deslocado, de vertigem, de coisas completamente fora de lugar, mas contra isso nada podia fazer, a não ser empurrar tudo para o fundo, bem para o fundo e para dentro, e ir tocando a vida.
Um dia a vida a tocou. Viu-se diante de tantos impasses, becos sem saída, cofres cujos segredos perdera, portas cerradas, fracassos, que decidiu buscar apoio.
Encontrou um grupo, formado por pessoas que, como ela, procuravam ajuda para situações de vida difíceis. Dirigido por profissionais, este grupo, concentrado em uma fazenda por dias, submeteu-se a um trabalho psicológico. Por meio de técnicas variadas, cada um do grupo buscava identificar em si os padrões emocionais e de comportamento que lhe atrapalhavam a vida, para superá-los.
Ela se entregou totalmente à experiência, a cada exercício deixava cair paredes, véus, punhais, armadilhas, espelhos, ataduras, escudos, petardos, a cada dolorosa descoberta deixava entrar ar fresco no porão, raios de lua iluminando o rio, respingos de cachoeira nos cabelos, pelo corpo sensações de prazer, insuspeitas renovações internas, descobrimentos de mundos.
No penúltimo dia, um nervosismo extremo, uma urgência de algo que não sabia o que era. Angustiada, andou de um lado para outro na fazenda inteira sem encontrar lugar, andou tudo de novo mas não descobriu o seu lugar, dor infernal no peito, no corpo inteiro, vontade incontrolável de chorar... E aqueles lampejos, aqueles tremores, aquelas descargas elétricas internas que por falta de nome chamava raios, relâmpagos, terremotos, tudo voltou com força, diversas vezes, uma descarga após a outra, quase sem intervalo.
Desta vez, não quis chorar na frente dos outros nem com os outros. Abandonou o trabalho do grupo, enfiou-se sozinha no quarto, jogou-se na cama, chorou como nunca pensou ter lágrimas. Exausta, adormeceu.
E sonhou.
Ao acordar, seguindo orientação dos psicólogos, imediatamente anotou o sonho. Anotou tudo sem pensar, escrevendo muito rápido para não deixar fugir as imagens. Ao terminar, largou o caderno. Sentiu necessidade de tomar banho.
Cabelos lavados, fresca, sentou-se sozinha na varanda, para ler o próprio sonho. Quase desmaiou. Não teve nenhuma dúvida: aquilo acontecera com ela! Não era apenas um sonho, era uma memória... recuperada! Seu texto:

“Sonho estranho. Uma menina pequena, com 3, 4 anos, brinca numa sala. Brinquedos espalhados pelo chão e sofá. A menina está descalça, só de calcinha. Feliz, entretida com os brinquedos. Tem cabelo cacheado.
Cena 2: a mesma menina, deitada sobre o sofá, de frente para a parede. Deitado atrás dela, encostado nela, um homem. O sonho é da perspectiva da menina. Ela não vê o homem. Ela sente o homem. A menina está um pouco assustada, mas não muito, porque conhece aquele homem.
Cena 3: Na mesma sala anterior, uma conversa maluca entre a mesma menina e seu cérebro adulto. Isto é: o cérebro é o intelecto da menina depois que ela se tornou adulta. Menina e intelecto têm a seguinte conversa:
M – Intelecto, deixe de racionalizar, de se enganar! Quem viveu esta cena não foi você, adulta, fui eu, criança!
I – Então me conte como você viveu — você nunca me contou!
M – Eu sou pequena. Então, o meu coraçãozinho é pequeno. E ele nem fica escondido como o seu, de adulta, não. Na verdade, eu inteirinha sou um coração, um coração que anda, um coração que brinca, aqui, em toda a sala.
I – Ah, é? E o que foi que lhe aconteceu? Conta pra mim!
M – Eu tava brincando toda felizinha na sala, só de calcinha, quando de repente, POU! O meu pai veio com um cacete e... POU! Atirou o cacete em cima de mim, bem na minha cabeça-coração, e eu, puft! Caí desmaiada no chão.
I – Como assim, menininha? Não estou entendendo a cena – sei pai entrou de repente na sala com um cacete?! Como era este cacete?
M – Era grandão, igual ao do Barney e do Fred Flintstone.
I – Sei. Ele estava vestido como?
M – De Barney. Então ele chegou pelas minhas costas, eu não vi, ele chegou por trás e... plaft! Arrumou o cacete com toda força em mim, e eu morri.
I – O que você sentiu, criança?
M – Eu morri.
I – Antes de morrer, o que você sentiu?
M – Doeu, doeu, doeu... e eu morri.”


Chorou muito.
De repente, as coisas começaram a fazer algum sentido para ela. Os dolorosos raios e relâmpagos eram traços, sinais que emitia para si mesma desde um tempo e uma sala muito antigos, vividos na infância. Memória insuportável, que enterrara no lugar mais escondido, remoto, recôndito que pudera encontrar: no mesmo túmulo onde há décadas sepultara a menina morta.
Lembrou-se de uns versos: “Assassinei a criança / Que tinha dentro me mim.” Mas não se lembrou do autor dos versos.

[Este texto integra a blogagem coletiva “Em Defesa da Infância”, proposta pelo blog Diga não à erotização infantil. Dia 18 de maio foi o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, e hoje, 25, é o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas. Vários blogs aproveitaram essas datas para postar imagens, textos e sons sobre esses assuntos infelizmente tão atuais. Desculpo-me por não ter postado o selo da blogagem, mas, retornando de viagem longa e me reorganizando ainda, só reparei nele há pouco.]

terça-feira, 19 de maio de 2009

Cadê ela?


a verdade

A verdade mora
numa casa antiga
de uma rua estreita:

de dia ela chora
de tarde nem liga
de noite se enfeita.

Então, vai à luta:
bebe muito, escuta
bobagens sem fim.

Insiste inda assim
muito seriamente
em dançar do seu jeito,

quase com respeito
por quem a assedia.
Nunca perde o viço

porém esclarece
a quem já comece
a querer namorá-la

que, rainha da sala,
não tem compromisso.

Leandro Konder

[Filósofo, cientista político, professor universitário no Rio de Janeiro, autor de diversos livros, Leandro Konder tem sido um dos melhores pensadores de esquerda no Brasil. Curioso, inquieto, questionador de prontas e fáceis verdades, inclusive as do marxismo de que é adepto, foi também romancista e, de vez em quando, bom poeta, como prova o poema acima. Este poema integra "Memórias de um intelectual comunista" (Editora Civilização Brasileira), sua autobiografia, que terminei de ler hoje, emprestada de meu amigo Geraldo de Majella. Gostei do livro, pela clareza, honestidade, elegância e bom humor com que Leandro Konder apresenta a própria trajetória e, ligada a ela, a de uma determinada geração de intelectuais brasileiros. O livro é uma delícia, comprovando, mais uma vez, que ser intelectual não tem nada a ver com ser chato.]

domingo, 17 de maio de 2009

Miseravelmente derrotada pelo teclado francês!


Amigos, amigas, juro que a minha intenção era ótima: ir registrando aqui no blog, à medida que aconteciam, experiências e impressões da viagem maravilhosa que estava fazendo a Portugal e à França, em abril. Até que comecei bem, postando as primeiras sensações de Lisboa, aquela vertigem de se reconhecer no país do outro. Ao chegar à França, ainda postei um pequeno texto.
Até ser completamente derrotada pelo mais letal inimigo dos interneteiros: o teclado francês (azerty), muito — muuuito — diferente do teclado que usamos. Francês gosta de ser original, eu sei — mas precisava criar um teclado diferente do que o resto do mundo usa? Nos cibercafés, eu teclava “Estou no sanatório de Saint Rémy, onde Van Gogh se internou voluntariamente...”, e aparecia na tela algo como “Erwwg nh swnwyu...”. Demorava tanto tempo para eu corrigir o texto, ou para tentar escrevê-lo corretamente — tempo pago em euros —, que logo desisti. Além disso, não é em todo lugar, como aqui, que havia cibercafés. Eles eram raros no sul da França — pasmem!
Assim que cheguei ao Brasil, tive de me submeter a uma cirurgia, que me imobilizou a mão esquerda. Ainda não tirei os pontos, mas já consigo teclar estas bem traçadas linhas (pois no teclado internacional he he), pra ir matando as saudades de vocês. Prometo recuperar o tempo perdido, não à maneira de Proust, mas à minha mesmo: relendo os textos atuais e antigos dos blogs amigos e postando frequentemente. Beijos!

sábado, 28 de março de 2009

Viajando


Queridos amigos, comecei ontem uma viagem que deve durar até o início de maio. Por enquanto estou na Bahia, para o aniversário de 87 anos de meu querido pai, e para alguns compromissos. Daqui vamos (maridão junto) voar um pouco por esse mundo de meu Deus. Não vou levar o laptop, nem sei se conseguirei acesso frequente à internet. Vou tentar, sim, para registrar algumas impressões de viagem , para fazer contato com vocês - sem os quais não consigo mais viver! - e para não deixar que vocês se esqueçam de mim. Puxa vida, não quero perder vocês, não quero me perder de vocês. Um beijão, um abraço, um até logo.

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