
Adora escutar histórias. Desde pequena, ouvidos bem atentos, corre a casa em busca de um sinal, mesmo leve, de que alguma história está sendo contada ou vai ser contada logo. Uma frase, um sorriso convidativo de um adulto, um "Era uma vez" e a menina já sai correndo toda feliz para junto de quem fala, senta-se no chão, tão atenta que seu peitinho magro nem respira direito, e fica ouvindo, ouvindo, ouvindo… Interrompe, também: No fim ela vai se salvar? Conta outra vez! Mas por que ele fez isso? Conta de novo! Esse Malasartes é sabido mesmo! E a menina cai na gargalhada, uma de suas raras gargalhadas, à mostra o brilho dos dentes miudinhos: encantamento do mundo.
Tem sorte, esta menina, pois na sua família muita gente adora inventar histórias, tem até quem vive de inventar histórias! Família de cabeça nas nuvens. A menina adora: aquele povo todo contando uma história atrás da outra, se divertindo, parece até que disputam quem inventa mais, e ela ali no meio ouvindo, sentada no chão ou deitada de bruços, pernas para cima, pezinhos balançando… pode passar a vida inteira assim, feliz no mundo das histórias.
A esta altura, a tia já está de pé, fazendo-se ora de gavião, ora de coruja, expressando toda a dramaticidade da cena. Em meio a fortes, contraditórias emoções, em prantos a menina abraça a tia — ao fazê-lo, está abraçando todos os grandes contadores de história do mundo. A menina não quer abandonar aquele mundo inventado, pede: Conta mais uma?
Tem sorte, esta menina, pois na sua família muita gente adora inventar histórias, tem até quem vive de inventar histórias! Família de cabeça nas nuvens. A menina adora: aquele povo todo contando uma história atrás da outra, se divertindo, parece até que disputam quem inventa mais, e ela ali no meio ouvindo, sentada no chão ou deitada de bruços, pernas para cima, pezinhos balançando… pode passar a vida inteira assim, feliz no mundo das histórias.
Cada um tem um jeito diferente de contar. Às vezes, se confunde: Verdade ou mentira? O pai diz que ela nasceu de um rabo de bode. Rabo de bode? “É, um rabo de bode destamanhão que encontrei no chão. Achei bonito, levei pra casa, tratei dele… e ele virou você.” O tio se diverte com seu nome: “Sabe que Janaína é a rainha do mar? Tudo o que existe no mar, todas as plantas, todos os barcos, todos os animais obedecem a você." A menina está extasiada com o poder recém descoberto: Tubarão também me obedece? Já as histórias da mãe são povoadas de bichos, sono, colo, princesas, reis africanos, provêm de tempos imemoriais, a tataravó contou pra bisavó que contou pra avó que contou pra mãe dela que agora conta pra ela: “Su su su / neném mandu/ quem dorme na lagoa/ é sapo cururu”.
Mas a grande contadora de histórias da família é sem dúvida a tia. Ao contar uma história ninguém revira os olhos como ela, ninguém faz gestos tão variados — abre os braços, pula no meio da sala, corre pra debaixo da mesa, finge que chora —, ninguém possui tanta noção de ritmo, do momento certo de pausar, apressar, diminuir ou retomar a narrativa, ninguém canta assim no meio de uma história, ninguém como ela conhece as entonações de voz para os diversos personagens e para os momentos mais dramáticos da trama: “E então a princesa que dormia há cem anos abre os olhos, dá umas piscadinhas por causa da luz (pisca os olhos), e… (pausa dramática)… e… e diz assim (nova pausa; a tia passa os olhos pela audiência): E diz assim (voz trêmula e alta, expressão estremunhada) – Onde estou? Que mundo é este?” As histórias da tia não são apenas contadas, são também representadas.
A menina adora, ela e os primos criam até uma bolsa de valores de histórias: História da tia vale três pontos. História dos outros, um ponto. E se uma história dos outros for muito boa? Um ponto e meio! Mas sem dúvida a história preferida, a grande campeã entre as campeãs, a mais pedida e a mais ouvida das contadas pela tia — Vamos dar quatro pontos pra esta? — é A Coruja e o Gavião.
Mãe extremosíssima, a coruja cuida com amor e desvelo dos seus filhotes, que acha lindos: “A coruja, coitadinha/ Bem sabe que não é bela / Mas não crê que seus filhotes / Se pareçam com ela.” Uma grande ameaça, porém, paira sobre a coruja e sobre as outras mães da floresta: um gavião terrível invade os ninhos e come os filhotes (a menina mal pode acreditar que existam seres assim tão malvados no mundo). Muito aflita, mamãe coruja resolve procurar o gavião. Em desespero, pede-lhe pelo amor de Deus que não coma os seus filhotes, únicos bens da sua vida, suas únicas riquezas (a menina e os primos desfrutam o momento, sentindo-se importantes). O gavião, que no fundo não era mau sujeito, apenas faminto, sente pena da coruja, e termina por concordar em não lhe devorar os filhos. “Mas como vou reconhecer os seus filhotes?”, pergunta. A coruja não tem dúvidas: “Eles são os mais bonitos / da floresta inteira!” Bem intencionado, naquele dia o gavião devora os filhotes mais feios da floresta. Ao encontrar o ninho vazio, a coruja entende o que aconteceu e, em desespero, voa até o gavião, gritando-lhe revoltada: “Ó gavião traidor / Ó traidor!”
A esta altura, a tia já está de pé, fazendo-se ora de gavião, ora de coruja, expressando toda a dramaticidade da cena. Em meio a fortes, contraditórias emoções, em prantos a menina abraça a tia — ao fazê-lo, está abraçando todos os grandes contadores de história do mundo. A menina não quer abandonar aquele mundo inventado, pede: Conta mais uma?










