terça-feira, 16 de junho de 2009

Konstantinos Kaváfis


Ele é considerado o mais importante poeta grego da primeira metade do século XX, e um dos maiores do mundo em sua época. Konstantinos Kaváfis (grafa-se também Constantino, Konstantino, Constantinos, Cavafis, Caváfis, Kavafis... Tanto faz, pois o nome é originalmente escrito em alfabeto grego) nasceu e morreu (1863-1933) em Alexandria, Egito, de família grega, originária de Constantinopla. Devido a problemas econômicos, seus pais trocaram Alexandria pela Inglaterra quando Kaváfis era criança, ali vivendo durante sete anos. Este período inglês — reforçado por visita à Grã-Bretanha, quando o poeta era adulto — foi muito importante para Kaváfis, que se tornou grande conhecedor e admirador da literatura inglesa, escrevendo inclusive poemas em inglês (além dos que escreveu em grego, a maioria, e dos poucos em francês).
De volta a Alexandria, viveu tempos de grande dificuldade econômica, até conseguir emprego na Bolsa de Valores, onde trabalhou durante muitos anos. Escreveu poemas desde bem jovem, mas se manteve afastado dos eventos e círculos literários. Publicou seus poemas em revistas literárias ou simplesmente os ofereceu aos amigos. A primeira coletânea de sua poesia foi publicada em 1935, dois anos após sua morte.
Kaváfis esteve várias vezes na Grécia e visitou a França, mas Alexandria foi o centro de sua vida. Homossexual assumido, levou vida discreta, incorporando o tema da homossexualidade à sua poesia. Seus versos unem as tradições helenísticas (pelas quais era apaixonado), que têm mitologia e formas literárias próprias, às preocupações e à linguagem do tempo em que viveu, inclusive com o emprego, pouco usual à época, da linguagem coloquial. Poeta de extraordinária imaginação, Kaváfis tem hoje uma legião de admiradores em todo o mundo. Existem traduções de seus poemas para o português feitas por portugueses e por brasileiros.

O poema a seguir é provavelmente o mais conhecido de Kaváfis. Foi ao lê-lo que me apaixonei pela poesia do autor, daí em diante sempre que posso retornando aos seus versos:

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

(Tradução: José Paulo Paes. Para tradução do mesmo poema por Haroldo de Campos, clique
aqui)

O poema a seguir sempre me comoveu. Não descubro onde está seu apelo, sua magia. Só sei que o releio sempre:

O Sol da Tarde

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

...De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só . . . Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.


(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

Este é outra maravilha, em tradução de José Paulo Paes:

Muros

Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.
E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.

E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.
Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.

Para encerrar, esta obra-prima:

Quando Elas Despertam

Procura guardá-las, Poeta,
por poucas que sejam de guardar,
do teu amar as visões.
Coloca-as no meio ocultas nas tuas frases.

Procura detê-las, Poeta,
quando em tua cabeça elas despertam,
de noite ou na luz crua do meio-dia.

(Tradução: Jorge de Sena)

[Recentemente, Antônio Cícero postou "Quando Despertam", lindo poema de Kaváfis, em seu
blog. Vários leitores acrescentaram lá , nos comentários, outros poemas/traduções do poeta. O Adriano Nunes sugeriu que eu postasse "Muros" aqui. Foi por causa dessas relembranças de Kaváfis que decidi escrever este post.]

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Colo


Têm dias, sabe, em que me sinto completamente sozinha no mundo. Tô fazendo alguma coisa - passeando, por exemplo, ou estudando -, aí me bate uma solidão absoluta, como se ninguém existisse no planeta, apenas eu, perdida entre as altas dunas amarelas de um deserto onde o vento é tão forte que me seca o corpo e carrega para sempre a minha alma. Nesses momentos é ótimo encontrar seus olhos escuros, atentos, atenciosos. Só eles conseguem me trazer de volta a luz e a alegria do mundo.

Às vezes eu me sinto muito fraca diante da vida. Todos são mais bonitos, mais fortes, melhores do que eu. Os meus colegas são mais espertos, as minhas amigas, mais belas, e até Juliana, a irmã caçula, está conseguindo muito mais sucesso do que jamais tive. Sou poeira, cisco que a ventania leva para onde quer e depois deposita junto aos caranguejos da lama. A mais fraca de todos os seres, nem consigo carregar meu próprio peso. Ando curvada. Sugada por alguma força misteriosa, minha energia escorre por um ralo enorme que nem sei onde está. Por isso, de noite, me tranco sozinha no quarto. Choro sem ninguém ver, baixinho, cara enterrada no travesseiro. Se no caminho pro meu quarto, porém, eu encontro você, e se você, parecendo que percebe o que vai dentro de mim, ou mesmo sem perceber você me abraça, me beija, me afaga, então vou sentindo renascer a vida, no começo fraca, aos poucos mais intensa, espalhando-se pelo corpo desde o centro, o meu umbigo. Às vezes melhoro tanto que desisto de chorar. Vou ficando por ali mesmo, plugada na sua tomada, mina das minhas energias. Afinal, se você gosta de mim, diabos! eu não posso ser tão fraca e ruim assim.
Lembra da última vez em que tratei você super mal, quando lhe fiz aquela má-criação tamanho gigante? Eu andava nervosa, tudo naquela época estava dando errado pra mim. Até o papagaio da vizinha implicava comigo! Descontei em você, a mais próxima, a primeira que me apareceu pela frente naquela noite, reclamando não me lembro mais do quê. Fui grossa demais. O pior é que nem notei, mergulhada na minha própria vidinha, no meu redemoinho particular, apartada dos sentimentos alheios. Só muitos dias depois percebi o tamanho da minha estupidez, e sabe como? Senti falta do seu riso. Meu astral já estava melhor, o mundo parecia aos poucos voltar aos eixos, mas, se era assim, por que então aquela tristeza, logo na hora do jantar? Vi de relance seu rosto cabisbaixo, olhos desconsolados acompanhando os movimentos da faca na toalha... Na saudade do seu riso, lembrei da minha explosão de dias antes, juntei causa e consequência. O remorso que senti, sei, foi egoísta: “Não posso feri-la de novo”, lembro que pensei, “pois eu não suportaria viver sem o riso dela.”

Só pra terminar: até hoje, do que mais gosto na vida são dos seus colinhos! Tô sabendo - sou grande demais pra colo, nunca sei direito onde colocar esses braços e pernas tão finos que cresceram desmesuradamente, escapando desordenados para todos os lados, sei que dói em você quando pulo em cima... Mesmo assim, repito: eu, a garça pernalta, até hoje adoro o seu colinho! Ele é como um útero, acolhedor e calmo, silencioso, quentinho... Traz paz. Seu colo é bom demais, minha filha!

[ Este texto faz parte de uma série que estou escrevendo para adolescentes]
*Imagem daqui

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Quem somos, mesmo?



Uma conhecida anedota conta que, ao criar o Brasil, Deus caprichou: praias belíssimas, terra fértil, água abundante, paisagens de tirar o fôlego, vegetação esplendorosa, clima ameno... Sentindo-se injustiçados, os outros países logo protestaram junto a Deus, que lhes respondeu:
— Calma, esperem só para ver o povinho que eu vou colocar lá!
A anedota desnuda uma das mais significativas representações da nação brasileira, presente tanto nas idéias, sentimentos e imaginação populares, quanto nas produções e círculos de intelectuais, artistas e profissionais da mídia. O núcleo dessa representação reside na profunda separação entre, de um lado, a “terra boa”, o belo país “abençoado por Deus e bonito por natureza” cantado por Jorge Benjor, de que nós, brasileiros, tanto nos orgulhamos, e, de outro lado, o “povo ruim”, a gente brasileira que não está à altura da beleza e fertilidade do país. A “ruindade” do povo (ou seja, a “ruindade” de cada um de nós), dependendo de quem fala, de quando fala e para quem fala, é explicada pela mistura ou degeneração das raças, pela preguiça, corrupção, presença de degredados, falta de patriotismo, séculos de colonialismo, escravidão, superexploração econômica, herança católica ibérica, malandragem, preconceitos, atraso, etc.
Essa postura inferiorizada costuma vir alternada com efusivas, e igualmente obsessivas, afirmações acerca das maravilhas do país Brasil, não só da sua terra, mas do seu povo, apresentado como cordial, guerreiro, alegre, honesto, amigo, sem preconceito racial, inteligente, musical, obediente, capaz, heróico, patriota, atleta e trabalhador, um povo muito melhor do que qualquer outro existente no planeta. Esse conjunto de idéias afirmativas e orgulhosas, que com freqüência descamba para o nacionalismo exaltado, representa a outra face da mesma moeda.
Os dois tipos de representação, tanto a que nos deprime como a que nos exalta, remontam ao início do período colonial, e vêm de muitas formas se adensando entre nós. Elas nos envolvem a todos em suas teias invisíveis, a ponto de existir hoje, no país, uma obsessão nacional acerca da própria identidade, num grau e intensidade que não acontece nos Estados Unidos nem nos países europeus.
Como um pêndulo, nós nos movimentamos entre a sensação de que, no fundo, há algo de profundamente errado conosco, de que nunca “damos certo” — incapazes que somos de construir a nação que desejamos; e, no pólo oposto, a também persistente sensação de que somos fantásticos, maravilhosos, capazes de estourar a boca de qualquer balão, e por isso exibimos esse imenso e desmedido orgulho de sermos brasileiros.
Nos limites desse pêndulo — que é uma armadilha —, nós vivemos nos perguntando obsessiva, agitada, angustiadamente que país é este, e qual será o nosso destino: um mítico abismo infalivelmente nos ronda, mas um pote de ouro e felicidade também nos espera logo ali, na esquina do futuro. Deslocados, vivemos em busca de nossa identidade.
[Este meu texto saiu publicado na úlima “Revista de História da Biblioteca Nacional”, Ano 4, nº 45, Junho 2009, atualmente nas bancas.]

terça-feira, 2 de junho de 2009

domingo, 31 de maio de 2009

O lobisomem de Iagos


Na cidade de Iagos, interior do Brasil, moram três lobisomens.
O mais velho é meu pai. Está vivo há tanto tempo que não se lembra mais onde nasceu nem quem eram seus pais. De vez em quando, ele é assombrado por visões estranhas, que lhe provocam fortes dores de cabeça e o deixam angustiado. Nessas ocasiões, vislumbra ao longe florestas perdidas no cume de montanhas, altíssimas montanhas nevadas. É um lugar encantado, lugar isolado, onde não existem pessoas, cores nem ruídos. Há apenas silêncio, tempo suspenso no ar. No meio da clareira de pinheiros, à luz da lua, ele vê uma loba lambendo carinhosamente um bebê deitado no chão. Meu pai sente que essas visões de alguma forma se relacionam às suas origens, mas não pode garantir que a loba seja sua mãe, a minha avó.
O pai apareceu em Iagos em meados do século XVIII, quando isto aqui era terra de garimpo e o ouro dos rios enlouquecia a imaginação dos homens. A riqueza era tanta, diziam, que até no papo das perdizes se encontravam grãos de ouro e pedras preciosas. Ávidos de fortunas, confiantes no futuro, mineradores de todas as partes do mundo acorriam para se enfiar neste buraco, de onde muitos nunca mais saíram. Iagos nasceu da ganância, filha dileta da luxúria, como até hoje o velho padre Zezinho gosta de pregar em seus sermões aos domingos, esmagando-nos a todos de culpa, devido a esse pecado original.
Meu pai mudou-se para Iagos porque sempre gostou do garimpo. A agitação e o perigo o fascinam, ele adora o burburinho, o esbanjamento, a violência, a confluência de sonhos, as mulheres desgarradas e aventureiras, as lutas e as loucas histórias dos mineradores. Até hoje, mais de duzentos anos depois, quando o ouro em Iagos se tornou apenas tênue, longínqua, orgulhosa lembrança dos bons tempos que se foram, até hoje ele não consegue resistir. Toda madrugada levanta-se, solitário, saindo a esburacar os bancos de areia dos rios, em busca de gramas de ouro que não mais existem e que ele sabe que não mais existem. Várias vezes o encontrei nessa procura inútil, cabeçorra enfiada na bateia, a separar com cuidado cascalhos que os olhos cansados não conseguem distinguir.
Acho que busca um mundo. Sente saudade da juventude, quer recuperar séculos que se passaram e quase apagaram o passado, revive a nostalgia de um mundo antigo, cujos ecos se encontram nas douradas catedrais, no casario colonial e na conformação irregular dos be¬cos de Iagos, mas se escondem também no ínimo de si mesmo, em sua consciência. Lobisomens são mesmo desse jeito. Sofrem crises monumentais de saudade, pois há mais recordações dentro deles do que possibilidade de memória. Desse conflito brota o sentimento do passado incompleto e irresolvido, provocando as dores de cabeça e a angústia das visões. Nada mais são, essas visões alucinadas, do que lembranças de tempos idos e queridos que a memória não consegue restaurar.
Ainda muito jovem, recém-chegado a Iagos à época da mineração, meu pai apaixonou-se por Dandara, filha caçula de um escravo fugido morador no Quibano, quilombo aqui perto, na Serra das Esmeraldas. Reservado a respeito de intimidades, o pai nunca me deu a ousadia de uma única confidência sobre esse grande amor antigo. Não importa. Sei de tudo por essa lenda de Iagos, até hoje contada pelos velhos cegos às crianças, que a escutam sem respirar, olhinhos brilhantes de prazer:

[Primeiro capítulo do meu romance "Dandara" (S.Paulo, Maltese, 1994, edição esgotada). Estou selecionando partes dele para integrar um livro que ando preparando. ]

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tocando a vida


Não eram lembranças. Não havia nomes, personagens, enredos, histórias, nada que ela pudesse identificar.
Eram lampejos. Raios que irrompiam de repente em sua vida, dentro da escola, no banho, lavando louça, no trabalho, onde estivesse surgiam e sumiam aqueles clarões, estilhaços, sem que ela soubesse que coisas eram.
Aconteceu assim durante anos, desde pequena, vida afora. Como pesadelos se repetiam, tudo muito rápido mas tão intenso e verdadeiro e doloroso que não era possível fazer de conta que não existiam.
Achou que seriam defeitos dos seus olhos estrábicos. Certa vez, deprimida, convenceu-se de que eram alucinações, provas de que, afinal, sempre fora meio maluca. Arritmia, epilepsia, esquizofrenia? Os médicos lhe disseram que não. Se nenhuma das anteriores, o quê, então? Ao longo da vida buscou explicações para aqueles terremotos internos. “São bobagens, de um jeito ou de outro todo mundo sente alguma coisa parecida, não liga não”, um namorado meigo lhe soprou certa vez ao ouvido, acalmando-a com carinhos. Deixou-se convencer, afinal o namorado era ótimo, beijava como ninguém, e ela não podia mesmo ficar presa a uma besteira sem nome, precisava tocar a vida.
Tocou a vida o melhor que pôde. Casamentos, filhos, trabalho, divórcios, falta de grana, mudanças, sonhos feitos, desfeitos, refeitos, tombos, fantasias. Houve época em que, feliz, quase se esqueceu dos lampejos que em centésimos de segundo faziam tudo tremer à volta, destroçando seu mundo.
Os truques da experiência lhe ensinaram a conviver com aqueles sem nome que a atormentavam. Apertava bem os olhos, para não cair segurava com força a primeira coisa sólida ao redor, respirava fundo algumas vezes, e... pronto. Eles se iam, deixando no ar apenas seu rastro passageiro: um risco de fogo, uma centelha ou fenda muito estreita, um arrepio... Causavam também, é verdade, desconforto profundo, persistente sensação de mundo deslocado, de vertigem, de coisas completamente fora de lugar, mas contra isso nada podia fazer, a não ser empurrar tudo para o fundo, bem para o fundo e para dentro, e ir tocando a vida.
Um dia a vida a tocou. Viu-se diante de tantos impasses, becos sem saída, cofres cujos segredos perdera, portas cerradas, fracassos, que decidiu buscar apoio.
Encontrou um grupo, formado por pessoas que, como ela, procuravam ajuda para situações de vida difíceis. Dirigido por profissionais, este grupo, concentrado em uma fazenda por dias, submeteu-se a um trabalho psicológico. Por meio de técnicas variadas, cada um do grupo buscava identificar em si os padrões emocionais e de comportamento que lhe atrapalhavam a vida, para superá-los.
Ela se entregou totalmente à experiência, a cada exercício deixava cair paredes, véus, punhais, armadilhas, espelhos, ataduras, escudos, petardos, a cada dolorosa descoberta deixava entrar ar fresco no porão, raios de lua iluminando o rio, respingos de cachoeira nos cabelos, pelo corpo sensações de prazer, insuspeitas renovações internas, descobrimentos de mundos.
No penúltimo dia, um nervosismo extremo, uma urgência de algo que não sabia o que era. Angustiada, andou de um lado para outro na fazenda inteira sem encontrar lugar, andou tudo de novo mas não descobriu o seu lugar, dor infernal no peito, no corpo inteiro, vontade incontrolável de chorar... E aqueles lampejos, aqueles tremores, aquelas descargas elétricas internas que por falta de nome chamava raios, relâmpagos, terremotos, tudo voltou com força, diversas vezes, uma descarga após a outra, quase sem intervalo.
Desta vez, não quis chorar na frente dos outros nem com os outros. Abandonou o trabalho do grupo, enfiou-se sozinha no quarto, jogou-se na cama, chorou como nunca pensou ter lágrimas. Exausta, adormeceu.
E sonhou.
Ao acordar, seguindo orientação dos psicólogos, imediatamente anotou o sonho. Anotou tudo sem pensar, escrevendo muito rápido para não deixar fugir as imagens. Ao terminar, largou o caderno. Sentiu necessidade de tomar banho.
Cabelos lavados, fresca, sentou-se sozinha na varanda, para ler o próprio sonho. Quase desmaiou. Não teve nenhuma dúvida: aquilo acontecera com ela! Não era apenas um sonho, era uma memória... recuperada! Seu texto:

“Sonho estranho. Uma menina pequena, com 3, 4 anos, brinca numa sala. Brinquedos espalhados pelo chão e sofá. A menina está descalça, só de calcinha. Feliz, entretida com os brinquedos. Tem cabelo cacheado.
Cena 2: a mesma menina, deitada sobre o sofá, de frente para a parede. Deitado atrás dela, encostado nela, um homem. O sonho é da perspectiva da menina. Ela não vê o homem. Ela sente o homem. A menina está um pouco assustada, mas não muito, porque conhece aquele homem.
Cena 3: Na mesma sala anterior, uma conversa maluca entre a mesma menina e seu cérebro adulto. Isto é: o cérebro é o intelecto da menina depois que ela se tornou adulta. Menina e intelecto têm a seguinte conversa:
M – Intelecto, deixe de racionalizar, de se enganar! Quem viveu esta cena não foi você, adulta, fui eu, criança!
I – Então me conte como você viveu — você nunca me contou!
M – Eu sou pequena. Então, o meu coraçãozinho é pequeno. E ele nem fica escondido como o seu, de adulta, não. Na verdade, eu inteirinha sou um coração, um coração que anda, um coração que brinca, aqui, em toda a sala.
I – Ah, é? E o que foi que lhe aconteceu? Conta pra mim!
M – Eu tava brincando toda felizinha na sala, só de calcinha, quando de repente, POU! O meu pai veio com um cacete e... POU! Atirou o cacete em cima de mim, bem na minha cabeça-coração, e eu, puft! Caí desmaiada no chão.
I – Como assim, menininha? Não estou entendendo a cena – sei pai entrou de repente na sala com um cacete?! Como era este cacete?
M – Era grandão, igual ao do Barney e do Fred Flintstone.
I – Sei. Ele estava vestido como?
M – De Barney. Então ele chegou pelas minhas costas, eu não vi, ele chegou por trás e... plaft! Arrumou o cacete com toda força em mim, e eu morri.
I – O que você sentiu, criança?
M – Eu morri.
I – Antes de morrer, o que você sentiu?
M – Doeu, doeu, doeu... e eu morri.”


Chorou muito.
De repente, as coisas começaram a fazer algum sentido para ela. Os dolorosos raios e relâmpagos eram traços, sinais que emitia para si mesma desde um tempo e uma sala muito antigos, vividos na infância. Memória insuportável, que enterrara no lugar mais escondido, remoto, recôndito que pudera encontrar: no mesmo túmulo onde há décadas sepultara a menina morta.
Lembrou-se de uns versos: “Assassinei a criança / Que tinha dentro me mim.” Mas não se lembrou do autor dos versos.

[Este texto integra a blogagem coletiva “Em Defesa da Infância”, proposta pelo blog Diga não à erotização infantil. Dia 18 de maio foi o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, e hoje, 25, é o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas. Vários blogs aproveitaram essas datas para postar imagens, textos e sons sobre esses assuntos infelizmente tão atuais. Desculpo-me por não ter postado o selo da blogagem, mas, retornando de viagem longa e me reorganizando ainda, só reparei nele há pouco.]

terça-feira, 19 de maio de 2009

Cadê ela?


a verdade

A verdade mora
numa casa antiga
de uma rua estreita:

de dia ela chora
de tarde nem liga
de noite se enfeita.

Então, vai à luta:
bebe muito, escuta
bobagens sem fim.

Insiste inda assim
muito seriamente
em dançar do seu jeito,

quase com respeito
por quem a assedia.
Nunca perde o viço

porém esclarece
a quem já comece
a querer namorá-la

que, rainha da sala,
não tem compromisso.

Leandro Konder

[Filósofo, cientista político, professor universitário no Rio de Janeiro, autor de diversos livros, Leandro Konder tem sido um dos melhores pensadores de esquerda no Brasil. Curioso, inquieto, questionador de prontas e fáceis verdades, inclusive as do marxismo de que é adepto, foi também romancista e, de vez em quando, bom poeta, como prova o poema acima. Este poema integra "Memórias de um intelectual comunista" (Editora Civilização Brasileira), sua autobiografia, que terminei de ler hoje, emprestada de meu amigo Geraldo de Majella. Gostei do livro, pela clareza, honestidade, elegância e bom humor com que Leandro Konder apresenta a própria trajetória e, ligada a ela, a de uma determinada geração de intelectuais brasileiros. O livro é uma delícia, comprovando, mais uma vez, que ser intelectual não tem nada a ver com ser chato.]

domingo, 17 de maio de 2009

Miseravelmente derrotada pelo teclado francês!


Amigos, amigas, juro que a minha intenção era ótima: ir registrando aqui no blog, à medida que aconteciam, experiências e impressões da viagem maravilhosa que estava fazendo a Portugal e à França, em abril. Até que comecei bem, postando as primeiras sensações de Lisboa, aquela vertigem de se reconhecer no país do outro. Ao chegar à França, ainda postei um pequeno texto.
Até ser completamente derrotada pelo mais letal inimigo dos interneteiros: o teclado francês (azerty), muito — muuuito — diferente do teclado que usamos. Francês gosta de ser original, eu sei — mas precisava criar um teclado diferente do que o resto do mundo usa? Nos cibercafés, eu teclava “Estou no sanatório de Saint Rémy, onde Van Gogh se internou voluntariamente...”, e aparecia na tela algo como “Erwwg nh swnwyu...”. Demorava tanto tempo para eu corrigir o texto, ou para tentar escrevê-lo corretamente — tempo pago em euros —, que logo desisti. Além disso, não é em todo lugar, como aqui, que havia cibercafés. Eles eram raros no sul da França — pasmem!
Assim que cheguei ao Brasil, tive de me submeter a uma cirurgia, que me imobilizou a mão esquerda. Ainda não tirei os pontos, mas já consigo teclar estas bem traçadas linhas (pois no teclado internacional he he), pra ir matando as saudades de vocês. Prometo recuperar o tempo perdido, não à maneira de Proust, mas à minha mesmo: relendo os textos atuais e antigos dos blogs amigos e postando frequentemente. Beijos!

sábado, 28 de março de 2009

Viajando


Queridos amigos, comecei ontem uma viagem que deve durar até o início de maio. Por enquanto estou na Bahia, para o aniversário de 87 anos de meu querido pai, e para alguns compromissos. Daqui vamos (maridão junto) voar um pouco por esse mundo de meu Deus. Não vou levar o laptop, nem sei se conseguirei acesso frequente à internet. Vou tentar, sim, para registrar algumas impressões de viagem , para fazer contato com vocês - sem os quais não consigo mais viver! - e para não deixar que vocês se esqueçam de mim. Puxa vida, não quero perder vocês, não quero me perder de vocês. Um beijão, um abraço, um até logo.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Poemas sobre a infância


[ Somente grandes poetas sabem escrever sobre a infância, este tema tão visitado, importante e difícil. Abaixo, dois poemas sobre memórias da infância, duas diferentes aproximações. Abraços! Hoje acordei menina].

Velha Chácara


A casa era por aqui...
nde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...
— Mas o menino ainda existe.

( Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent´Anos)


O Maestro Sacode a Batuta

O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe ...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
tirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo ...

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...

(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos ...

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

(Fernando Pessoa, Cancioneiro)

*Imagem daqui

quinta-feira, 19 de março de 2009

Indignação



O primeiro sinal, eu o senti há exatos vinte anos: abri o jornal e, horrorizada, li que o filho de uma amiga, um rapaz que eu conhecia bem, fazia parte de uma quadrilha que acabara de ser descoberta. Composta por profissionais e estudantes universitários, a tal quadrilha recebia dinheiro de vestibulandos para, depois de falsificar documentos, prestar os exames de vestibular no lugar dos candidatos. Cursando o quarto ano de Biologia, o filho da minha amiga passaria fácil em qualquer vestibular.

Imediatamente, pensei em minha amiga e em seu marido, que eu conhecia há anos. Ambos honestíssimos, ele ligado à Justiça, ela ocupando cargo de projeção na universidade. Deviam estar arrasados com a notícia. Decidi ir à casa deles, para ver se poderia ajudar em algo. Lá chegando, assisti à seguinte cena: chorando, minha amiga dizia ao filho que não compreendia como ele podia ter agido assim, contra todos os princípios em que fora educado, e, afinal, sem estar passando por apertos financeiros, já que recebia dos pais o que necessitava para viver. A resposta do filho, em tom irritado, foi: “Mãe, todo mundo age assim, hoje todos querem tirar a sua vantagem, conseguir algum. Vocês me dão o necessário pra viver, sim, mas eu quero mais, quero muito mais! E quer saber? Você e papai, com essa história de honestidade, são uns bestas, uns idiotas!”.

Foi meu sinal vermelho. Percebi que nossa crise não era apenas socioeconômica, mas também uma violenta crise de valores, que subvertia tudo e se reproduzia sozinha, à medida que alcançava os jovens. Daí em diante — ou seja, nos últimos vinte anos —, só vi a corrupção, de corpos e almas, aumentar no Brasil. Um escândalo atrás do outro, do Oiapoque ao Chuí, em todos os níveis da administração pública e da iniciativa privada. Não vou enumerar todos, pois vocês os conhecem bem, e não quero enlamear meu blog, mas, só pra lembrar alguns de agora: os 181 (!!!) diretores do Senado, a corrupção na polícia paulista (foi o último escândalo: mas antes teve também na carioca, gaúcha, mineira, pernambucana, e por aí vai), os fortes sinais de corrupção no Judiciário... Moro num dos Estados mais pobres do Brasil: pois quase a metade dos deputados estaduais alagoanos foi afastada, por fortes indícios de corrupção (Operação Taturana), mas assim mesmo eles insistem em retornar, sabem por quê? Porque cada um recebe, no conjunto, contando as verbas de gabinete, cem mil reais por mês. Isso, num Estado em que grande parte da população não consegue alcançar um salário mínimo!!!

Essa crise de valores é sistêmica, atinge o país inteiro, está entranhada em todas as nossas instituições. Sempre foi assim? Desde o período colonial temos aqui uma elite em grande parte ávida por ganhar, explorar ao máximo e, se possível, depois se mandar. É histórico, isso. Mas tenho a impressão de que, nas últimas décadas, a nossa ganância aumentou e se espalhou. Será por que hoje se investiga e se puna mais do que antes? É possível (a criação do Ministério Público foi um avanço), mas não é só isso. A corrupção aumentou, mesmo. Alguns valores que aprendi, como honestidade, respeito ao próximo, dignidade, eram naturais a certas camadas da população — às pessoass do campo, operários, setores médios, determinadas elites, inclusive políticas. Eram, portanto, valores sociais. Mas hoje parecem ter sumido do nosso cardápio, ou ficado nos corações e mentes de poucos, que, encantuados, não estão conseguindo fazer valer suas idéias. Foram substituídos pelo alpinismo social, pela ambição desenfreada, por essa postura de ganhar e vencer a qualquer custo que acompanha as sociedades emergentes (e também as ricas, quando em crise).

O pior é que não estou conseguindo enxergar saídas, a não ser as de sempre, que não parecem mais surtir efeito: protestar (como faço aqui), aliar-me aos que protestam, ajudar a organizar a sociedade, votar bem (mas acho o sistema eleitoral, aparentemente democrático, viciado), e por aí vai. Na verdade, a única mudança profunda em que ainda acredito é a conseguida via educação. Mas... apesar de um ou outro progresso, falar de educação no Brasil é falar de uma das nossas maiores mazelas e vergonhas sociais.

É isso. Desculpem-me o mau jeito, o pessimismo, a impotência. Eu só queria desabafar um pouco. E também que vocês soubessem: quando escrevo sobre qualquer coisa — quando posto um poema, um conto, uma canção, uma brincadeira —, trago sempre esse conjunto de questões, aflições e indignações dentro de mim. Elas nunca me abandonam. São como um filme que passa sem parar no fundo da minha mente, um filtro que me insulta e me diz quem sou.
[Imagem daqui]

domingo, 15 de março de 2009

Jorge Luis Borges, o poeta




















O BORGES QUE ESCOLHI
Sidney Wanderley

Não o celebrado e exaurido cantor
dos tigres de Bengala e Sumatra,
das refutações do tempo,
do horror aos espelhos
(que, como as cópulas,
multiplicam os homens),
dos punhais e dos compadritos,
das espadas e dos labirintos,
de Dante, dos vikings e das kenningar
e dos rios e das rosas e de Rosas;

sim o fazedor de versos
sem metafísica e certeiros:
“o olor interminável dos eucaliptos”
“minhas lembranças, antigas até a ternura”
“a água crapulosa de um charco”
“o incêndio, com ferozes mandíbulas, devora o campo”
“um céu da cor da gengiva dos leopardos”

e que severamente vaticina:
“Te espera o mármore que não lerás.”

Recebi hoje estes belos versos de Sidney Wanderley, em que canta o Borges poeta. Isto me fez lembrar que Jorge Luis Borges é mais conhecido entre nós por sua prosa, especialmente pelos contos magníficos de O Aleph e Ficções. Mas foi como poeta que Borges começou, com Fervor de Buenos Aires, Lua de Fronte e Caderno San Martín (de 1923, 1925 e 1929, respectivamente), como foi aos poemas que Borges retornou, na maturidade. E poeta o múltiplo Borges sempre se autointitulou.
Além do poema de Sidney, acrescento aqui dois poemas do próprio Borges, para sempre nos lembrarmos da beleza e da grandeza de sua poesia (falando nisso: a Cia. das Letras acaba de lançar Poesia, de Borges, edição bilíngue com tradução de Josely Vianna Baptista):

EL SUICIDA

No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.


O S UICIDA
Não restará na noite uma estrela.
Não restará a noite.
Morrerei, e comigo a soma
do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas,
os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Transformarei em pó a história, em pó o pó.
Estou mirando o último poente.
Ouço o último pássaro.
Deixo o nada a ninguém.

(Borges, "El Suicida", in: La Rosa Profunda. Tradução de Renato Suttana)


EL SUR
Desde uno de tus patios haber mirado
las antiguas estrellas,
desde el banco de
la sombra haber mirado
esas luces dispersas
que mi ignorancia no ha aprendido a nombrar
ni a ordenar en contelaciones,
haber sentido el circulo del agua
en el secreto aljibe,
el olor del jazmin y la madreselva,
el silencio del pájaro dormido,
el arco del zanguán, la hemedad
–esas cosas, acaso, son el poema

O SUL
De um dos pátios ter olhado
as antigas estrelas,
o banco da
sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim e da madressilva,
o silêncio do pássaro adormecido,
o arco do saguão, a umidade
- essas coisas são, talvez, o poema.

(Borgers, in: Fervor de Buenos Aires. Tradução de Jorge Schwartz)

quinta-feira, 12 de março de 2009

O filme da minha vida


Amigos, vocês gostariam de participar desta blogagem coletiva, proposta pela Vanessa, do Fio de Ariadne? Funciona assim: vocês vão lá no Fio, inscrevem seu blog, e, nos dias da blogagem— 29 e 30 de abril —, postam seu texto. Assim, vamos ficar conhecendo o filme da vida de cada um de nós! E ainda conheceremos um monte de blog bacana. Eu acho que os meus filmes são dois.... por motivos completamente diferentes, he he.

sábado, 7 de março de 2009

Para o Dia Internacional da Mulher

[Escrito em 1941, este poema de Jacinta Passos expressa a situação da maioria das mulheres brasileiras daquela época. Neste Dia Internacional da Mulher de 2009, dedico-o às muitas mulheres do Brasil e do mundo que, quase setenta anos depois, infelizmente ainda vivem na mesma situação. Desejo que, em breve, graças às ações de todos nós, este poema seja evocação do passado.]

Canção simples

Jacinta Passos

A flor caída no rio
que a leva para onde quer
sabia disso e caiu,
seu destino é ser mulher.

Leva tudo e segue em frente,
amor de homem é tufão,
o de mulher é semente
que o vento enterrou no chão.

Mulher que tudo já deu,
homem que tudo tomou,
é mulher que se perdeu,
é homem que conquistou.

Mulher virgem, condição
para homem dar – nobre gesto –
resto duma divisão
se a divisão deixou resto.

No sangue, a honra é lavada
de homem que mulher engana,
mulher que vive enganada
coitado! fraqueza humana.

A flor caída no rio
que a leva para onde quer,
sabia disso e caiu,
seu destino é ser mulher.

[In: Jacinta Passos e Manoel Caetano Filho. Nossos Poemas. Salvador, A Editora Bahiana, 1942]

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Millôr Fernandes

















Para mim, é nosso maior intelectual vivo. Ninguém tem obra tão vasta, original, variada, erudita, crítica, brilhante e divertida como a dele, atualmente. Ninguém escreve e desenha com a mesma qualidade dele; ninguém cria textos e traduz com a excelência dele. Como é humorista, muitos, erradamente, não o levam a sério nem lhe prestam a devida atenção. E, como tem publicado grande parte de seus escritos e desenhos “aos pedaços”, isto é, em revistas, muitos perderam a noção da importância do conjunto da sua produção.

Millôr Fernandes é uma espécie de consciência crítica da nação. Ao longo de décadas, seus escritos, charges, livros, caricaturas, desenhos têm a marca inconfundível do seu olhar informado, experiente, irônico e muitas vezes cínico, que nos ensina: “Não é como você pensa, não: é assim que se passa isto; aquilo vai dar naquele beco sem saída; este líder é um bestalhão; aquele se esqueceu de que já morreu.” Millôr sempre foi uma voz independente, jamais se deixou atrelar a partidos, grupos, líderes. Livre pensar é só pensar: um de seus motes. Quando, numa atitude bem brasileira, nós nos mostramos doidos para sermos enganados — tipo me engana que eu gosto —, lá vem uma charge, uma frase, uma aquarela do Millôr para nos alertar, cruamente: “Você não pode se enganar, meu bem: por baixo deste manto, existe a podridão.” Ele nos põe todos, e ao país, a nu. Millôr Fernandes nos faz rir de nós mesmos, seu humor corrosivo destruindo qualquer farsa. E, de lambuja, ainda nos dá uma compreensão mais completa, mais funda, da existência.

Além da produção jornalística, Millôr escreveu diversas peças de teatro, poemas e livros, e fez também primorosas traduções, Shakespeare inclusive. Para conhecer um pouco da sua obra, clique no título deste post, que o transportará ao site dele (é verdade que, se você não for assinante do Uol, só vai ver um poquinho). Somente a título de magro aperitivo, eis algumas de suas pérolas, colhidas ao acaso em A Bíblia do Caos (L&PM, 2002):

“Deus fez o sol. O Demônio inventou o dinheiro, que brilha muito mais.”
“O problema de ficar na fossa é que lá só tem chato”.
“Só a imaginação destrói para a eternidade”.

“Até hoje, no Brasil, só houve uma reforma agrária ampla, verdadeira e eficiente — a das capitanias hereditárias. Para sempre hereditária.”

“Quem não sabe, acredita.”

“Todo cego moral se julga um guia de povos.”
“Meu ideal é que até a hiena pare para pensar um pouco antes de rir de mim.”

A biografia de Millôr Fernandes desafia teorias psicanalíticas e sociológicas. Nascido em 1923 no subúrbio do Méier, com um ano ficou órfão de pai, e com dez, de mãe. Ele e os três irmãos (entre eles, o jornalista Hélio Fernandes), foram separados e encaminhados para casas de parentes, sofrendo dificuldades emocionais e financeiras. Aos 17 anos, descobriu que seu nome não é Milton, como pensava, mas Millôr, devido a um erro do funcionário do cartório. E Millôr ficou para sempre, iniciando o que seria uma de suas marcas registradas: reverter a má sorte a seu favor.
Aos 14 anos, ingressou numa redação de jornal, onde passaria grande parte da vida, fazendo de tudo. Entrou para a revista O Cruzeiro, que logo se tornou a mais lida no Brasil. Aí, Millôr — com o pseudônimo “Vão Gogo” — criou O Pif-Paf, onde desenhava e escrevia já com o traço e o humor incomparáveis. Foi um dos fundadores de O Pasquim, o jornal de humor que reinventou o jornalismo brasileiro e, sob todo tipo de censura, nos ajudou a respirar e suportar os anos da ditadura. Millôr raramente dá entrevistas. E não é modesto: sabe do seu valor. Abaixo, um trecho da sua Autobiografia de mim mesmo à procura de mim próprio:

"E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras — reco-reco, tatibitate, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada. Quem é que sou eu? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois, as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda com o destino, e ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.”
* Charges de Millôr deste site

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