segunda-feira, 22 de março de 2010

Não confio mais no sedex


Há dias tento escrever este texto, mas não consigo. Não sei se devido à minha frustração com o assunto, ao fato de eu chorar toda a vez em que penso nele, à minha profunda sensação de impotência... Vou tentar mais uma vez vencer o bloqueio, e escrever.

Aconteceu comigo: enviei por sedex, de Maceió para Salvador, quatro livros originais escritos nas décadas de 1940 e 1950 pela poeta Jacinta Passos, minha mãe: Nossos poemas, Canção da partida, Poemas políticos e A Coluna. Os leitores deste blog sabem que preparo a edição completa da obra dela, acompanhada de biografia e fortuna crítica, a ser publicada em breve pelas editoras da EDUFBA e Corrupio. A certo momento dos trabalhos, foi necessário comparar os poemas originais dos livros com o texto em page maker, pois nessa transposição costumam acontecer mudanças nos espaços entre as estrofes.

Enviei então os livros de minha mãe para a editor Bete Capinan, em Salvador. Havia pressa, e eu não tinha por que me preocupar, pois sempre confiei nos Correios, principalmente no sedex, serviço que cobra caro justamente para entregar as encomendas rápido e em segurança.

Então começou meu pesadelo. Alertada por Bete de que o pacote não chegara, rastreei-o no site dos Correios, encontrando a informação de que havia sido encaminhado para refugo. Por telefone, fui informada de que, para os Correios, “refugo” quer dizer encomenda encaminhada para… destruição! Sem entender nada e apavorada, liguei imediatamente para Bete, pedindo a ela que fosse rápido à agência dos Correios em Salvador, pois os livros poderiam ser destruídos a qualquer momento, sem que nem soubéssemos por quê. Ela não pôde fazer muito: os Correios consideram que, até ser entregue, a correspondência pertence ao remetente, não ao destinatário, e portanto apenas eu, não ela, tinha direito a saber algo. O argumento lógico de que eu me encontrava em outra cidade, e ela, destinatária, igualmente interessada na encomenda, é que estava ali em Salvador, não sensibilizou ninguém. Graças apenas a uma boa conversa pessoal, Bete conseguiu que uma funcionária procurasse e lhe mostrasse a caixa onde eu havia enviado os livros: estava despedaçada e, dentro dela, havia um… relógio!

Nesse meio tempo, eu preenchia no site dos Correios um “pedido de informação”, a única providência que um usuário que se sente lesado pode tomar, acreditem. E deveria aguardar 5 dias úteis pela resposta dos Correios. Essa resposta só chegou muito depois do tempo previsto (os Correios alegaram que mandaram a resposta por e-mail, mas o fato é que não a recebi). Acionar a Ouvidoria do órgão também de nada ajudou, pois não obtive resposta ao meu pleito.

Para encurtar a história, os Correios me informaram que meus preciosos livros – publicados há mais de 50 anos, em edições esgotadíssimas, e que para mim têm um valor sentimental incalculável, pois foram escritos por minha mãe, já morta – foram roubados do caminhão (isto mesmo, caminhão, embora haja voos diários entre as cidades) que os transportava pelos 600 km que separam Maceió de Salvador. Esse serviço de entrega por caminhão – que, fiquei sabendo, é usado em várias partes do Brasil – é terceirizado. O grande argumento dos funcionários dos Correios que comigo conversavam por telefone era: “Mas o roubo não aconteceu nas dependências dos Correios!”, como se a instituição não fosse a responsável pela entrega final do pacote. E ainda comentavam: “Pois é, minha senhora, este país está uma coisa horrível mesmo, cheio de assaltos...”

Enquanto eu estava na agência daqui me informando sobre o assunto (quantas horas, quantos dias perdidos de pura tensão, para nada!), vi um funcionário dos Correios – ou de empresa terceirizada, não sei – recolher o sedex daquele dia da agência: ele, que dirigia uma perua como a da imagem deste texto, estacionou em frente á agência, abriu as portas da perua – deixando à mostra os outros pacotes que lá estavam – e entrou na agência, passando a carregar para a perua, um a um, os pesados sacos contendo as encomendas sedex. Ao terminar, fechou as portas do veículo, retomou o volante e partiu para repetir a mesma tarefa em outra agência. Nem ele nem a carga (muitas com objetos de valor, todo mundo sabe disso) recebiam qualquer proteção.

O que eu posso fazer? Segundo os Correios, levar cópias de vários documentos meus até a agência onde postei o pacote, preencher lá minucioso formulário, e aguardar até que me devolvam o dinheiro que gastei na postagem, acompanhado de cinquenta reais. É, cinquenta reais.

Decidi acionar judicialmente os Correios. Meu interesse não é tanto o valor pecuniário que acho que me devem por não terem cumprido seus serviços (minha perda é incalculável), mas o fato de – descobri ao conversar com diversas pessoas sobre o assunto – os desvios de encomendas sedex serem hoje frequentes. Muita gente, de vários estados, me contou ter passado pelo mesmo problema. Suas perdas foram enormes – desde objetos de valor, como laptops, que por isso mesmo foram enviados por sedex, até perda de inscrição em concurso público, passando pelo extravio de um remédio urgente, destinado a alguém que muito precisava dele.

Pelo que me foi dito, os desvios de cargas do sedex têm sido constantes. Acho que os Correios devem ser responsabilizados por isso, para tomarem uma providência. Acho que todos os prejudicados devem entrar na Justiça, por mais aborrecido e tenso e trabalhoso que isso seja. Pois pode ser a única brecha que nos deixaram para chamar à consciência uma instituição que já foi sinônimo de qualidade no Brasil, e hoje pode deixar de cumprir obrigações, lesando seus usuários, como aconteceu comigo.

Eu não confio mais no sedex.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Sempre valeu a pena


Retorno de uma viagem agradável ao interior de Minas e de São Paulo. Nesses interiores, encontrei por acaso uma antiga aluna, minha orientanda no mestrado e doutorado. Foi uma festa nosso encontro, uma alegria. Ela hoje é professora da UNESP, onde desenvolve bonita carreira, como pesquisadora inclusive. São esses os frutos maiores do ensino, que exerci durante décadas: ajudar a formar gente de qualidade, que ajudará a formar outros, que ajudarão...


O encontro me fez lembrar deste pequeno texto que escrevi em março de 2004, quando me dei conta de que minha última orientanda (Leny Caselli Anzai, profa. da UFMT) defenderia seu doutorado no dia seguinte, na Universidade de Brasília. Seria meu último compromisso universitário, pois eu já me encontrava aposentada. Sentei-me então em frente ao computador e escrevi este pequeno texto nada acadêmico, que no dia seguinte li para uma platéia comovida, durante o intervalo da defesa, e ainda expressa o que sinto:
Sempre valeu a pena


Sempre valeu a pena, desde as escolinhas que montávamos nos saguões dos prédios da nossa infância, onde as crianças mais velhas, como eu, se punham no papel de sádicos professores, e as menores, no de obedientíssimos alunos, obediência garantida graças ao mais antigo dos métodos, a supremacia da nossa força física. Aos nove anos, eu examinava e aprovava os deveres de casa dos meus primeiros alunos: desenhos sobre o que cada um achava a coisa mais bonita do mundo. Em meio a singelas casinhas, figuras de mamães e flores, destacou-se o desenho de uma prima de cinco anos de idade: um homem nu em folha inteira, órgão sexual masculino detalhadíssimo, primeiro plano. O desenho provocou a imediata expulsão de sua autora da escola: "Pouca vergonha, aqui na minha escola, não!", gritei-lhe, dedo em riste, do alto do meu autoritarismo. Este desenho me ensinou a primeira grande lição como professora, aprendida naquela mesma noite, quando, trancada no banheiro, eu examinava cheia de espanto a obra da pequena prima – que, em vez de rasgar, espertamente enfiara no bolso –, e, boquiaberta, pensava: "Puxa vida, minha aluna sabe mais do que eu!”


Daí em diante, foi sempre assim. Aprendi com os sorrisos, a irreverência e a energia deles, à medida que a minha própria energia ia diminuindo, transmutada em ar fresco que me entrava pulmão adentro, a cada manhã renovando a vida. Aprendi com a ignorância, a cultura e a curiosidade deles (como a da caloura que, após a primeira aula da última disciplina de graduação que ensinei, perguntou, olhinhos brilhantes de expectativa: "Então, fessora, nesse seu curso vai ou não vai rolar stress?"). Aprendi, sobretudo com os orientandos da pós: por mais que eu me esforçasse, jamais encontraria "A" fórmula para orientá-los, pois cada um era e é único e ao mesmo tempo múltiplo, transformando-se à medida que seu trabalho de pesquisa amadurecia. Se alguma coisa havia a aprender com aquela troca, era a respeitá-los e aos seus caminhos. Para mim, eles e elas é que sempre valeram a pena.

Nesses últimos 30 anos, mesmo nos piores momentos de uma profissão que no Brasil é difícil, quando me senti sufocada pela burocracia insana, pelas tentativas de vários grupos para assassinar o recém-nascido sistema universitário brasileiro, mesmo nos piores momentos, quando me senti desanimada, desvalorizada ou incompetente, jamais duvidei de que eles e elas, sim, sempre valeram a pena.
*Imagem daqui.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O último dinossauro da Terra

Amigos, hoje tem poema aqui.
PS - Estou viajando para o interior de Minas e São Paulo, retorno daqui a uma semana. Abraços e até lá.

segunda-feira, 1 de março de 2010

José Mindlin: “Eu não faço nada sem alegria”



José Mindlin nos deixou. Absolutamente apaixonado por livros e por tudo o que dissesse respeito a eles, Mindlin, ao longo de 80 anos – desde os 15 de idade, pois faleceu em 28/02/10, aos 95 –, formou sua magnífica, extraordinária biblioteca de mais de 17.000 títulos e 40.000 volumes, entre os quais obras e edições raríssimas no Brasil, principalmente da história e literatura. Lá estão, entre muitos outros, o primeiro livro editado em nosso país, a primeira edição e manuscritos de importantes livros, além de documentos históricos do mais alto valor. A biblioteca sempre foi aberta aos pesquisadores interessados.


Advogado e jornalista na juventude, em 1950 Mindlin fundou a Metal Leve, tornando-se durante décadas um industrial brasileiro de ponta, com todos os desafios que isso significava e significa. Paralelamente a esse trabalho, continuou lendo, formando sua biblioteca ao lado da mulher, Guita, também apaixonada por livros, e participando das diversas instituições e iniciativas ligadas à cultura, como o MASP, a USP, a FAPESP, o CNPq... a lista é imensa. Em 2006, em meio ao reconhecimento geral e às muitas homenagens que recebeu, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Dizia-se leitor, não escritor, mas escreveu dois importantes e deliciosos livros: Uma Vida entre Livros – Reencontros com o tempo e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Em 1998, lançou o CD O Prazer da Poesia, em que reuniu e leu os poemas de que mais gostava. Mindlin realmente acreditou na cultura, por ela trilhou sua vida, por ela travou suas batalhas, esse homem pacífico. O mais importante: fazia tudo isso com entusiasmo, com alegria, doando-se integralmente. Não por acaso no seu ex-libris – vinheta que bibliófilos colam na contracapa de seus livros – , estava escrita esta frase de Montaigne, na ortografia francesa do século XVI: Je ne fay rien sans gayeté, Não faço nada sem alegria.


Tive o prazer e a honra de conhecer José Mindlin. Recebeu-me há alguns anos em sua casa no Brooklin, SP, com a maior gentileza, ao lado de Guita, a companheira querida de décadas (falecida em 2006), que, para ajudar o marido, aprendera a arte da encadernação. O casal foi extremamente amável comigo – não me refiro só a etiqueta, a bons modos, mas àquela amabilidade que sai do coração e nos chega quente, aconchegante, vinda de gente culta mas sem pedantismo algum, gente alegre, informal, sobretudo humana, que aproveitou a experiência da vida e a cultura para tornar-se ainda melhor como gente.


Passei horas extremamente agradáveis com o casal. Mindlin falava muito, sorria, mostrava quadros e livros, trazia à conversa informações e anedotas de uma estonteante variedade de fontes. Guita, mais contida, sorriso leve, no momento certo pronunciava aquela frase que faltava, acrescentava o bom senso em que nenhum de nós dois havia até então pensado. Nessa tarde, visitei a famosa biblioteca (para mim, espécie de templo), situada nos fundos do terreno da residência do casal – bastava alguns passos para que a alcançassem –, aprendi muito e me diverti, perdida de reconhecimento, admiração e carinho pelo casal. Voltei à casa algumas vezes: entre os poetas preferidos de Mindlin estava minha mãe, Jacinta Passos, cujo poema “Cantiga das mães” – um dos favoritos também de Guita - ele incluíra no seu Cd de poesia. Conversamos a respeito do livro que eu organizava, sobre minha mãe. Ele não só deu sugestões como, no ano passado, mesmo recém saído de uma internação de um mês no hospital, o que o enfraquecera muito, escreveu um texto simples e absolutamente pessoal sobre a poesia de Jacinta Passos. Este texto abrirá o livro dela, que sairá publicado este ano. Sou profundamente grata a Mindlin e à sua filha Betty por este gesto, e por tudo o que José e Guita fizeram pela cultura e educação no Brasil. São exemplos.


Como o casal queria que os tesouros de sua biblioteca alcançassem o maior número possível de pessoas, doaram a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin à Universidade de São Paulo, que a está agora digitalizando. A beleza e relevância desse acervo, assim como o ótimo trabalho que está sendo realizado com ele, pode ser conferido neste site.

PS: Sobre o importante assunto tratado no blog anterior - plágio em tradução, e processo da Landmark contra Denise Bottmann -, está circulando na internet um manifesto de apoio à tradutora, assinado por gente de muita expressão na área. Para obter mais informações sobre o assunto e o texto do manifesto, entre aqui.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Derek Walcott: sobre traduções e plágio

No post anterior, apresentei o poeta caribenho Derek Walcott, seu poema "A far cry from Africa" (um dos meus preferidos), e a tradução do poema em português, feita por Thereza Christina Rocque da Motta. Hoje, apresento-lhes uma outra tradução do mesmo poema, realizada por Ricardo Cabús. Minha intenção é tanto homenagear Walcott – um dos mais importantes poetas contemporâneos, ainda pouco conhecido no Brasil –, como homenagear os tradutores (estes seres tão amaldiçoados), chamando a atenção para seu difícil trabalho: pois as possibilidades que cada tradutor tem diante de um texto são múltiplas, quase infinitas, e não é fácil decidir entre elas. Isso se pode comprovar pela simples comparação entre as duas traduções apresentadas, aqui e no post anterior. Ricardo e Thereza buscaram soluções próprias para os desafios que encontraram, ao traduzir o difícil poema de Walcott. Daí provêm as diferenças entre suas traduções. As razões de suas escolhas, eles próprios saberão justificar.

Pois bem: havia eu preparado os dois posts (este, pensei em publicar somente daqui a alguns dias, para os leitores terem tempo de ler o anterior), quando uma notícia me chamou a atenção hoje: a tradutora Denise Bottmann, em seu blog naogostodeplagio.blogspot.com, havia denunciado que as traduções de O Morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, e Persuasão, de Jane Austen, publicadas pela editora Landmark, eram plágios de antigas traduções portuguesas. Para comprovar, Denise apresentou trechos das traduções em Portugal e no Brasil, demonstrando que elas são praticamente idênticas, inclusive nos erros. Pois bem: por denunciar uma farsa, Denise... está sendo processada pelo proprietário da editora, que entrou inclusive com liminar (que o juiz negou), para que o blog fosse preventivamente retirado do ar! Ficam nossos protestos contra todos os tipos de plágio, assim como nossa solidariedade àqueles que têm coragem de denunciar e comprovar os plágios.

Abaixo, o poema de Walcott em tradução de Ricardo Cabús (original do poema no post anterior), a provar que uma tradução jamais é igual a outra, e que suas diferenças não residem em pormenores apenas, mas nas escolhas substanciais dos tradutores, esses recriadores:


Um grito distante da África

Um vento está eriçando a pele morena
Da África, Kikuyu, rápido como moscas,
Deleitando-se na corrente sanguínea da savana.
Cadáveres são espalhados por um paraíso.
Apenas o verme, coronel da carniça, grita:
“Não tenham compaixão com estes mortos isolados!”
As estatísticas justificam e os estudiosos apreendem
As saliências da política colonial.
O que é isso para a criança branca mutilada na cama?
Para selvagens, dispensáveis como judeus?
Esmagados por agressores, os longos ataques irrompem
Em uma nuvem branca de íbis cujos gritos
Ecoam desde o amanhecer das civilizações.
Do rio ressequido ou de planícies repletas de animais
A violência entre as feras é entendida
Como uma lei natural, mas o homem ereto
Busca sua divindade infligindo dor.
Delirantes como estas bestas atormentadas, suas guerras
Dançam ao som agudo de um tambor,
Enquanto ele ainda chama coragem esse medo nativo
Da paz branca conquistada através dos mortos.

De novo, a necessidade estúpida limpa suas mãos
No guardanapo de uma causa suja, de novo
Um desperdício de nossa compaixão, como com a Espanha,
O gorila luta com o super-homem.
Eu que estou envenenado com o sangue de ambos,
Para onde devo seguir, com a veia dividida?
Eu que tenho xingado
O funcionário britânico viciado, como escolher
Entre esta África e a língua inglesa que eu amo?
Trair ambas ou devolver o que elas dão?
Como posso enfrentar tal massacre e ficar bem?
Como posso abdicar da África e viver?


Derek Walcott
(Tradução de Ricardo Cabús, poeta, tradutor e professor brasileiro)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um grito distante da África


Nascido em 1930 no Caribe, na pequena ilha de Santa Lúcia, ex-colônia britânica, Derek Walcott ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1992. É considerado um dos maiores poetas contemporâneos de língua inglesa. De sintaxe e pensamento complexos, articula questões dentro do que se convencionou chamar “literatura pós-colonial”, ou seja, a literatura dos escritores nascidos em ex-colônias, que, hoje, interrogam o futuro e o presente à luz do que a história lhes plasmou. Apaixonei-me pela poesia de Derek Walcott desde que li o poema abaixo; gosto especialmente da segunda estrofe. Desconheço traduções de livros de Derek Walcott no Brasil: já passou da hora de termos sua obra divulgada aqui.

PS: Meu amigo Sidney Wanderley me fez ver que, em 1994, a Companhia das Letras publicou a principal obra de Derek Walcott, Omeros, em tradução de Paulo Vizioli. Obrigada, Sidney, fica o registro aqui. E lá vou eu, correndo, comprar este livro!

Um grito distante da África


Um vento brame o escuro tambor
da África, dos Kikuyu, rápido como moscas,
que vivem nas veias que cortam os campos.
Cadáveres se espalham pelo paraíso.
Apenas o verme, nos restos mortais, exclama:
– Não se compadeçam destes infelizes!
As estatísticas justificam e os especialistas se agarrama
os aspectos da política colonialista.
O que é isto para a criança branca mutilada em sua cama?
Para os selvagens, desprezíveis como os judeus?
Flagelada por batedores, os longos ataques rompem
em brancas nuvens de íbices, cujos gritos
reverberam desde os primórdios das civilizações
do rio seco ou das planícies repletas de animais.
A violência entre animais é vista
como lei natural, mas o homem ereto
busca a divindade infligindo a dor.
Loucos como animais horrendos, suas guerras
dançam ao som abafado dos tambores,
enquanto clama por coragem esse temor nativo
da branca paz contraída pelos mortos.

Novamente a necessidade brutal lava as mãos
no guardanapo de uma causa suja, novamente
desperdiça-se nossa compaixão, como na Espanha,
o gorila se bate com o super-homem.
Envenenado pelo sangue de ambos,
o que me restará, dividido ao meio?
Eu que xinguei
o oficial embriagado pela lei britânica, como escolher
entre esta África e a língua inglesa que amo?
Trair os dois, ou dar a eles o que me dão?
Como encarar essa mortandade e manter-me lúcido?
Como dar as costas à África e viver?

Derek Walcott
(Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, poeta, tradutora e editora brasileira)

A far cry from Africa

A wind is ruffling the tawny pelt
Of Africa, Kikuyu, quick as flies,
Batten upon the blood streams of the veldt.
Corpses are scattered through a paradise.
Only the worm, colonel of carrion, cries:
"Waste no compassion on these separate dead!
"Statistics justify and scholars seize
The salients of colonial policy.
What is that to the white child hacked in bed?
To savages, expendable as Jews?
Threshed out by beaters, the long rushes break
In a white dust of ibises whose cries
Have wheeled since civilizations dawn
From the parched river or beast-teeming plain.
The violence of beast on beast is read
As natural law, but upright man
Seeks his divinity by inflicting pain.
Delirious as these worried beasts, his wars
Dance to the tightened carcass of a drum,
While he calls courage still that native dread
Of the white peace contracted by the dead.

Again brutish necessity wipes its hands
Upon the napkin of a dirty cause, again
A waste of our compassion, as with Spain,
The gorilla wrestles with the superman.
I who am poisoned with the blood of both,
Where shall I turn, divided to the vein?
I who have cursed
The drunken officer of British rule, how choose
Between this Africa and the English tongue I love?
Betray them both, or give back what they give?
How can I face such slaughter and be cool?
How can I turn from Africa and live?

Derek Walcott

*Imagem daqui.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Tempos dionisíacos


Dyonisio

Ungido para o fado e a nova festa
meu carnaval profano já celebra
as quarentenas dívidas da carne Adicionar imagem
na cela de costela das mulheres.

Como devasso réu, confesso fauno,
no vinho das delícias me declaro
sem culpa e sem pecado original
pois nessa pena sou igual a tantos.

Já disse certa vez em cantoria:
de nada me arrependo e reconfirmo
agora que o meu tempo é só de gozo.

A vida que me dou não dá guarida
nem guarda desalentos de tristeza
somente na alegria é que me morro.


Anibal Beça

(Palavra parelha. Edições Galo Branco, 2008, p.189).


[Outro dia, topei com um lindo poema de Anibal Beça no Gira Mundo!. Comentei lá que não conhecia o poeta, mas aquele seu poema havia me encantado. A poeta Nydia Bonetti, em e-mail para mim, reforçou a qualidade de Anibal Beça. Animada, adquiri um livro do poeta, Palavra parelha e outros poemas, nele descobrindo uma poesia (que eu antevira precisa e seca, imaginem) caudalosa, múltipla, lúdica, cuidadosa, inteligente, desigual porém inesgotável, em formas, temáticas, fascínio: poesia amazônica, que me fisgou, poesia-boto encantada, chegada via blogosfera – obrigada às duas e-amigas –, que veio para ficar comigo, em casa, no coração, na imaginação.

Homem de múltiplas atividades, poeta, compositor, jornalista, Anibal Beça nasceu em Manaus (1946), onde também faleceu, no ano passado, aos 63 anos de idade. Deixa obra vasta, em poesia, ensaios, letras de música, crítica e artigos jornalísticos, que merece ser cada vez mais conhecida, divulgada e estudada, e da qual o lindo soneto acima é pequena amostra.]
* Imagem: Baco, de Caravaggio

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy









Para escrever esta história, tenho de sair de onde estou, fazer uma longa viagem por lugares que não conheço, terras onde nunca pisei. Uma viagem de volta, ainda que eu não tenha saído de lugar algum. Não sei se conseguirei realizá-la, se algum dia sairei do meu próprio quarto, mas a urgência existe (p.12).

Ao terminar de ler, muito emocionada, A Chave da Casa, fiquei pensando sobre qual seria o tema principal do livro. O primeiro que me ocorreu foi a dor, depois pensei na viagem e, finalmente, cheguei à herança. O livro é sobre tudo isso, uma travessia encharcada de dor em busca da própria herança: uma neta recebe do avô a chave da casa que ele deixara em Esmirna, ao emigrar da Turquia para o Brasil, e decide buscar em terras estranhas a própria história. O livro é também sobre outras coisas – memória, doença, sexo, afeto, corpo, amor, medo… –, enfim, sobre o que importa na vida. O espantoso é que a autora tinha apenas 28 anos em 2007, quando publicou este primeiro romance, que, pela densidade, parece ter muito mais do que as suas 206 páginas.

A Chave da Casa
ganhou o Premio São Paulo de Literatura de 2008, como melhor livro estreante, e no mesmo ano foi finalista do Jabuti e do Zaffari e Boubon, de forma que muito já foi escrito sobre ele. Minha intenção aqui é modesta: recomendar com entusiasmo a leitura do romance – além da qualidade literária, é também daqueles que a gente não consegue largar, inteiramente rendida a seus mistérios e tramas —, e registrar alguns sentimentos e ideias que tive, à medida que lia.

Tatiana Salem Levy denomina seu livro de “autoficção”, isto é: apesar da narrativa ser em primeira pessoa, não são memórias da autora. É um texto que usa o material da memória de forma criativa, sem muito compromisso com os acontecimentos em si, mas com os significados afetivos dos acontecimentos, e com seu rendimento literário.

Adorei a ideia de “autoficção”. Como o leitor nunca sabe o que “aconteceu de fato” (como se isso existisse) na vida de Tatiana e de sua família, e o que foi inventado ou livremente associado por ela, fica perdido no jogo verdade x mentira. E acaba por desistir dele, mergulhando na narrativa pelo que ela é, uma ficção que atrai, emociona e se sustenta por si mesma, descolada da veracidade dos fatos, apoiada na veracidade dos sentimentos. Tatiana resolve assim a dicotomia entre teoria, história e memória, de um lado, e ficção, do outro, o que para ela deve ter sido em algum momento uma questão importante, já que este romance – pasmem – foi originalmente apresentado como tese de doutorado à PUC do Rio, na área de literatura brasileira contemporânea.

A voz da narradora (que, no romance clássico, representa A voz da autoridade), neste romance é frequentemente desautorizada pela voz da mãe, que a recrimina por ser dramática demais, passando a recontar os mesmos fatos a partir de outros sentimentos e perspectivas. Assim a narradora conta o próprio nascimento:

Nasci no exílio em Portugal, de onde séculos antes a minha família havia sido expulsa por ser judia. […] Nasci fora do meu país, no inverno, num dia frio e cinzento. Duas horas de contração sem poder parar, porque eu não tinha virado e a anestesista não estava lá. Penou, minha mãe, para me ter. E, quando vim ao mundo, ela nem pôde me segurar nos braços, tinham-lhe dado anestesia geral. Pior: quanta acordou, percebeu que lhe tinham feito um corte na vertical. (p.25)

Mas, logo a seguir, entra a voz da mãe:

Lá vem você, narrando sob o prisma da dor. O exílio não é necessariamente sofrido. No nosso caso, não foi. […] Quando você nasceu, não estava frio nem cinzento. Não penei para parir. Não tomei anestesia geral nem tenho cicatriz, você nasceu de parto normal.
(p.26)

Assim, o leitor não apenas não consegue distinguir o que foi fato ou invenção em A Chave da Casa, como fica exposto a diferentes formas de inventar, uma desautorizando (na verdade, complementando) a outra, a diferentes versões para o mesmo fato (concreto ou criado). Isso é que é provocar os leitores...

O livro gira em torno de três eixos: a viagem da narradora à Turquia e Portugal, em busca da própria história; a relação, fortemente sexualizada e com características sadomasoquistas, entre a narradora e um homem; e a doença e morte da mãe da narradora. As três histórias se intercalam, mas seus enredos não são entrelaçados. E no entanto existem muitos laços entre elas, já que foram vivenciadas e contadas pela mesma pessoa, cabendo ao leitor descobrir ou imaginar quais são. Minha imaginação já voou um bocado em torno disso, a começar do corpo purulento da jovem que recebe a chave do avô, passando pelo corpo dominado pelo prazer da mesma jovem, ao corpo que, para não ser vencido pela morte, dialoga com fantasmas. O círculo é infinito, o leitor pode arrumá-lo e desarrumá-lo como desejar.

Meu único reparo ao livro vai para a parte final, quando os conflitos começam a ser “resolvidos”. Tive um pouco a sensação de pressa, como se a autora precisasse encerrar logo as histórias tão bem trabalhadas ao longo do romance. Não gosto da cena da tortura da mãe, que me parece excessiva (foi excessiva também na vida, eu sei), nem da cena do assassinato: as duas me parecem pesar sobre a narrativa, enfraquecendo-a. Mas o fechamento de A Chave da Casa, que li sempre profundamente comovida, à beira do choro ou em lágrimas, volta a ser magnífico.

Como é bom encontrar novos grandes autores na literatura brasileira.

*Imagens: capa do livro e foto da autora.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Borboleta – a passagem


Quando eu viro borboleta fico fininha, fininha, trespassada de luz. Na leveza do meu ser vejo o mundo lá de cima, sinto a brisa deliciosa da primavera roçar as extremidades das minhas asas.

Conheço todas as flores da casa pelo cheiro. Ao nascer do dia, as antenas me levam até o perfume estonteante dos crisântemos; com o sol a pino, sou atraída pelo frescor das folhas de laranjeira, os delicados aromas dos miosótis me seduzem no fim da tarde. Vagabunda dos ares, adoro oferecer-me ao sol que, em troca, vai mudando minhas tonalidades de acordo com sua posição, ao som das músicas do universo que as pessoas não conhecem, mas as borboletas ouvem, sim. Quando viro borboleta sou solta, sou leve, sopro livre de vida do planeta.

Muitas pessoas acham as borboletas superficiais, inconstantes, espécies de dondocas do ar. Nada mais falso. Nós, borboletas, existimos desde tempos imemoriais, nascemos no instante mesmo da criação do universo. E, antes de ser borboleta, fomos lagarta. Como lagarta conheci os sofrimentos dos mundos subterrâneos, compartilhei os gritos dos condenados para sempre à escuridão, ouvi e emiti o murmúrio surdo, ressentido, das entranhas da terra. Arrastei-me aos pés dos outros, comi pó, me alimentei de beiradas de folhas, virei alimento de pássaros. Apesar dos meus esforços para disfarçar-me, como lagarta fui pisoteada, humilhada e morta, a pau, a pedra, a inseticida.


Vivi também a imobilidade e o silêncio da crisálida. Pendurada em algum canto escuro de uma parede esquecida, ou colada a um tronco onde não podiam me distinguir, grávida da beleza vivenciei a doação extrema que é morrer, para dar vida a outro ser. Antes de me extinguir como crisálida, porém, durante aquele período de completo isolamento, tornei-me totalmente translúcida. Limpa das maldades do mundo, pude renascer borboleta.

Nós, borboletas, somos seres depurados. Nos quarenta breves dias de minha vida, recolhi e experimentei todos os tumultos, traições, invejas e culpas espalhados pelos ares e, ao fazer isso, ajudei a purificar o planeta. Respondi aos imensos desafios da minha curta existência modificando-me por inteiro. Por duas vezes transmutei-me em outro alguém, completamente diferente do anterior. Nós, borboletas, somos essência, sumo purificado dos séculos, ar nascido do barro, sofrimento expurgado: delicadeza. Os antigos gregos, que tudo sabiam, descobriram também meu verdadeiro nome: Psyché, a alma, aquela que, liberta do corpo, borboleteia pelos céus descaradamente bela, entre flores e deuses.

Quando eu era bem pequena, me sentia borboleta o tempo inteiro, o vento tocando as pontinhas das minhas antenas, que tremelicavam quando eu mexia a cabeça cheia de cachos. Se alguém entrava na sala e me surpreendia toda colorida batendo as asas, cheirando flores, respirando pelos buraquinhos invisíveis do meu corpo ou brincando com as mariposas enquanto vestia bonecas e afagava bichos de pelúcia, este alguém invariavelmente abanava a cabeça, sorrindo: Criança pequena tem cada uma! Resultado: eu continuava borboleta, e elas, gente.

Com o tempo, percebi que os adultos estranhavam cada vez mais meu comportamento. Olhavam-me sérias, ar preocupado: O que tem essa menina, que não larga das flores? E essa mania agora de dizer que já foi largarta, história mais esquisita! Não tardaram as recriminações, as ordens, os tapas. Surpresa, sofrida, compreendi enfim que eu não era apenas borboleta, era borboleta e menina.

Dupla identidade difícil de gerir, pois os dois mundos, o das borboletas e o dos humanos, não se tocam, jamais se comunicam: opõem-se. Junto à bivó e à Pingá, minha querida cachorrinha, nas horas gostosas do banho, de sonhar acordada, chupar sorvete de manga, receber e dar carinho, andar descalça esparramando os dedos dos pés, nessas horas eu me transformo na mais linda borboleta cor de anil do mundo, salpicada de pintas e estrelas, dona de dois falsos olhos que enlouquecem qualquer ser alado. No restante do tempo, sou gente mesmo.

Sinto que meu tempo de borboleta está terminando. Minhas asas tornam-se cinzentas e nem sempre me obedecem. Meus vôos são agora tortos, desajeitados. Não consigo mais fazer meu corpo respirar inteiro. Definitivamente, perdi aquela capacidade de me soltar pelo mundo em busca do sol, de migrar com as amigas para longe do frio, voar rumo à luz, ao calor, às cores tropicais, àquele lugar mágico onde terra e mar se encontram, e se antevê o paraíso. Aflita, tento economizar ao máximo meu eu-borboleta, mas ele se esvai. Sinto que muito em breve não mais existirá. Por quê? Estou deixando para sempre a infância.

E todo mundo sabe: adulto não voa.


* Imagem daqui.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Num rumorejo alegre, a senhora e a menina



Ibeji*

Num rumorejo alegre
as moças cuidadoras
aveludaram a senhora

arrumaram seus cabelos
escolheram seu vestido
e pintaram suas unhas
cor de rosa.

Foi assim adocicada
que a mulher sentou-se
frente ao bolo perolado
entre firme e desvanecido
em cascatas de açúcar.

As velas pulsando 80
e o batuque vigoroso dos corações
bordeando a mesa
atordoaram a menina.

Os mais atentos viram,
apesar da inexatidão dessa hora,
quando ibeji ventou sorrindo
roubando doces da mesa
e fazendo brotar dos olhos dela
a nascente de um rio.
Martha Galrão

*Ibeji - é uma divindade ioruba, sempre representada por gêmeos, presente nos rituais brasileiros do candomblé; às vezes aparece como crianças. Simboliza os opostos que se complementam, a dualidade que caminha junta.


Conheci os poemas de Martha Galrão no seu blog,
Maria Muadiê. Fiquei cativa dos seus poemas de forte influência afro-baiana, das misturas de temas abstratos com assuntos cotidianos, e das surpresas que sua sensibilidade de mulher nos apronta. “Ibeji” reúne isso tudo, além de me remeter, com ou sem razão — afinal, quem domina as próprias associações? —, ao conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector. Uma amostra da poesia sensível e contemporânea desta poeta baiana.
Imagem daqui.

domingo, 24 de janeiro de 2010

De vaidades e ignorâncias


Ele nasceu quase duzentos anos antes de Cristo, na África, em local próximo a Cartago, na atual Tunísia. Vendido como escravo a um senador romano, foi por este educado, tornando-se um dos grandes autores de teatro do seu tempo, em todo o Império Romano. Publius Terentius Afer (195/185 a.C. – 159 a.C), conhecido em português como Terêncio, escreveu seis peças de teatro – entre elas Andria, Eunuco e Hécira (A sogra) – até hoje representadas, pela graça, vivacidade e ironia dos textos.

Atribuem-se a Terêncio algumas frases ótimas:

Nada do que é humano me é estranho.

O mais próximo de mim sou eu.

Nada é agora dito que não tenha sido dito antes.

Esta última frase – criada, sempre é bom repetir, no século II antes de Cristo –, deveria ser lembrada toda vez que algum escritor ou grupo de escritores alardeasse estar criando algo novo, jamais visto, dito ou escrito. Esse tipo de bazófia – infelizmente muito repetida hoje, pois estamos em plena era da valorização da novidade pela novidade – expressa, em geral, apenas uma coisa: ignorância.

Como escritores, creio que devemos, sim, buscar ser criativos, não nos conformando em imitar o que já está aí feito. Mas sem pensar que somos os primeiros, os originais, os inéditos, os únicos. Nada é agora dito que não tenha sido dito antes. Ou, como expressa o ditado popular: Não há nada de novo sob o sol. Ou ainda, como concluiu no século XVIII o químico francês Antoine de Lavoisier: Na natureza nada se cria, tudo se transforma.
*Imagem daqui.
** A frase destacada de Terêncio até há pouco ilustrava o blog de meu e-amigo Mariano.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Glauco Mattoso


Considero-o um dos maiores poetas da língua portuguesa. É múltiplo e é ótimo em todas as atividades artísticas a que se dedica, da tradução à poesia à arte gráfica, em sua maneira original e abusada de conceber o mundo. O glaucoma transformou Pedro José Ferreira da Silva em Glauco Mattoso, poeta vidente. Indico com entusiasmo seu site oficial, apresentando abaixo dois de seus sonetos magistrais, aperitivos para uma obra vasta e variada, ainda em construção. Poesia refinada, que só se degusta com sabedoria e atenção:
Contrariado
Por ser o cedo tarde e o tarde cedo;
por ser tarde a manhã e a noite dia;
por ser gostosa a dor, triste a alegria;
por serem ódio amor, coragem medo;

Se o plágio é mais invento que arremedo;
se exprime mais virtude o que vicia;
se nada vale tudo que valia;
se todos já conhecem o segredo;

Por ser duplipensar barroco a língua;
por menos ter aquele que mais quer;
se a falta excede e tanto abunda a míngua;

Por nunca estar o nexo onde estiver,
desdigo o que falei e a vida xingo-a
de morte, se a cegueira é luz qualquer.


(Glauco
Mattoso, Poesia digesta)


Natal
Nasci glaucomattoso, não poeta.
Poeta me tornei pela revolta
que contra o mundo a língua suja solta
e a vida como báratro interpreta.
Bastardo como bardo, minha meta
jamais foi ao guru servir de escolta
nem crer que do Messias venha a volta,
mas sim invectivar tudo o que veta.
Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche,
lambendo, por debaixo, os pés do algoz.
Mas não compenso, nem que o gozo esguinche,
masoca, esta cegueira, e meus pornôs
poemas de Bocage são pastiche.

(Glauco Mattoso, As mil e uma línguas)
* Imagem do poeta, trazida daqui

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A menina e o mar


Desde pequenina no mar. Este cheiro de mar que entra dentro dela e a deixa tontinha de alegria, com vontade de rir sem parar. À noite, dorme embalada por ondas. A menina sabe que nasceu no mar. Sua mãe abriu as coxas, eram duas montanhas separadas, as coxas fortes da mãe. Ela, a menina, veio lá de dentro da mãedeslizando, de dentro do buraco da mãe escorregou direto no mar. Nasceu com duas lindas cornucópias enfeitadas de conchas, uma de cada lado da cabeça, e com um rabinho verde-brilhante, rabinho este que logo se despregou do seu corpo, sem dor nenhuma, e ganhou vida própria, virou outro ser, independente.
Nascida enfim, a menina ficou flutuando no mar, entre mariscos tentadores, corolas amarelas – que ela não resistiu e, instintivamente, começou a esfregar com todo o cuidado pelo rosto, embora de forma ainda desajeitada –, tartarugas gigantes, bolhinhas de ar, cardumes de peixes listados de rosa e creme, e também aquelas algas transparentes, algas translúcidas que pela primeira vez lhe apresentaram a luz do sol, o que ela, menina, simplesmente adorou.
Feliz. A depender da sua vontade jamais sairia dali, daquele mar que é o seu elemento, seu ambiente, sua morada natural: aquela leveza molhada em perpétuo movimento. Porém antes que pudesse entender o que acontecia, alguém a arrancou de lá, mãos a puxaram com força – ainda viu de relance as duas montanhas da mãe se fechando para sempre. E ela, a menina, teve de começar outro aprendizado, difícil e lento, o da sobrevivência no novo ambiente. Duro, imóvel, infinitamente mais sem graça: a terra.
Sempre que pode a menina veste seu maiôzinho vermelho, que de tão gasto já está até meio pequeno pra ela e que tem um furo nas costas, segura a mão do primeiro adulto que aparece e se manda pra praia, pra areia. De braços abertos corre para abraçar o mar onde nasceu, e ali mergulha. Radiosa. Não se importa nem um pouco com os empurrões dos meninos chatos que pulam na beira, nem com os trambolhões das ondas gigantes. Ao contrário, ama ser embrulhada pelas águas, feito estrela-do-mar, feito sargaço. Esse é um brinquedo que nunca termina, recomeça a cada onda, maravilha.
Tudo ali conhece e ama, do sal da água ao picolé de fruta ao balde e às forminhas, até as conchas minúsculas que gostam de se enterrar na areia molhada, mas ela, sabida, recolhe todas, para enfeitarem as torres do seu castelo de areia. Nesse castelo mora Capitulina, a princesa-sereia prisioneira, que Floro, o príncipe-tubarão, logo salvará.
Não é assim que acontece, não, diz o adulto ao lado, ao ouvir o relato dela sobre seu nascimento no mar. — Você já está ficando grande. Tem de parar com isso, aprender como a vida é.



A menina enxerga o rosto duro do adulto, parecido com o da sua professora. Põe as mãos em concha sobre a testa, aperta os olhinhos devido à luz intensa do sol, e sorri. Com toda a paciência do mundo, explica mais uma vez o que o adulto não quer, não pode mais aprender:


Mas é assim que eu sinto.

E dispara rumo às ondas do mar onde nasceu, barrada de espuma.


[Na falta de uma foto capaz de expressar a ligação da menina com o mar, fica esta mesmo, a única que tenho sobre o tema. Se eu ainda fosse a menina, saberia colorir este mar...]

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Meu desejo secreto para 2010

É o meu desejo pessoal mais fundo, o mais secreto, agora escancarado: em 2010, quero virar escritora de literatura. Alguns de vocês, porque são gentis e amigos, me dirão que já sou uma, que tenho livros publicados, que me leem, que gostam do que escrevo, etc. Sem modéstia: não escrevo mal, às vezes escrevo bem, resultado de algum talento e de muito exercício, pois passei a vida inteira escrevendo, como estudante ou professora. Sem dúvida é por escrito que melhor me comunico.

Mas, apesar de já ter publicado um romance e três livros para crianças, e de ter escrito alguns contos, além de diversos livros de história do Brasil, eu ainda não me sinto uma escritora de ficção. Onde em mim aquele compromisso interior, aquela chama que faz alguém largar tudo para escrever imaginações, eleger a escrita de ficção sua prioridade absoluta na vida, onde aquela necessidade doida de criar ou morrer, que leva a pessoa a encontrar disciplina e superar faltas? Onde a gana e a garra, onde a fé absoluta na própria arte, no poder transformador da minha escrita? Onde olhar/viver a vida e nela enxergar, a cada minuto, a outra vida, aquela criada pela livre associação de idéias e sensações e pela imaginação do artista?

Procuro isso em mim, e não encontro. Escrevo de forma intermitente, sinto uma preguiça mortal para escrever, não gosto do que escrevo — paro no meio —, me disperso entre várias coisas, não termino meus escritos com vistas à publicação… Cadê a escritora de ficção? Ela não se realiza!

Quando, porém, em alguma madrugada silenciosa, asculto a mim mesma, quando colo o ouvido atentamente sobre meu coração e fico muda, encontro, sim, a escritora. Entro em contato com meu próprio desejo de escrever, minha crença absoluta na imaginação, meu olhar criativo, sensível sobre o mundo, minha alegria em ler, em criar…

A escritora de ficção existe em mim escondida, opaca, embotada, em segundo plano. O quê a impede de desabrochar, exibir-se, realizar-se? Volto ao meu coração, escuto-o de novo, em busca da resposta. Ela vem direta, não deixa dúvida: o medo. Medo do quê? De tantas coisas! De errar, falhar, não corresponder à minha própria e altíssima exigência, ser criticada, enlouquecer… tantas coisas, que me confundem. E por aqui eu paro, pois isto é um blog, não um consultório psicanalítico.

Neste último dia de 2009, porém, de uma coisa eu sei: meu desejo de virar uma escritora de ficção tornou-se avassalador. Tem alguém aqui com imensa vontade de em 2010 escrever histórias imaginadas, de fazer disso o seu compromisso e o seu prazer maiores, o centro da vida nos próximos doze meses. 2010 será, sim, o ano em que libertarei a escritora, para que sem vergonha nem limites nem bom senso corra pelas areias do mundo. É o meu desejo.
[Imagem daqui]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Neste Natal, um conto de Miguel Torga

[Meus amigos: para vocês, nesta época de Festas, envio um abraço caloroso e ofereço este conto de um dos meus escritores preferidos, o português Miguel Torga. Para mim, este pequeno conto exala essências do Natal, como simplicidade, acolhimento, mistério, epifania. Vale a pena entregar-se à sua magia.]

Um Conto de Natal

Miguel Torga

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha demais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.
Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

* Conheci este conto de Torga quando ainda era adolescente, e me encantei com ele. Reencontrei-o recentemente num e-mail enviado por Amélia Pais, a quem agradeço.

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