sábado, 29 de novembro de 2008

Amor começa tarde

[Foto daqui]

[Aos meus jovens amigos apressados e aos meus maduros amigos desencantados]

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
[Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia]

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

I am fine

Amigos, leiam por favor este texto.

domingo, 16 de novembro de 2008

Rosalia de Castro


Filha de uma fidalga solteira e de um padre, Rosalia de Castro (Camiño Novo, 1837- Padrón,1885, ambos na Galícia) foi criada pelas tias paternas e depois pela mãe, com quem se mudou para Santiago de Compostela. Aí se educou e se ligou aos movimentos nacionalistas, que reivindicavam a autonomia da Galícia frente à Espanha e o respeito à cultura local. Uniu-se também a socialistas e republicanos. Casada com o intelectual Manuel Murguía, teve filhos e morou em várias cidades espanholas, até fixar-se na sua amada Galícia, onde morreu. Rosalia —pronuncia-se “Rosalía” — de Castro escreveu com sentimento sobre diversos acontecimentos de sua vida, como sua origem, os filhos que morreram, o casamento, a situação da mulher.
Seu livro Cantares gallegos, editado em 1863, época em que o galego já era considerado idioma ágrafo, sem escrita, foi a primeira obra moderna publicada em galego. “Ela foi a primeira a dar nome às nossas coisas”, costumam dizer os galelos, hoje. Vários poemas de Rosalia, baseados em trovas e canções populares, falam da falta de liberdade na Galícia, da submissão a Castela e da emigração forçada dos galegos, devido às dificuldades econômicas. A luta e o lirismo são marcas de sua poesia.


XXVIII

Castellanos de Castilla
Tratade ben ôs galegos:
Cando van, van como rosas.
Cando vên, vên como negros.


Cuando foi, iba sorrindo,
Cuando veu, viña morrendo
A luciña d’os meus ollos,
O amantiño do meu peito. [...]

Foi a Castilla por pan,
E saramagos lle deron;
Déronlle fel por bebida,
Peniñas por alimento.

Déronlle, en fin, canto amargo
Tén á vida no seu seo...
!Castellanos, castellanos!
Tendes corazón de ferro.

!Ay! no meu corazonciño
Xa non pode haber contento,
Qu’ está de dolor ferido,
Qu’ está de loito cuberto.

Morreu aquel qu’eu queria,
E para min n´hai consuelo:
Sólo hai para mim, Castilla,
A mala ley que che teño.

Permita Dios, castellanos,
Castellanos que aborreço,
Qu’antes os gallegos morran
Qu’ ir a pedirvos sustento. [...]

Castellanos de Castilla
Tratade ben ôs galegos:
Cando van, van como rosas.
Cando vên, vên como negros.



I-IV

Cantart’ei, Galicia,
Teus dulces cantares,
Qu’asi mó pediron
Na veira do mare.

Cantart’ei, Galicia,
Na lengua gallega,
Consolo dos males,
Alivio das penas.

Mimosa, soave,
Sentida, queixosa,
Encanta se ríe,
Commove si chora.

Cal ela, ningunha
Tan dulce que cante
Soidades amargas,
Suspiros amantes.

Misterios da tarde,
Murmuxos da noite:
Cantart’ei, Galicia,
Na veira das fontes.

Qu’así mó pediron,
Qu’así mó mandaron,
Que cant’e e que cant’e
Na lengua qu’eu falo. [...]

[Rosalia de Castro. Cantares Gallegos. Santiago de Compostela, Libería Editorial Galí, 1981, quarta edição. Cantos XXVIII e I-IV, pp. 163-166 e 22. ]

Na Idade Média, durante cerca de 700 anos, o idioma galego-português foi língua culta, usada na Galícia e Portugal atuais, assim como em outros reinos da atual Espanha. O rei castelhano Afonso X, o Sábio, por exemplo, escreveu em galego-português. Essa língua foi tão importante que originou a segunda mais volumosa literatura medieval do Ocidente, após a da Occitânia. Entretanto, a partir do século XV, durante o processo de formação da Espanha moderna, várias regiões, inclusive a Galícia, foram submetidas ao reino de Castela. Em consequência, o castelhano tornou-se o idioma oficial da Espanha, proibidos o ensino e a escrita de todos os idiomas regionais (catalão, valenciano, basco, etc.). O galego —evolução do galego-português—, condenado a língua ágrafa, sofreu refluxo, mas, desde a segunda metade do século XIX, graças a movimentos como o de Rosalia de Castro, renasceu. Hoje, é falado, ensinado em escolas e veículo de uma rica literatura. Portugal, que no século XII se tornou independente dos outros reinos ibéricos, continuou a usar livremente o galego-português, que mais tarde evoluiu para o português. O galego e o português continuam línguas muito próximas, como se vê nos poemas.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Eu sou

Hoje tem poeminha aqui.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

As nossas áfricas

(Maracatu final da aula-espetáculo de Ariano Suassuna - de terno branco, no canto do palco. Foto de Luiz Carlos Figueiredo.)

Só pra assistir à abertura já valeu a pena ter ido à Fliporto, a IV Feira Literária de Porto de Galinhas, PE. Consistiu de uma aula-espetáculo do grande escritor Ariano Suassuna, atualmente com 81 anos de idade, que é Secretário de Cultura do Estado. Com inteligência, originalidade, humor imbatível e vitalidade, Ariano conduziu o espetáculo Nau – Sagração nº 2, um passeio musical por diferentes momentos da história brasileira. Foi acompanhado por cinco músicos profissionais, dirigidos pelo maestro Antônio Madureira, e também por cinco bailarinos, dirigidos por Maria Paula Costa Rêgo, estes egressos de regiões pobres do Recife, resgatados por programas sociais. Músicos e bailarinos são hoje funcionários da Secretaria de Cultura, “meus assessores”, como os definiu Ariano; achei isso bacana. Finalizado com um maracatu, o espetáculo foi um deslumbre de beleza, competência e sensibilidade. Penso que, no conjunto, os artistas pernambucanos e os radicados em Pernambuco são os que melhor e mais alto sabem elevar a cultura popular brasileira.
Bom, mas se tratava de uma feira literária, este ano tendo como tema o diálogo entre escritores africanos e latino-americanos. Diferente das bienais do livro, nas feiras literárias todos os participantes, escritores e leitores, ficam por ali, participando dos eventos, papeando, se conhecendo. Assistimos às palestras e passeamos todos por Porto de Galinhas (eleita de novo a melhor praia do Brasil), cuja vila, normalmente encantadora, estava apinhada de gente descobrindo comidinhas, artesanatos e livros.
Achei particularmente interessante assistir às conversas entre os escritores africanos, que, ainda pouco conhecidos por aqui, desta vez compareceram em grande número. Eles e suas histórias se parecem tanto conosco... mas ao mesmo tempo são diferentes, como são diferentes entre si os de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe. Estavam lá desde escritores consagrados, como o angolano Pepetela, Prêmio Camões de 1997, autor, entre outros, de Jaime Bunda – Agente Secreto; até autores ainda jovens mas já reconhecidos, como José Eduardo Agualusa (que tem quatro histórias sendo filmadas,uma delas pela Conspiração Filmes; é autor do excelente O Vendedor de Passados, sobre um sujeito que vendia passados em Angola, isto é, falsas genealogias e falsos feitos – “Já que não se pode mudar o futuro das pessoas, ele mudava o passado”, nos explicou Agualusa); até jovens como o angolano Odjaki, autor de um delicioso livro, que estou terminando de ler, Os da minha rua (Rio, Língua Geral, 2007), sobre a vida de crianças em Luanda.
Gostei também de conhecer uma escritora moçambicana, Paulina Chiziane. Ela mostrou como, no passado, via e lia o mundo através de um véu; mas, decidida certo dia a retirar esse véu, pôde ver, ouvir e recontar as histórias secretas das mulheres de Moçambique, “aquelas que os homens, mesmo quando as conhecem, não entendem”, nos explicou. Foram muitas descobertas na Fliporto. A verdade é que a gente sabe tão pouco sobre a África em geral, sobre a África de fala portuguesa, sobre a literatura em português da África... Vim carregada de livros, para tentar diminuir a minha ignorância.
Entre os brasileiros, também muita diversidade, gente desde o venerável Thiago de Mello até autores jovens, como Bruno Piffardini, que estão surgindo e divulgando seus escritos principalmente nos blogs. Havia também estudiosos de literatura; destaco a palavra sempre inteligente de Cláudio Willer e uma palestra sensacional de Antonio Carlos Secchin, sobre a ausência de paternidade e a adoção de pais substitutos em José de Alencar, Mário de Alencar (filho de José) e Machado de Assis.
Gente, foi bom demais, quis dividir um pouco com vocês.

[Muito obrigada a todos pelos recadinhos deixados nos blogs durante minha ausência. Estou descobrindo que a blogosfera pode ser muito carinhosa. A-do-ro isso!]

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Até breve




Amigos, a partir de quinta, 6 de novembro, até pelo menos domingo à noite, 9 de novembro, estarei ausente daqui. Vou assistir à Fliporto, Feira Literária Internacional de Porto de Galinhas, PE, cujo tema, este ano, me pareceu particularmente interessante: a diáspora africana e o diálogo literário entre África e América Latina. Estarão presentes vários escritores africanos e brasileiros, além de gente que gosta de ler, durante quatro dias reunidos no belo litoral pernambucano. Depois eu conto. Abraços.

sábado, 1 de novembro de 2008

A esperança se chama Barack Obama


Barack Obama será eleito presidente dos Estados Unidos (toc, toc, toc). Trajetória incrível, a deste homem. Em um país partido pelas diferenças raciais, onde brancos e negros dificilmente convivem entre si, ele nasceu no mais distante Estado americano, o Havaí, filho de mãe branca e pai negro, do Quênia. Foi criado pela mãe e avós maternos, naturais do Estado do Kansas, brancos como a neve, num Havaí entupido de asiáticos. Na infância, viveu durante alguns anos também na Indonésia, pois sua mãe se casou de novo, com um indonésio (ele tem uma linda irmã por parte de mãe, Maya, nascida na Indonésia). Tudo isso o deixou confuso, ansioso por entender qual o seu lugar no mundo: meus familiares “não compreendiam que eu precisava de uma raça”, escreveu Obama em sua emocionante autobiografia, chamada em português A Origem dos meus sonhos (Ed. Gente, 2008).

Esta autobiografia foi publicada há muitos anos, antes de Obama sequer pensar em ser político. Quando cursava a pós-graduação em Harvard, ele foi eleito o primeiro afro-americano a dirigir a prestigiosa revista de Direito daquela universidade, chamando a atenção da mídia. Em conseqüência, foi convidado por uma editora para escrever sobre sua experiência racial. Acabou relatando a história da própria vida, com suas múltiplas relações raciais, e o que ela lhe havia ensinado sobre o assunto.

Na onda da eleição presidencial, o livro foi republicado. Nele, Obama refere-se muito ao pai (de quem herdou o nome), ou melhor: à sua busca pelo pai. Obama pai saiu do Havaí quando o filho era pequeno, para se tornar o primeiro africano a cursar pós-graduação em Harvard. Contudo, não retornou ao Havaí, mas ao seu Quênia natal. Obama o viu apenas mais uma vez, em Honolulu. Aquele pai ausente, quase endeusado pela família da mãe, tornou-se o grande enigma da vida do filho. Durante os anos de universidade, cursada na Califórnia, quando o movimento negro se radicalizava nos EUA, Obama gostava de pensar num pai idealizado, símbolo do “verdadeiro africano”, homem puro, bom, orgulhoso de suas origens, espécie de símbolo do qual os afro-americanos descendiam. O pai morreu quando ele terminou a universidade.

Alguns anos depois, ao visitar sua numerosa família no Quênia, Obama descobriu que seu pai já era casado quando encontrou sua mãe, que tivera muitos filhos, antes e depois dele, e que sua atuação pessoal e política no Quênia, longe de ter sido reta e gloriosa, fora irregular e bastante polêmica. Numa aldeia do interior do Quênia, Obama conheceu enfim o lado humano e o sofrimento da vida do pai quando criança, narrados pela avó paterna. Foi ali, junto ao túmulo do pai, enterrado no quintal da avó, que Obama enfim se reconciliou com suas origens e com a figura do pai, finalmente humanizado e amado.

Entre o término da universidade e a pós em Harvard, Obama trabalhou anos como organizador social em Chicago, cidade com alto número de afro-americanos miseráveis e pobres. Contando com poucos recursos, na base da tentativa e erro, desenvolveu um trabalho brilhante junto àquelas comunidades. Daí foi para Harvard, com o intuito de se aprofundar em Direito – essencial para a defesa dos pobres -, e, de volta a Chicago, desenvolveu um trabalho ainda melhor, que incluiu da defesa legal de prisioneiros condenados à pena de morte (livrou mais da metade deles, gente pobre que nunca tivera advogados decentes) até atuação junto a grupos de aidéticos, alcoólatras, drogados e todo tipo de desajustados sociais. Eleito primeiro à Assembléia Legislativa de Illinois, venceu depois a disputa para Senador por este mesmo Estado, contra todas as previsões. Atualmente, é o único senador afro-americano dos EUA. Sua indicação como candidato democrata à Presidência da República também foi surpresa, já que, no início, todos esperavam a vitória da ex primeira dama e experiente política Hillary Clinton.

Obama é um político diferente, que não deve ser analisado pelas mesmas lentes dos outros. Tem ligação visceral com os pobres (não apenas negros), conhece intimamente seus problemas, pois lidou a vida inteira com eles, mas, ao mesmo tempo, sua sólida educação permite-lhe, com a ajuda de uma boa equipe, pensar e propor soluções inovadoras para os problemas do seu país e do mundo. Ótimo orador, ótimo organizador – não venceu eleições apenas discursando, mas sobretudo fazendo organização de base, trabalho de formiguinha -, Obama é principalmente um negociador, um homem do diálogo, capaz de costurar acordos entre contrários, como sua história pessoal lhe ensinou a fazer. Não é à toa que, ao vencer Hillary em campanha que rachou seu partido, conseguiu reunificar os democratas. Mostrou também sua capacidade de dialogar, unir e construir durante o dramático episódio do desentendimento com seu pastor, o que gerou a pior crise de sua campanha; quando todos pensavam que Obama sucumbiria, ele se trancou no escritório por dois dias, para sair dali com o mais completo e bem pensado texto sobre as relações raciais nos EUA. Neste texto, entre outras coisas Obama assinalou que em seu país a questão racial não é discutida, sendo mais do que tempo para fazê-lo. “É preciso conversarmos sobre raça”, escreveu. E mostrou como os americanos deviam, e podiam, construir uma nação etnicamente integrada, não dividida.

Na prática política, Obama tem defendido soluções sociais e econômicas inovadoras, como as que inventou em Chicago, tem oferecido mudança, contra a mesmice conservadora. Contrário ao uso indiscriminado de armas no país, desde o início se opôs no Senado à guerra do Iraque, propondo utilizar os milhões economizados na guerra em programas educacionais e sociais dentro dos Estados Unidos. Possui também uma visão internacional dos problemas, ao contrário da maioria dos políticos norte-americanos, arrogantes e auto-centrados.

Os jovens foram os primeiros a compreender a mudança que Obama representa. Incendiados pela esperança, desde o início da campanha representam sua base eleitoral mais sólida. No começo, os afro-americanos dividiram-se entre ele e Hillary (os Clinton haviam feito um trabalho muito bom junto aos negros), mas depois se entusiasmaram com a possibilidade de eleição de um dos seus, e também com a perspectiva, como prega Obama, de, pela primeira vez na história, os EUA superarem rupturas e ressentimentos raciais e promoverem integração e harmonia racial. Pouco a pouco, Obama foi unindo americanos de diversas regiões, idades, etnias, ideologias e segmentos sociais. Fez isso adaptando ao mundo de hoje os chamados “valores americanos”, um conjunto de idéias que perpassa a história dos EUA – ou que os americanos acham que perpassa -, como democracia, propriedade privada, livre iniciativa, valorização do trabalho, respeito às diferenças, etc. Obama aprendeu com a própria experiência, transformando uma vida singular e difícil, vivida na intersecção, na corda bamba entre várias etnias e culturas apartadas, em uma forma solidária e rica de compreender o mundo. É um homem de pensamento próprio.

Sei perfeitamente que, eleito Presidente, fará muito menos do que desejaria ou poderia. O lobby de Washington é fortíssimo, os interesses dos grupos econômicos são muito poderosos, e agora a crise econômica se instalou bem no coração do seu país. Obama decerto terá de ceder, desviando-se de sua rota original em múltiplas concessões, como já o fez algumas vezes durante a campanha. Mesmo assim, será um Presidente infinitamente melhor do que o tacanho, fundamentalista e belicoso Bush, e também melhor do que Mc Cain. Sua eleição não está assegurada. Mas, se acontecer, será uma esperança de melhores tempos para os EUA e o mundo, para você, para mim, para todos nós. Estamos no mesmo barco.

Nossa, me empolguei, escrevi horrores. Aos que chegaram até aqui, meu muito obrigada, e desculpem a extensão do texto.

domingo, 26 de outubro de 2008

Minúsculos assassinatos

(Foto de Alex de Jesus, neste site)

Blogueira recente, eu não conhecia o famoso drops da Fal (http://dropsdafal.blogbrasil.com/). Li há poucos dias uma entrevista da autora no Amálgama, visitei seu blog, comprei pela internet seu último livro (Fal Azevedo. Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. Editora Rocco, 2008), acabei de lê-lo ontem, e o estou comentando hoje aqui.
Não sei o que há de autobiográfico no livro, até que ponto a história da principal personagem, a artista plástica Alma, se cruza com a da autora. Um exame apurado do blog talvez me mostrasse pistas, já que a blogueira escreve bastante sobre suas próprias experiências e sentimentos. Mas, como acho que o livro, para se sustentar literariamente, deve existir independente do blog, não vou lá pesquisar. Assim, não sei o quanto Alma tem de Fal.
Mas sei que Alma tem muito de toda uma geração de mulheres brasileiras, na faixa hoje dos quarenta, quarenta e poucos anos, filhas de pais que na década de 60/70 se tornaram hippies, viveram em comunidade, consumiram drogas, viraram a mesa, como se dizia à época, recusando o mundo que conheciam e propondo outro, tão irreal e confuso quanto bonito e ousado. Quem são essas filhas, que mulheres são essas que nasceram de pais alternativos mas se tornaram adultas na sociedade yuppie dos anos 90, quais as suas dúvidas, emoções, tragédias, realizações, frustrações, quais vidas, enfim, elas levam?
O livro mergulha na história de Alma, é pelo olhar dela que fazemos o percurso, percebemos o mundo. Não há cronologia nem ordem, como na vida a narrativa salta de um tempo a outro, de um estado a outro, de gatos a sapatos, de receitas (algumas ótimas) a choros convulsos, da gentileza de seu Lurdiano à dureza da Mãe, do riso mais frouxo ao IPTU não pago ou ao leite derramado, de e-mails dos amigos à bondade de Eliano, da fanta uva às filosofias e insônias, do litoral ao centro da cidade de São Paulo, passando por galerias, invernos, tevês a cabo, homens brutos, unhas pintadas, porres homéricos, computadores deficientes, mulheres masoquistas, dietas para emagrecer, muitos — muitíssimos — cães e gatos; de omeletes e pijamas de pezinho a meninas ruivas, das pequenas omissões aos persistentes, cotidianos, minúsculos assassinatos que todos nós cometemos e sofremos, vítimas algozes.
Tudo isso envolvido num humor irresistível, o mesmo humor inteligente que Fal exercita em seu blog: “O velório e o enterro de Eliano corriam bem, se é que se pode dizer uma coisa dessas sem ser fulminado por um raio”;”Estou curada do meu vício em revistas que dizem que não sou boa, magra, bronzeada, merecedora de amor, tesuda, simpática, ativa, bonita e boa profissional o suficiente”; “Não é o inverno, a segunda-feira, a falta de grana. Sou eu”,“Seu cachorro ama você para sempre, mesmo que nada, nada, nada tenha salvação e que, em parte a culpa seja sua”; “Ela gostava de mim aos quatro, aos sete, mas Deus sabe que a idade traz discernimento” são amostras colhidas ao acaso de um humor que serve não apenas para divertir, mas principalmente para estranhar, ironizar, criticar, desnudar o mundo louco, perigoso e invertido em que vivemos.
Não fosse esse humor imbatível, eu não teria agüentado ler o livro até o final. Pois Minúsculos assassinatos é uma narrativa sobre perdas, perdas gigantescas, um livro comovente sobre a dor, os limites da dor e a superação da dor, até onde isso é possível. Como avisa a autora: “... caso você não tenha percebido, isso não é um conto de fadas.” Compõe-se de duas narrativas intercaladas, duas vozes de Alma que contam e, às vezes, disputam a mesma história dilacerada, cortante. Os textos são curtos, saem aos trancos, aos soluços, meio desconjuntados, típicos textos de blog que, agrupados em capítulos também curtos (com nomes de comidas) servem muito bem a essa trama contemporânea de rupturas, vai-e-vens, desencontros.
A linguagem é desigual. Flutua entre o coloquial — onde, a meu ver, deveria ficar, pois aí a autora é mestre — e tentativas mal-sucedidas de linguagem mais elaborada, que destoam do restante do texto. Não sei, por exemplo, por que Fal evita o “pra”, usando sempre o “para”, mesmo no mais cotidiano dos diálogos. Imploro à autora: pelo amor de Deus, extirpe “o quão” do seu dicionário! Um ou outro capítulo não atinge o mesmo nível dos outros, como “Pé-de-moleque”.
Mas o ritmo de Minúsculos assassinatos é perfeito, o livro flui bem e nos prende pela jugular. Há capítulos belíssimos, bem escritos, bem pensados, que nos carregam a alma, como “Manteiga Aviação”, sobre o amor da filha por um pai impossível, “Café da manhã” — não vou dizer sobre o quê — e, numa dimensão mais leve, “Catupa”, sobre cães e seres humanos.
Minúsculos assassinatos envolve e emociona. O que eu mais gosto no livro é, face às misérias, desamores, ironias e horrores, sua capacidade de lançar um olhar solidário, cúmplice, caloroso ao mundo de hoje, oferecendo-nos generoso abraço que afaga, perdoa, consola. Há muito tempo não me lembro de chorar tanto ao ler um livro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sosígenes Costa

(Foto encontrada aqui)

[Baianos ligados às letras o conhecem, mas, fora da Bahia, quase ninguém ouviu falar dele. É um grande poeta brasileiro, cuja obra, no ano de seu centenário de nascimento, foi reunida em Poesia completa (Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 2001). Em vida, o baiano Sosígenes Costa (Belmonte, 1901- Rio, 1968) publicou apenas um livro, o primoroso Obra poética (1959). Muitos poetas, como o paulista José Paulo Paes, afirmaram que ler Sosígenes foi fundamental para a construção de suas obras. Eu gosto sobretudo de “Iararana”, longo poema narrativo do início da década de 30, inspirado na mitologia e no folclore, cheio de invenções e surpresas, que o poeta gostava de chamar "história de alma com bichos falantes". É ainda melhor que Cobra Norato, de Raul Bopp. Reservado, muito discreto em sua vida pessoal, Sosígenes Costa viveu na Bahia e depois no Rio de Janeiro, sempre escrevendo poesia, jamais cortejando críticos, muito menos eventos e mídia. Seguem pequeno trecho de “Iararana” e um de seus belos, sofisticados sonetos:]

(...)
“— Esta anta com cabeça de gente não era anta, meu neto.
Aquilo era cavalo com cabeça de gente.

Era cavalo da Oropa com feição de mondrongo.
Veio da Oropa o danado descobrir este rio.
Ele nasceu na Oropa num lugar muito bonito de lá.
Então um bicho com cabelo de cobra
avançou em cima dele
e ele teve que disparar daquela terra
teve que cair n’água
atavessou mar como quê
e foi se esconder na pontinha da Oropa.

E da ponta da Oropa
ele de novo timbum! Dentro dágua
e veio nadando e chegou neste rio.
Foi quando Romãozinho avistou o bicho entrando
e veio dizer à gente daqui, virado em dom Grilo.
A caipora quando viu o bicho na Ipibura
ficou de boca aberta.
Jabuti veio ver e ficou de boca aberta.
Boitatá não sabia o que era: ficou de boca aberta.
Saruê chegou e ficou de boca aberta.
Jundiá, quando soube, danou pro rio do Bu.
E os cachorros do rio se esconderam no mato
e quiseram dar flechada mas a flecha não pegou.


— Não pegou não, meu avô?[...]

O pavão vermelho
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

sábado, 18 de outubro de 2008

Mais tempo do que eu poderia suportar

(Foto de Carmem Freitas)
Escrevo literatura porque acredito no truque. Ficção, pra mim, é mágica. Como diabos conseguiram serrar ao meio a mulher — juro que vi, com estes olhos que a terra há de comer! —, mas ela ressurge à minha frente inteira, reluzente sob holofotes, o maiôzinho escarlate salpicado de miçangas verde escuro? Hein? Como Alice entrou no espelho? E Harry Potter não é também o mais humano dos meninos? Escrevo literatura pra me jogar nesse mundo que embola tudo, tonteia, mundo sem começo, tempo, fim, caos de sangue, espuma e raios que me deixa completamente sem fôlego, aturdida. Encantada.

Mundo que me trouxe pânico, também. Abandonei a literatura. E se a mulher ficar serrada em duas pra sempre? Vai que Alice não volta do espelho, eu, hein! E se essa dor no meu peito de grama aumentar? E se eu nunca mais conseguir regressar a este mundo daqui, que pode ser miserável, violento e chato, mas afinal é onde meus dois pés estão fincados, ou ao menos sei onde está o chão?

Tempo demais longe dela. Tempo demais. Muito mais tempo do que o meu pobre peito de grama podia suportar. Não resisti à falta que a literatura me fazia. Era uma mesmice, um tentar conformar-se com uma dimensão do mundo, sabendo que atrás, acima, abaixo, sobretudo dentro há muitas outras mais. Uma falta, uma raiva, um desaponto, uma saudade que pediam , exigiam, sufocavam, enlouqueciam. Bom, loucura por loucura... melhor a criativa, he he.
Voltei. Recentemente. Agarrada às cordas da borda com toda a força ainda, que o precipício é fundo.
[Uma primeira versão deste texto foi postada aqui]

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ítalo Calvino: A palavra escrita e a não-escrita


[Adoro este texto de Ítalo Calvino, sobre as relações entre o mundo concreto e o mundo escrito. Apresentado como palestra no New York Institute for the Humanities em 1983, foi publicado no The New York Review of Books, no mesmo ano. Calvino inverte os termos em que geralmente a questão é proposta, mostrando como o seu mundo, aquele em que se sente realmente à vontade, é o escrito, não o mundo concreto, o qual estranha. Abaixo, trechos:]

"Pertenço àquela parcela da humanidade — uma minoria em escala planetária, mas, creio, uma maioria neste salão — que passa a maior parte de suas horas úteis num mundo muito especial, um mundo feito de linhas horizontais, onde palavras seguem palavras, uma de cada vez, e cada frase e cada parágrafo ocupa seu lugar estipulado, um mundo talvez muito rico, ainda mais rico que o não-escrito, mas que, de qualquer forma, requer um ajuste especial, a fim de que possamos nos enquadrar nele. Quando passo do mundo escrito a este outro — este que chamamos atualmente de mundo, fundamentado em três dimensões e cinco sentidos, povoado por 4 bilhões de nossos semelhantes —, isso significa para mim repetir a cada vez o momento do meu nascimento, passar de novo por seu trauma, para criar uma realidade inteligível a partir de um conjunto de sensações confusas, para novamente escolher uma estratégia para enfrentar o inesperado sem ser destruído por ele.

Este renascimento, para mim, é marcado todas as vezes por ritos especiais que significam minha entrada numa vida diferente: o rito, por exemplo, de colocar os óculos porque sou míope e não preciso deles para ler, enquanto, para vocês, hipermétropes, o rito seria o oposto, tirar os óculos que usam para ler.
[...]
A essa altura vocês me perguntarão: se você diz que a página escrita é seu verdadeiro mundo, o único em que você se sente à vontade, por que quer deixá-lo, e por que se aventura nesse imenso mundo que não consegue controlar? A resposta é muito simples: para escrever. Porque sou escritor.
[...]
De certo modo, acho que sempre escrevemos sobre algo que não conhecemos, escrevemos para dar ao mundo não-escrito uma oportunidade de expressar-se através de nós. Mas, no momento em que minha atenção vagueia da ordem estabelecida das linhas escritas para a complexidade mutável que nenhuma frase consegue apreender totalmente, chego quase a entender que além das palavras há algo que as palavras poderiam significar.

Os poetas e escritores que admiramos criaram em suas obras um mundo que para nós parece o mais significativo, contrapondo-o a um mundo que também para eles carece de significado e perspectiva. Acreditando que seu gesto não era muito diferente do nosso, levantamos nossos olhos da página para sondar a escuridão."

[O texto completo em português está em: Ferreira, Marieta de Moraes e Janaína Amado. Usos e Abusos da História Oral. Rio: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2000]

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Mário Faustino

(Colagem de Mário Faustino publicada aqui)

[Nascido em Teresina (1930), criado em Belém, morador quando adulto no Rio de Janeiro, Mário Faustino morreu muito jovem, aos 32 anos de idade. Cultíssimo, desde adolescente se interessou por literatura e idiomas, que estudou também nos Estados Unidos, graças a uma bolsa de estudos. No Rio, foi crítico literário do influente Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Cosmopolita, irreverente, polêmico, afinado com poetas norte-americanos como Pound e Williams Carlos Williams, não poupava as “vacas sagradas” da literatura nacional. Defendia e criava poesia experimental, ousada, mas rigorosa. Publicou um único, maravilhoso livro de poemas, onde amor e morte são indissolúveis, O Homem e sua Hora, reeditado pela Companhia das Letras em 2003. Sou apaixonada por Mário Faustino desde muito antes dele se tornar cult. Dois exemplos de sua grande poesia:]

...
gestos de amor fizeram-se
— estrelas brilham —
se desfizeram.

Mãos postas, ovos gigantes postos
(estrelas brilham)
Entre as coxas do caos.
Estrelas brilham.
A gaivota fecunda a rocha
estrela, estrela
esteriliza o mar
um traço a mais no ar
peixe a menos no mar.
Gostos, demoras, fezes se refazem.
Contra as costas do cão
estrelas brilham
fases da lua, brisas
ilhas aventuradas, pescadores
dormentes de aventura.
A terra dura. A terra pemanece,
a terra flui, cortam-se umbigos, pelos
sobrevivem sobre os ossos, sobre carnes
aterradoras...
...


Divisamos assim o adolescente

Divisamos assim o adolescente
A rir, desnudo, em praias impolutas,
Amado por um fauno sem presente
E sem passado, eternas prostitutas
Velavam por seu sono. Assim, pendente
O rosto sobre um ombro, pelas grutas
Do tempo o contemplamos, refulgente
Segredo de uma concha sem volutas.
Infância e madureza o cortejavam,
Velhice vigilante o protegia.
E loucos e ladrões acalentavam
Seu sono suava, até que um deus fendia
O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto
Durasse ainda aquele breve encanto.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Pescador de nuvens


(Foto originalmente postada aqui)
Ananias apoiou o peso da velha carcaça sobre a bengala e se concentrou na lenta, dolorosa descida até a cadeira de lona. O tremor nas pernas atrapalhou, o maldito tronco pendeu para frente e para trás, faltou fôlego e uma dor fina picou a base da coluna, fazendo-o gritar. Largou o corpo, mas calculou mal a distância. Caiu enviesado, a cabeça contra a borda de madeira, o corpo afundado na lona gasta do assento, a mão direita longe da bengala. Fechou os olhos, para se recuperar do esforço extremo de sentar-se e para disfarçar a humilhação por sua velhice, exibida em público, sob a claridade implacável da manhã.

Livrando-se dos chinelos, enfiou os pés com todo o gozo na areia. Lentamente, reabriu os olhos. Diante do mar, o feixe de rugas em que seu rosto se transformara desanuviou-se, o couro das bochechas afastou-se para os lados. Sorriu, iluminando o semblante. O mar! Nada o transportava tão imediatamente à infância quanto o cheiro, a luz, o céu, o sal do mar. Ananias regressou à casa branca da família, no meio da enseada, diante dos barcos de pesca. Pequeno ainda, pulava da cama assim que ouvia – era o único que ouvia – o andar muito leve do pai mal tocando o assoalho. Corria com seus passos miúdos até a porta da casa, recebia na cara o esplendor vermelho do sol e, contra esse sol, admirava a figura esguia do pai afastando-se rumo ao mar. O pai o proibira de misturar-se aos pescadores: Lugar de menino pequeno é dentro de casa, até hoje Ananias podia ouvir, como se ali ao seu lado na praia, a voz severa e pausada, a voz do pai. Da soleira da porta o menino encantava-se com o movimento dos pescadores na areia, a rolagem dos barcos para a água e o balanço sobre as ondas, primeiro as ondas pequenas e mansas, logo as enormes e raivosas, até pescadores e barcos se transformarem em minúsculos pontos tragados pelo horizonte. Da areia subia um vento de conchas que se misturava aos cabelos do menino e o entontecia de prazer. Enquanto isso a mãe, a dos cheiros marinhos, começava a aquecer...

Diante do mar, Ananias continuou refugiado na memória, desde alguns anos seu esconderijo, seu mundo preferido, o mais secreto, o mais amado. No mundo real – o do tempo dos relógios, por onde circulavam a tirana da filha, os netos barulhentos e egoístas e, em parte, também Etelvina, sua mulher – , no mundo real afundava em doenças e dores que lhe devastavam o corpo; perdia-se em meio a controles remotos microondas computadores celulares dvds dvis e outros malditos aparelhos que não sabia nem desejava usar, mas entupiam o apartamento da filha onde morava, atormentando-lhe a existência; no mundo real sentia-se um velho rejeitado, sem tesão audição força memória poder nem visão, arrastando um precioso saco de lembranças que ninguém estava interessado em conhecer.

.....a mãe, a dos cheiros marinhos, aquecia a casa com o calor do seu fogo, aceso no fogão de lenha. No passo miúdo, o pequeno Ananias corria para ela. Abraçava-lhe as pernas, quentes, macias. Sai daí, menino. Tá me atrapalhando, atrás dela o fogo vermelho ardia. A voz chegava suave, o menino insistia, rodeava a mãe, agarrava-lhe a saia, puxava-lhe a saia, pulava sobre os pés descalços, beijava-lhe as pernas. Por fim, ela achava graça: Menino mais tonto, ria balançando a cabeça, a lenha do fogo a estalar atrás. Carregava-o no colo. Ele então, coraçãozinho leve, leve, se agarrava depressa ao pescoço quente, deitava a cabeça no ombro e mergulhava o nariz nos cabelos encaracolados. Deixava-se ficar ali, quieto, narinas abertas, sentindo o cheiro marinho dela... o mesmo que às vezes ainda sente no ar, como agora, transportado pela lufada que faz girar o cata-vento de um menino à sua frente.

À medida que mergulhava na infância, construtor de um novo tempo antigo, Ananias percebia o mundo real vago, longínquo. Afligia-se com isso. Primeiro, algumas palavras recusaram-se a visitá-lo. Surpreendia-se parado no meio da sala, a frase suspensa no ar, incapaz de concluir o pensamento: Então aquele rapaz, o... o..... o.... o...... Muitas vezes Etelvina, sua mulher há mais de cinqüenta anos, ajudava-o, completando o nome esquecido. Mas aqueles lapsos se tornaram tão comuns que os netos até inventaram uma música para a ocasião, uma paródia cantada a plenos pulmões, pés batendo no assoalho e lágrimas pulando dos olhos, de tanto riso. Sinal de enfado com a mão descarnada, a significar um altivo Deixa pra lá!, Ananias retirava-se para o quarto, mortificado. Horas, às vezes dias depois, a palavra fujona voltava-lhe de súbito à memória. Tarde demais, ninguém estava interessado no assunto, que nem ele mesmo sabia mais qual era.

A princípio Etelvina e ele sorriam desses esquecimentos:
_ Minha velha, se prepare, que o seu velho aqui está ficando gagá! Etelvina balançava a cabeça em silenciosa negativa, beijava-o nos cabelos e tudo se esquecia, inclusive o esquecimento.

Depois os rostos do mundo real se esfumaçaram, desmaiados em bruma. De repente alguém saltava do meio do nevoeiro, cumprimentava-o com toda a intimidade, tapinhas nas costas, E aí, Ananias? Firme? Como vai a comadre Etelvina? Ele, parado, atônito, sem a menor idéia de quem se tratava. De nada adiantaram remédios, médicos nem exercícios para avivar a memória. Aos poucos Ananias transformou-se em um sujeito inconveniente, confundindo frases e comportamentos. A filha proibira-o terminantemente de jantar à mesa, quando houvesse convidados. Que me importa? Eu tenho horror a esses seus ricaços!, gritava à filha, bengala em riste, mortalmente ofendido.

O mundo real foi se tornando cada vez mais obscuro. Pior: à falta de identificar rostos, lugares, falas, corpos, gestos, cheiros, fotos, o mundo se tornou irreconhecível. Um lugar sem sentido. Ananias teve plena, embora breve, consciência disso certa madrugada, quando pulou da cama ao ouvir o andar muito leve do pai no assoalho, correu até a soleira da porta e.... ao invés dos pescadores com seus barcos coloridos na areia, um bando de desconhecidos o rodeavam, a gritar e gesticular. Conduzido com muito custo de volta ao quarto, só se deu conta da confusão que causara – quisera sair do apartamento pela janela, para alcançar a praia onde o pai pescava – ao perceber o alarme nos olhos de Etelvina. Os olhos de Etelvina, não os de sua mãe, não os de seu pai, idiota! Os olhos malva de Etelvina, os belos olhos malva de Etelvina pelos quais se apaixonara um dia, e, louco de amor, jurara adorar, alegrar e proteger para sempre, até que a morte os separasse! Esses mesmos olhos da amada, parceira da longa caminhada, observavam-no de muito longe, de algum ponto remoto, assutados, alarmados – reprovadores!

Ananias finalmente compreendeu. Como a árvore de raízes fortes e fundas que sempre fora, Etelvina permanecia arraigada ao mundo real. Já ele, pescador de nuvens, oscilava agora sobre ondas entre dois mundos, cada vez mais distante da terra do presente, cada vez mais próximo do horizonte, barqueiro solitário rumo ao pôr-do-sol, à linha circular em que tudo termina exatamente onde começou, o hoje e o ontem para sempre confundidos.

O coração pesou-lhe. O peito curvou-se, a cabeça também pendeu. Sentado no meio da cama de imbuia escura, a mesma que há mais de meio século era dele e era dela, Ananias chorou como criança. Comovida, Etelvina achegou-se, envolveu-o num abraço demorado, beijou-lhe testa e cabelos brancos. Ananias deixou-se ficar no ombro dela, lágrimas escorrendo e narinas bem abertas, em busca de um certo cheiro marinho.

("Pescador de Nuvens", de Janaína Amado - regras para uso: Creative Commons)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Diálogos (im)possíveis

(Foto: Quilombo onde Dandara nasceu, na Serra da Barriga, vendo-se a árvore sagrada de Onan)

[Os jovens Pedro Lobisomem (P) e Dandara (D) se amam, mas estão há quilômetros de distância um do outro. Uma co­ruja registra o que Pe­dro Lo­bi­so­mem pen­sa, e uma cri­sá­li­da, o que Dan­da­ra ima­gi­na. Re­sul­ta desse imbroglio todo este diá­lo­go estranho, frag­mentado, aqui fiel­men­te re­gis­tra­do:]

P - Já bati tanta perna por esse mundão de Deus, co­nhe­ci tanta mu­lher! Nenhuma, Dandara, como você. Será, amor, que pen­sa em mim?
D - Eufrásia gorda diz que eu não conheço o mundo. Ela tá cer­ta, nun­ca saí daqui...
P - Eu também. Sabe como é o meu amor?
D - Tenho vontade de saber. Como é, meu bem, o mar? Eu nunca vi!
P - Tão grande! Tem dias em que penso: o meu amor é maior que as estrelas...
D - Maior do que a lua?
P - Maior!
D - Maior do que o sol?
P - Ih, maior!
D - Maior do que o céu?
P - Muito maior!
D - Maior do que Oxum?
P - !!
D - Mas o mar não pode ser maior que Iemanjá! No mar tem peixe, tem barco, tem onda...
P - ...nosso amor tem horizonte, gaivota, cotovia...
P - Tem dias, Dandara, em que acordo tris­te, pes­si­mis­ta, pen­san­do: essa nossa separação tem gos­to de sal, ela pode não ter fim. Eu que­ria tan­to, Danda­ra, conhecer o seu quilombo!
D - Pois meu pai veio da África, ele ainda se lembra...
P - Lembra a África?
D - .. lembra que o mar tem gosto de sal e não tem fim.
D - Às vezes, Pedro, eu penso: será o seu amor por mim como é o mar, sem fim?
P - Em Iagos costumam comparar o quilombo ao lobisomem. Di­zem que os dois não se acabam. Nunca morrem, não têm fim.
D - Será o lobisomem que nem o meu amor: sem fim?
P - Que nem o meu amor!

[Do meu romance Dandara. S.Paulo, Ed. Maltese, 1995. Regras de reprodução do texto acima: Creative Commons]

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