

José Mindlin nos deixou. Absolutamente apaixonado por livros e por tudo o que dissesse respeito a eles, Mindlin, ao longo de 80 anos – desde os 15 de idade, pois faleceu em 28/02/10, aos 95 –, formou sua magnífica, extraordinária biblioteca de mais de 17.000 títulos e 40.000 volumes, entre os quais obras e edições raríssimas no Brasil, principalmente da história e literatura. Lá estão, entre muitos outros, o primeiro livro editado em nosso país, a primeira edição e manuscritos de importantes livros, além de documentos históricos do mais alto valor. A biblioteca sempre foi aberta aos pesquisadores interessados.
Advogado e jornalista na juventude, em 1950 Mindlin fundou a Metal Leve, tornando-se durante décadas um industrial brasileiro de ponta, com todos os desafios que isso significava e significa. Paralelamente a esse trabalho, continuou lendo, formando sua biblioteca ao lado da mulher, Guita, também apaixonada por livros, e participando das diversas instituições e iniciativas ligadas à cultura, como o MASP, a USP, a FAPESP, o CNPq... a lista é imensa. Em 2006, em meio ao reconhecimento geral e às muitas homenagens que recebeu, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Dizia-se leitor, não escritor, mas escreveu dois importantes e deliciosos livros: Uma Vida entre Livros – Reencontros com o tempo e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Em 1998, lançou o CD O Prazer da Poesia, em que reuniu e leu os poemas de que mais gostava. Mindlin realmente acreditou na cultura, por ela trilhou sua vida, por ela travou suas batalhas, esse homem pacífico. O mais importante: fazia tudo isso com entusiasmo, com alegria, doando-se integralmente. Não por acaso no seu ex-libris – vinheta que bibliófilos colam na contracapa de seus livros – , estava escrita esta frase de Montaigne, na ortografia francesa do século XVI: Je ne fay rien sans gayeté, Não faço nada sem alegria.
Tive o prazer e a honra de conhecer José Mindlin. Recebeu-me há alguns anos em sua casa no Brooklin, SP, com a maior gentileza, ao lado de Guita, a companheira querida de décadas (falecida em 2006), que, para ajudar o marido, aprendera a arte da encadernação. O casal foi extremamente amável comigo – não me refiro só a etiqueta, a bons modos, mas àquela amabilidade que sai do coração e nos chega quente, aconchegante, vinda de gente culta mas sem pedantismo algum, gente alegre, informal, sobretudo humana, que aproveitou a experiência da vida e a cultura para tornar-se ainda melhor como gente.
Passei horas extremamente agradáveis com o casal. Mindlin falava muito, sorria, mostrava quadros e livros, trazia à conversa informações e anedotas de uma estonteante variedade de fontes. Guita, mais contida, sorriso leve, no momento certo pronunciava aquela frase que faltava, acrescentava o bom senso em que nenhum de nós dois havia até então pensado. Nessa tarde, visitei a famosa biblioteca (para mim, espécie de templo), situada nos fundos do terreno da residência do casal – bastava alguns passos para que a alcançassem –, aprendi muito e me diverti, perdida de reconhecimento, admiração e carinho pelo casal. Voltei à casa algumas vezes: entre os poetas preferidos de Mindlin estava minha mãe, Jacinta Passos, cujo poema “Cantiga das mães” – um dos favoritos também de Guita - ele incluíra no seu Cd de poesia. Conversamos a respeito do livro que eu organizava, sobre minha mãe. Ele não só deu sugestões como, no ano passado, mesmo recém saído de uma internação de um mês no hospital, o que o enfraquecera muito, escreveu um texto simples e absolutamente pessoal sobre a poesia de Jacinta Passos. Este texto abrirá o livro dela, que sairá publicado este ano. Sou profundamente grata a Mindlin e à sua filha Betty por este gesto, e por tudo o que José e Guita fizeram pela cultura e educação no Brasil. São exemplos.
Como o casal queria que os tesouros de sua biblioteca alcançassem o maior número possível de pessoas, doaram a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin à Universidade de São Paulo, que a está agora digitalizando. A beleza e relevância desse acervo, assim como o ótimo trabalho que está sendo realizado com ele, pode ser conferido neste site.
PS: Sobre o importante assunto tratado no blog anterior - plágio em tradução, e processo da Landmark contra Denise Bottmann -, está circulando na internet um manifesto de apoio à tradutora, assinado por gente de muita expressão na área. Para obter mais informações sobre o assunto e o texto do manifesto, entre aqui.











