quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Eugénio de Andrade

O Desejo


O desejo, o aéreo e luminoso
e magoado desejo latia ainda;
não sei bem em que lugar
do corpo em declínio mas latia;
bastava abrir os olhos para ouvir
o nasalado ardor da sua voz:
era a manhã trepando às dunas,
era o céu de cal onde o sul começa,
era por fim o mar à porta - o mar,
o mar, pois só o mar cantava assim.

(Eugénio de Andrade, O Outro nome da terra, 1988)

Três ou quatro sílabas

Neste país
onde se morre de coração inacabado
deixarei apenas três ou quatro sílabas
de cal viva junto à água.

É só o que me resta
e o bosque inocente do teu peito
meu tresloucado e doce e frágil
pássaro das areias apagadas.

Que estranho ofício o meu
procurar rente ao chão
uma folha entre a poeira e o sono
húmida ainda do primeiro sol.

(Eugénio de Andrade, Véspera da Água, 1973)

Que fizeste das palavras

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

(Eugénio de Andrade, Matéria solar, 1980)

Eugénio de Andrade (1923-2005) é um dos maiores poetas do século XX, e um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos (não por acaso um dos meus preferidos!). Nascido em Póvoa de Atalaia com o nome de José Fontinhas Rato, mudou-se para Lisboa aos dez anos de idade, com a mãe, separada do pai. Em 1943 transferiu-se para Coimbra, onde conviveu com intelectuais como Miguel Torga e Eduardo Lourenço, voltando depois a Lisboa. Contudo, foi homem sedentário, de poucos deslocamentos, viajando através da literatura: instalado em 1950 na cidade do Porto – que considerava a sua cidade, e da qual foi cidadão honorário -, aí viveu cinquenta e cinco anos, até morrer. E, inspetor administrativo do Ministério da Saúde, exerceu a mesma função durante trinta e cinco anos, até aposentar-se, por haver sempre se recusado a prestar concursos para promoção. Fez sólidas amizades entre os escritores, mas, dedicado à literatura, não participou de vida literária nem social. Recebeu prêmios importantes (para os quais não se inscreveu), como o Camões (2001) e o Pen Clube (1984). Existe hoje em Portugal uma fundação dedicada ao escritor.

Eugénio de Andrade foi sobretudo poeta, autor de numerosos livros escritos ao longo do tempo, entre eles os aqui nomeados sob cada poema, e mais, entre outros, As Mãos e os Frutos, Mar de Setembro, Escrita da Terra, Limiar doa Pássaros, Memória Doutro Rio, Matéria Solar, Oficio da Paciência, O Sal da Língua, Os Lugares do Lume e Os Sulcos da Sede. Escreveu também (pouca) prosa, como À Sombra da Memória, além de dois livros para crianças. Foi tradutor, sendo ele próprio um dos escritores portugueses mais traduzidos. Sua obra necessita urgentemente de republicações, reedições, seleções e estudos no Brasil.
* Imagem daqui

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O livro da minha vida




[Este post integra a ótima blogagem coletiva proposta pela Vanessa em Fio de AriadneCor do texto, sobre o livro da sua vida — não necessariamente o mais bem escrito ou o melhor, mas O livro, aquele que fez toda a diferença pra você.]
Ainda me lembro perfeitamente do dia em que comecei a ler Cem Anos de Solidão, em 1967, há mais de quarenta anos (pronto, já entreguei minha idade: só Gabriel Garcia Marquez pra fazer isso com a gente!). O livro acabara de sair no Brasil, fazia um calor senegalês no Rio, eu voltava da praia. Vi de relance, na vitrine de uma livraria do caminho, essa capa aí da esquerda, não resisti, entrei e comprei o livro. Em casa, após o banho, me deitei de bruços no chão e comecei a ler. Nunca mais fui a mesma.
Hoje, passado tanto tempo — Gabriel Garcia Marquez é Prêmio Nobel de Literatura, o realismo mágico explodiu e foi exaustivamente praticado, estudado, sugado e cuspido —, hoje é difícil entender o impacto tremendo de Cem Anos de Solidão sobre alguém. Mas quando, desavisada, eu aportei em Macondo, nunca mais quis sair de lá. Macondo era a cara do mundo que eu conhecia e não sabia dizer, do que eu vivenciava porém não nomeava nem compreendia. Tudo ali me era familiar, mas, ao mesmo tempo, tudo me foi revelado pelo livro. Minha sensação — eu, maravilhada —, era a de alguém me pegando pela mão e me dizendo: isso aqui se nomeia assim, daqui em diante isto vai se chamar assim... Como se eu reconhecesse, pela primeira vez, o que é o Brasil e o restante da América Latina (que eu não conhecia ainda, mas intuía).
Aquela confusão eterna de Macondo, a sujeira, a beleza, a desordem, as sete gerações de Buendías de nomes repetidos e infinitos casamentos endogâmicos, as trinta e duas revoluções — revoluções que ninguém entendia, porém se repetiam e se repetiam e se repetiam, tumultuando para sempre o mundo —, aquela personagem Remédios, a mulher mais linda do mundo que ascendeu aos céus para nunca mais retornar, aquele Álvaro, o que tudo vendeu para entrar numa viagem de trem que nunca termina ( ainda está acontecendo), aquele Aureliano Buendía de muitíssimas mulheres e dezessete filhos porém incapaz de amar, aquela história do futuro dos Buendía encontrada num antigo pergaminho ... Aquilo era eu: pela primeira vez, totalmente identificada com o universo de um livro. Aquilo não era eu: era literatura, era a realidade transformada, transfigurada para outra dimensão.
* Imagens: à esquerda, capa da quinta edição, a mesma da primeira, em que li o livro; à direita, capa da edição comemorativa dos 40 anos de publicação de Cem Anos de Soldião, 2007.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sobre personagens e escritores


Alguns leitores do meu conto Desejos (como todos os dias), postado abaixo, sugeriram outros possíveis finais: quem sabe a Dolores não realizava suas fantasias? Ela poderia ter encontrado o marido em situação mais comprometedora... quem sabe o marido com o padre? Ela devia ter voltado à padaria (dois votos), e por aí foi.

Vou compartilhar com vocês algumas ideias e sentimentos que tive ao escrever o final desse conto. Aproveito, assim, para tocar num assunto que me interessa muito: as relações - confusas, tempestuosas, tipo ataque de nervos - entre personagens e autores. Vou explorar um pouco esse pântano, esse céu sempre incerto de ódios, paixões, incestos e amores.

Demorei para escrever o final de Desejos, e quando o fiz, escrevi esse que saiu publicado. No entanto, ele não me agradou. "Mas que coisa, então vou largar a Dolores assim, na confusão, sem nada, depois de fantasiar tanto?", eu pensava, frustrada. Não há nada em comum entre mim e a personagem Dolores, somos praticamente opostas. Nem sei como ou por que ela surgiu como meu personagem. Assim, eu, Janaína, não aceito para mim relações amorosas de dominação/submissão, como a da Dolores, e eu, Janaína, não tenho nada a ver com a vida interiorana da Dolores. Contudo, para escrever sobre a Dolores, principalmente para escrever da perspectiva dela, como no conto, eu tive de me aproximar da Dolores, conhecê-la, me por à disposição dela. Como um ator, acho, faz ao interpretar um personagem.

Nesse momento de interação personagem-escritor, caem os valores e julgamentos (não importa o que eu acho da Dolores, nem se concordo com ela, importa que eu transmita o que ela é). Nesse momento da criação, prevalece o amálgama, o abraço entre autor e personagem: o autor abre caminho para o personagem, torna-se seu "cavalo" (para usar a expressão do candomblé), o meio para sua criação expressar-se. Quanto maior, mais íntima essa interação, melhor o personagem, mais verdadeiro, humano e sedutor.

Bom, mas, criada a Dolores, eu não me sentia satisfeita com seu destino: "Ah, essa história não vai acabar assim", resolvi. E, exatamente como me sugeriram agora alguns leitores, escrevi um novo final, e, nele, mandei Dolores de volta à padaria: decepcionada com o marido, humilhada, ultrajada, ela decidiu resolver a parada com o padeiro, completando o que não tinha tido coragem antes de fazer. "Boa, Dolores, dá-lhe, isso mesmo", comemorei.

Mas... alguma coisa ainda me incomodava. "Ainda não está bom", pensei. "Tem alguma coisa neste conto que não está funcionando. Vou deixar o texto dormir mais um pouco."

Certo noite, sonhei com uma solução: escrever quatro finais, todos possíveis; o leitor escolheria qual quisesse, ou ficaria com os quatro. Assim fiz: o primeiro final era o que foi publicado; no segundo, Dolores voltava à padaria, disposta a transar com o padeiro; no terceiro, ela abandonou todas as inibições no casamento, levando o marido a desinibir-se também, e o conto termina com ela transando com o marido sujo de graxa, na garagem dele, ela só de camisetinha vermelha; finalmente, no último ... Não cheguei a escrever esse último - seria a fuga de Dolores, com o padeiro e o filho, para o Rio de Janeiro - porque continuava insatisfeita. "Isso não está funcionando. A idéia é boa, mas o texto está ruim. Não está verdadeiro." E lá foi o texto dormir mais uma vez no fundo do meu computador.

Tempos depois, ao reler tudo, concluí: "O primeiro final é o melhor. Esta é a verdadeira Dolores, é isso o que ela faria, isso foi o que ela fez: ao flagar o marido, ficou apavorada, confusa e dolorida, sentindo a vida toda revirada, mas sem ação. Pode ser até que, depois, ela fizesse alguma coisa, tomasse alguma atitude, mas eu não sei qual. Então, este conto acaba assim." E o postei.

Não sei se é o melhor final. Certamente não é o que eu, Janaína, gostaria que fosse. Mas foi o que senti literariamente mais verdadeiro, o mais fiel à personagem Dolores. Posso dizer que, após brigar por um tempo com a personagem, retornei à ela e à sua perspectiva, consegui de novo abrir passagem para sua vontade, tornei-me de novo a sua voz.

Final feliz, então, para esse imbroglio todo? Possa ser, como se diz na Bahia. Mas não tenho tanta certeza: afinal, quem me garante estar interpretando bem os desejos da personagem que criei? Quem me garante que, pensando falar por ela, na verdade falo apenas por/de mim?

O que vocês acham disso tudo?

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Desejos (como todos os dias)




— Pai, afasta de mim a tentação...

Dolores sussura mais uma vez a súplica, apressando o passo em frente à padaria. Não posso vê-lo de novo, não posso, não agüento...
Esmaga o dinheiro na mão, procurando fixar o pensamento nas compras do mercadinho: abóbora, maxixe, batata, banana da terra... Ainda bem que amanhã vou fazer o cozido, isso vai me ajudar a esquecer o corpo jovem, musculoso, brilhante de suor do... Droga — ele, de novo! Qualquer pensamento, até mesmo sobre o cozido, me arrasta de volta pro corpo deste padeiro!
Já se pegou pensando nele, no banho. Sob a água do chuveiro, sua mão imperceptivelmente deslizou barriga abaixo. Não fazia aquilo há tantos anos... Nem se lembrava mais como era bom! Quase desmaiou de prazer, pernas bambas, boca entreaberta dizendo palavrões no ouvido do deus louro. Encostou-se no espelho pra não cair. Fantasiou o corpo nu do padeiro ali grudadinho no seu, sexo com sexo, sexo no sexo. Lambeu cada pedaço dos músculos do peito dele, os pêlos louros encaracolando dentro da sua boca...
— Doloooores!
O grito do marido zuniu pela casa até bater-lhe no ouvido, assassinando a fantasia.
Todo mundo sabe Mário é um maridão. A rua inteira tem inveja dela. Até bate três vezes na madeira, quando alguém pronuncia o nome dele.
— Maridão que nem esse seu, Dolores, não existe. Põe as mãos pro céu, minha filha, tu tirou foi a sorte grande! – dona Almerinda, a vizinha, sempre lhe diz. Coitada dela, também, casada com o demônio do Alair, que some no breu da noite e só volta pra casa dia claro, sem um tostão no bolso, tropeçando nos pés de tanta pinga, olho boiando nas órbitas... A pobre da Almerinda é que tem de se virar sozinha, lavando roupa dia e noite pra sustentar os meninos.
Mário, não. Mário sempre ali ao seu lado, exemplo de marido, zeloso da casa e do Juninho. Nunca bebeu. Nunca se meteu com mulheres. Sempre a respeitou. Pega cedo na oficina, deixa o batente só quando o último freguês sai. Oficina pequena, de uma porta só, mas com freguesia maior até que a do turco da praça. Mário sem exigências. Come de um tudo, gosta de arroz e feijão e uma mistura, e, em dia de festa, dobradinha. Qualquer trapo serve: “Vou sujar de graxa, mesmo. Quero é que você e Juninho tenham as coisas, se vistam bem. Eu não preciso de nada."
O único luxo de Mário é sua antena parabólica. "Pra que isso?", estranham os vizinhos, examinando com desdém e inveja a majestosa antena a projetar-se da janela do quarto. "Amigo", Mário responde paciente, mão no ombro do enxerido, "Eu tenho insônia, quase não durmo. Um horror! Todas as noites passo horas e horas acordado, a mulher ferrada no sono, mas eu, não: corujão, olho arregalado. Pra me distrair, assisto filme a madrugada toda. Por isso assino essa tevê paga”, explica. “Meu único vício. Não gasto com mulheres, com bebida, cigarro, nada. Só essa assinatura de tevê. Chego do trabalho, e antes mesmo de tomar banho, já tranco a porta do quarto pra ninguém me aborrecer, caio na cama e... plic! Ligo a tevê”, diz.
Aniversário de dez anos de casamento amanhã, dez anos sem nenhuma briga séria. Mário tem só um defeito: é careta, conservador demais. Não deixa ela usar roupa curta, transparente nem apertada; não permite que fique “batendo perna na rua” com as amigas. Não aprova nem mesmo sua novela das oito! “Credo, Mário, que atraso! Isso também já é demais, sabia? O mundo mudou! Eu, hein!”
Verdade que ela também não é desses avanços todos. Criada na roça, família muito católica, quando casou veio direto pra esta pequena Santa Rosa... Lembra-se do dia em que umas primas distantes, adolescentes interessadas em esportes radicais, chegaram de supetão pra se hospedar na casa deles. Queriam percorrer as trilhas do Morro dos Macacos, tomar banho na Cachoeira Alta, essas coisas. Shortinhos mínimos, umbigos à mostra, pernas e bundas de fora, peitos soltos balançando sob as camisetas curtinhas, lá iam elas bater perna pela cidade. Eu, hein, meninas mais oferecidas!
— Dão mais que chuchu... – entreouviu o comentário do vizinho no ouvido de Mário.
Cara fechada, o marido imediatamente a trancou no quarto, exigindo que pusesse “aquelas duas putas” pra fora de casa. Deus do céu, como é que ia fazer isso com as primas, com que cara? Mário não quis saber: se elas não saíssem até o dia seguinte, ele mesmo as expulsaria, a pauladas. Quando finalmente tomou coragem e se aproximou das moças, para conversar, flagrou as duas às gargalhadas, uma delas dizendo:
— Essa prima é uma idiota! Não vê como ela se veste, feito viúva velha! O tempo todo na igreja ... Vive na Idade da Pedra!
— Pois hoje eu vou comer o marido dela lá na oficina, ha ha ha... Sempre quis traçar um mecânico cheio de graxa!
Isso facilitou a expulsão das duas, mas a deixou indignada. Feito uma idiota cozinhando e lavando pras primas, enquanto as duas se exibiam pelas ruas, e ainda por cima queriam lhe tomar o marido! Ah, essa não, era o que lhe faltava! Que fossem pro inferno! Benzeu-se. Mário tem toda razão. Sou da Idade da Pedra mesmo, gosto é de vida dentro de casa, cuidar de marido e filho. Não quero confusão pro meu lado.
Caminhando, relembra agora o dia do seu casamento. Dez anos atrás. Entra na igreja de braço dado com o pai, magrinha, magrinha — só depois ganhou este corpão —, vestido bem rodado pra disfarçar os ossos. Mário cumpriu todas as promessas que lhe fez naquela igreja: amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza... E ela agora, querendo retribuir a dedicação do marido com sonhos malucos de se esfregar nua no corpo do padeiro!
Enfia-se pela rua do mercadinho, suplicando:
— Pai, afasta de mim essa tentação...
Mas se já fizera de tudo pra esquecer esse homem que irrompeu em sua vida como uma flecha, sem pedir licença, sem perguntar se podia, se ela consentia, armado apenas com a força brutal dos seus músculos, do seu sexo! Ainda por cima atrevido, o filho da mãe! Gosta de agarrar seus dedos por baixo do embrulho do pão, piscar-lhe o olho, soprar beijos que se aninham entre seus seios, entre suaas pernas, na...
— Pai, afasta de mim...
Quando não tem mais ninguém na padaria, diz: “Gostosa”, “Tesuda”, “Bunda boa”, olhando direto nos olhos dela, a ponta da língua molhada devagarinho em torno da boca. Sem vergonha! Quantas vezes jurou nunca mais voltar à padaria? “Ando mais três quarteirões e resolvo pra sempre meu problema”, decide todo dia de manhã, mas à tardinha, ah, à tardinha, quando o cheiro do pão quente invade a sala e acende o desejo, à tardinha já não pensa no filho, em Mário, na casa, não pensa simplesmente, só quer voar, pássara faminta, ao encontro dele, do seu feixe de músculos, seu padeiro do pescoço largo, do braço másculo, do pau gr...
— Dois quilos de tomate, seu Antônio. Vou levar também esta banana da terra e a batata doce... Ah, e abóbora! Amanhã cedo Juninho vem buscar as folhas, viu? Separe as mais frescas.... Aqui está seu dinheiro. Não esqueça do nosso cozido amanhã à noite, seu Antônio, o senhor e dona Celeste. Tchau! Sim, dou seu abraço no Mário.
O sexo de Mário é calmo. Sempre foi, mesmo no começo do casamento. Não é ruim, é bom. Como Mário: confortável, seguro; doméstico. Gosto de arroz com feijão, uma mistura. No começo, ela sentia falta... do quê? Não sabia. Era um oco por dentro, uma gastura, por sua pele corriam comichões desordenados, remelexos, arrepios solteiros... Às vezes se enchia de coragem, conduzia a mão de Mário até o seu sexo, no auge do amor gritava palavras obscenas que não sabia onde aprendera, comprava à prestação camisolas de renda preta, dormia sem calcinha para provocá-lo, oferecia a bunda.... Mário: “Dolores, você é maluca?”, e tapava a sua boca, e cobria a sua bunda, e vestia-lhe a blusa, escondendo seu desejo. Trazia-a de volta para o sexo dele, carinhoso, tranqüilo: matrimonial. Estava certo aquilo? Perguntou às amigas, tentou falar com Mário. Ele desconversava, uma vez sussurou uma esquisitice, qualquer coisa como “Meu pau não cresce muito, mas eu compenso”.
Depois do nascimento de Juninho, sossegou. Ocupou-se do filho, passou a pensar pouco em sexo, a praticar menos ainda. “Você amadureceu, Dolores”, Mário disse, satisfeito. Concordou, orgulhosa. Isso até...
... o demônio do padeiro aparecer, acordando sonhos mortos! Despertando desejos loucos, reavivando delírios! O que fazer desse fogo que não me deixa dormir, e, se eu durmo, incendeia meus sonhos? Como aplacar esse terremoto que tira completamente minha pequena dose diária de felicidade? O padeiro tem a resposta, escrita no embrulho cheiroso do pão: “Espero você amanhã oito horas rua das Oliveiras 33 minha casa não tem ninguém só nós dois vem não vai se arrepender”.
Dez pras oito, já! Ajeita as compras do cozido na sacola. Escondida lá no fundo, a camisola preta. Não é longe, andando rápido chegará a tempo na rua das Oliveiras. Corpo alvoroçado, desejo na pele, ela inteira transformada em sexo, flor preta e vermelha a gritar pela rua sua fome e sua sede. Fantasia o corpo nu do padeiro de bruços na cama. Beija os pelos louros dele, que acompanham a linha da coluna, do pescoço até a curva da bunda, a bunda mais gostosa que já sentiu. Revira o padeiro em todas as posições, abre-lhe as pernas, fantasias de gozo e....
— Dona Dolores, que coincidência! Estava pensando justamente na senhora! Temos de organizar muitas coisas para a missa de domingo – sobressalto, a mão branca e fina puxa-a para dentro da igreja.
— Nossa, que susto, padre Felício! – mão sobre o coração disparado. — Não, agora não posso, tô atrasada, amanhã a gente conversa, eu....
— Amanhã não é o dia do seu cozido, dona Dolores? Então! Amanhã a senhora não vai ter tempo, e há coisas muito urgentes aqui...
— Mas, padre...
— Onde é que a senhora vai? – pergunta brusca, olho no olho.
— Eu, eu.... – olho abaixado.
— Pois então! Não se pode recusar o chamado de Deus – com firmeza o padre a arrasta com para a sacristia.
Quando terminam a conversa, às nove e cinco da noite, sente-se outra mulher. Foi Deus quem botou padre Felício no meu caminho! Foi Deus, pra me impedir de fazer loucura. Respira aliviada. Quase fiz a maior besteira da minha vida, ia me arrepender pra sempre! Ajoelha-se em frente ao altar, reza dez ave-marias e dez padres-nossos, em agradecimento ao padre Felício e ao Divino Espírito Santo.
Vira na direção oposta à que veio. Acho que Mário vai gostar de me ver, assim, de surpresa. Inventei tanta história, pra poder sair hoje! Juninho tá passando a noite na casa da comadre Rosa, então quem sabe nós dois, eu e Mário... ri sozinha. Sou doida, mesmo!
Entra na cozinha. Pelo reflexo da televisão no corredor, sabe que Mário já chegou. Vou dar um beijinho nele, lá no quarto. Pode ser que a comemoração dos nossos dez anos comece agora mesmo, hi, hi ... Segura o cordão de prata, escondido no fundo da caixa de costura. Olha com ternura o pequeno embrulho, presente de aniversário de casamento pro marido, as dez prestações todas pagas, dinheiro economizado das compras, um pouquinho a cada dia, pra ele não perceber. Leva o pacote até o quarto. Vai bater — Mário sempre se tranca lá dentro, com sua tevê —, mas percebe a porta entreaberta. Ele achava que não haveria ninguém em casa...
Empurra a porta. Descobre Mário masturbando-se diante de um filme pornô, tão concentrado que nem a enxerga. Estaca à porta, pernas trêmulas. Virgem Maria, o que é isso? Na tevê duas mulheres transam, uma lambendo a outra, pernas abertas. Seus olhos pasmos desviam-se da tevê para Mário, nu na cama. O sexo em riste dele exibe um desejo imenso, intenso, urgente, insuspeito, um desejo que ela jamais imaginara existir, nele ou nela, nem mesmo nas suas fantasias mais loucas sobre o padeiro nu, doido desejo descontrolado de Mário, desejo de homem que vara o mundo e explode em gozo, contaminando para sempre o lençol, a cama, a parede, o ar, as pernas, o sexo, a barriga, o coração, a vida, ah! a vida dela para sempre revirada, revolta, às avessas, ai, a vida dela...
("Desejos", de Janaína Amado - regras para reprodução: Creative Commons)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Como as fragatas que voam - o mergulho



Nestas férias (longas) mergulhei em sensações: afeto, liberdade, prazer, irresponsabilidade, amizade, alegrias, cheiro de sal, de mar, de ar marinho, ligeireza dos siris, areia nos pés, vertigens. Bom demais. Mergulhos desde o ar até o fundo do mar.

Difícil agora voltar ao batente, como se, tal qual as fragatas, estes grandes pássaros voadores da foto, eu teimasse em achar que posso viver apenas no ar. Ou de ar. Ou no mar.

Mas eu sou touro, sou de touro: regresso teimosamente à terra. Que os meus textos tenham os sabores do mar, a leveza do ar, a consistência da terra.

Amigos, cá estou de volta, para oferecer-lhes meus textos e para ler os seus textos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Até a volta



















De férias, vou perambular pelo nordeste com um querido grupo de amigos, retornando a 15 de janeiro.
A cada um de vocês, tão importantes para mim, deixo: beijo, abraço, carinho, e este assombroso poema, do grande poeta (infelizmente pouco conhecido) José Godoy Garcia. Até a volta!

O sol vermelho e verde está aqui ao lado do pássaro.
O sol vermelho e verde está ao lado do lagarto.
Aqui, nesta terra onde assassinam, roubam, seviciam.
E nos dizem que é este o caminho, a verdade, a luz.
Aqui, bem na cabeça do homem está o sol.
Aqui, bem na foz do rio.
Os cavalos mortos estão desde a madrugada.
Os cavalos tiveram suas cabeças decepadas.
A montanha ao longe está sempre falando ao homem.
(José Godoy Garcia. "O Flautista - 1ª Rapsódia", em Poesia. Brasília: Editora Thesaurus, 1999)

domingo, 28 de dezembro de 2008

O futuro é espaço

Nesta passagem de ano, em que o tempo nos ronda a todos, quando decidimos o que abandonar em 2008 e o que conservar e criar em 2009, quando fazemos planos e sonhos e músicas e laços para o próximo ano, desejo a todos vocês um 2009 de coragem, tolerância, amor, fantasia e saúde, ao mesmo tempo em que lhes ofereço este poema de Neruda, sobre o futuro. Feliz Ano-Novo!!!

El futuro es espacio

El futuro es espacio,
espacio color de tierra,
color de nube,
color de agua, de aire,
espacio negros para muchos sueños,
espacio blanco para toda la nieve,
para toda la musica.

Atrás quedó el amor desesperado
que no tenía sitio para un beso,
hay lugar para todos en el bosque,
en la calle, en la casa,
hay sitio subterrâneo y submarino,
qué placer es hallar por fin,
subiendo
un planeta vacío,
grandes estrellas claras como el vodka
tan transparentes y desabitadas,
y allí llegar con el primer teléfono
para que hablen más tardes tantos hombres
de sus enfermedades.

Lo importante es apenas divisarse,
gritar desde una dura cordillera
y ver en la otra punta
los pies de una mujer recién llegada.
Adelante, salgamos
del rio sufocante
en que con otros peces navegamos
desde el alba a la noche migratoria
y ahora en este espacio descubierto
volemos a la pura soledad.
[Pablo Neruda. Memorial de Isla Negra. Buenos Aires: Editorial Planeta Argentina, 1992. Edição original: 1964]

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal na Ilha do Nanja


Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas.

Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos próprios" e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim. Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.

Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: "Boas Festas! Boas Festas!"

E ninguém pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!

Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.

Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.

É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.

[Cecília Meireles, "Natal na Ilha do Nanja", in: Vários autores. Quadrante 1, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966.]

domingo, 21 de dezembro de 2008

José Paulo Paes




Ele sempre foi um dos meus poetas preferidos, daqueles que a gente nunca se cansa de reler, redescobrir. Sua palavra precisa, seu domínio do verso, seu poder de concisão, habilidades a cada livro mais afiadas e refinadas, sobretudo seu humor e seu olhar irônico, cético, crítico e ético do mundo — olhar cada vez mais pessoal — me conquistaram para sempre. Agora, quando a Companhia das Letras está lançando sua Poesia Completa, volto com todo o prazer a falar dele e a mostrar um pouco de sua poesia.
José Paulo Paes sabia residir na concisão a essência do poema. Ele a foi perseguindo e conquistando, e produziu maravilhas como estas, sobretudo a partir de Calendário perplexo (1983):

Poética

conciso? com siso
prolixo? pro lixo

Epitáfio para um sociólogo
deus tem agora
um sério concorrente


Celebridade
Eu sou o poeta mais importante
da minha rua.
(Mesmo porque a minha rua
é curta.)


Sucessão

o concretismo está morto
viva a poesia
concreta

Múltiplo, escreveu também poemas longos, assim como deliciosos, inventivos poemas para crianças, reunidos em vários livros. Foi crítico literário de alto nível. Foi também excelente tradutor — aprendeu grego somente para traduzir do original os poetas da Grécia que amava, sobretudo os modernos, como Kaváfis, que difundiu pelo Brasil, ao lado de outros importantes escritores de outras partes, como Williams Carlos Williams, Rainer Maria Rilke, Edgar Allan Poe, etc. Talvez por isso seja um dos raros poetas a valorizar tradutores:
Do Evangelho de São Jerônimo
A tradução — dizem-no com desprezo — não é a mesma
coisa que o original.

Talvez porque tradutor e autor não sejam a mesma pessoa.

Se fossem, teriam a mesma língua, o mesmo nome, a mes-
ma mulher, o mesmo cachorro.

O que, convenhamos, havia de ser supinamente monótono.

Para evitar tal monotonia, o bom Deus dispôs, já no dia da
Criação, que tradução e original nunca fossem exata-
mente a mesma coisa.

Glória, pois, a Ele nas altura, e paz, sob a terra, aos leito-
res de má vontade.


Aproximou-se dos modernistas e concretistas, porém, com exceção do primeiro livro (muito inspirado em Drummond), não se deixou influenciar excessivamente, no sentido de permitir o abafamento de sua voz, por quaisquer tendências literárias. Seu compromisso era com a qualidade da poesia. Homem de esquerda, porém sem se filiar a partidos, foi crítico — indignado no início, irônico depois —, da mercantilização excessiva e da exploração, da sociedade de consumo, enfim, assim como defensor da ética. Escreveu poemas de amor para a mulher, Dora, companheira da vida toda.

Madrigal
Meu amor é simples, Dora.
Como a água e o pão.

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.


Cena Legislativa

Primeiramente condenou-se a pomba
Por amar uma paz entorpecente
Onde o leão perde a juba e a hiena os dentes.

Depois, condenou-se o cordeiro
A perigosa dúvida que o anima.
O rio dos lobos corre sempre para cima.

Condenou-se a cigarra, finalmente.
Pelo crime de cantar nas horas vagas.
Que a faina das formigas não tem paga.

Consolidada a ordem, festejou-se.
E o leão rugindo, a hiena rindo,
Os trabalhos foram dados por bem findos.

Tomar: mutatis mutandis

a capela dos templários em tomar é tão grande quanto o
palácio de herodes e nela os cruzados assistiam à missa
montados em seus corcéis.
a sinagoga de tomar é tão pequena quanto uma estrebaria
onde só houvesse lugar para uma vaca um burrinho e
um recém-nascido.

Nascido em 1926 em Taquaritinga, interior de São Paulo, José Paulo Paes mudou-se aos dezenove anos para Curitiba, a fim de estudar química industrial. Inspirado talvez pelo avô tipógrafo, nessa época já demonstrava amor pela literatura: ligou-se aos intelectuais de Curitiba (1945-49), colaborando na revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan, e publicando suas poesias no livro O aluno (1947). Na cidade de São Paulo, onde viveu de 1949 até falecer, em 1998, trabalhou como químico e, a partir de 1963, como editor da Cultrix. Nos últimos dez anos de vida, aposentado, dedicou-se integralmente à literatura, produzindo muito como poeta, crítico e tradutor, e reunindo em torno de si um círculo fiel de intelectuais amigos, com quem adorava dialogar. Foram seus anos de alforria, como gostava de dizer. Publicou muito ao longo da vida, destacando-se, em poesia, seus livros Meia palavra (1973), A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988) e Prosas seguidas de Odes mínimas (1992). De saúde frágil, nos últimos anos de vida teve uma perna amputada; sobre este assunto, escreveu:
À minha perna esquerda


Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.

Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas
do mundo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Os (novos) rumos da história

Bruce Corbitt, Transformation

Ano-novo se aproximando, e neste momento mágico do calendário, quando um tempo se esvai e outro ainda não começou, sinto uma vontade incontrolável de mudar, transformar, revolucionar, criar. Abandono medo e culpa, faço planos ousados para o futuro, antevejo revoluções, incêndios, jardins, motins, alpinismos, colos, viagens exóticas, conquistas, vales perdidos, olho no olho do amor, do diabo, da trapaça, da revelação...

Um laivo de realismo, algum fio de bom senso me levam a começar pelo pequeno: que tal mudar primeiro este blog, construído na cara e na coragem neste ano que se finda, quando eu era completamente analfabeta em todo e qualquer aspecto da blogosfera, e, numa vertigem, me joguei neste mundo virtual que agora, analfabeta apenas funcional, e louca de paixão não abandono mais por nada deste mundo? Gostei do tom amarelado que primeiro escolhi para o blog, parecia-me sóbrio, lembrava-me os velhos livros de meu pai, e também do marrom de suas vinhetas, capazes de me transportar a tintas de antigos tinteiros que nem sei se existiram. Mas este enredosetramas ficou foi ruim demais de ser lido, atravancado, com letras juntinhas, sem ar, luz nem espaço... E, ainda por cima, o Bernardo, em quem eu me apoiava porque tinha um blog do mesmo modelo do meu, de repente abandonou o barco, digo, o blog, mudando o dele!

Sabem de uma coisa? Se meu blog continuar assim, amarelo-livro-velho e marrom-tinteiro, daqui a pouco vai atrair teia de aranha e cheiro de creolina, por mais que eu me esforce para apresentar conteúdo atual, instigante, interessante, até mesmo sexy, fizer strip-tease, etc. Sabem de outra coisa? Revoluções começam em casa! Aux armes, citoyens!

Pronto, já fiz. Mudei o visual. Espero que gostem. Com o tempo deve ficar melhor, porque aos poucos irei aprimorando fontes e cores. Se não gostarem, vocês e eu estaremos lascados, porque eu não tenho a mínima idéia de como voltar ao visual anterior. Mas me conformo pensando que as mudanças da história nem sempre são para melhor, he he
ÓTIMO ANO-NOVO A TODOS!!!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Florbela Espanca:os sentimentos expostos

[Este post integra a blogagem coletiva sobre Florbela Espanca proposta por Flor para hoje, 8 de dezembro, aniversário da grande poeta portuguesa. Descobri Florbela na adolescência, permanecendo desde então fiel à sua total falta de vergonha em expor, gritar, vociferar, uivar seus sentimentos ao mundo, inclusive os mais secretos e menos aceitos socialmente, em versos construídos com maestria. Creio que todos temos vontade de, vez ou outra, berrar ao mundo o quanto sofremos, o quanto nos sentimos sozinhos, abandonados, tristes, revoltados, inseguros, sem amor, auto-estima nem vontade de viver... Florbela diz isto por nós, com uma verdade e um despudor difíceis de alcançar. Seu grande tema é o amor irrealizado.]

Filha ilegítima, juntamente com seu irmão Apeles, de João Maria Espanca e da criada Antónia da Conceição Lobo, Florbela Espanca (1894 -1930) e seu irmão Apeles foram registrados como filhos de pai desconhecido. Contudo, ambos foram educados pelo pai e pela mulher dele, Antónia da Conceição Lobo. Estudante em Évora e acadêmica de Direito em Lisboa, Florbela ligou-se a movimentos literários e feministas, pulicando textos em revistas e jornais e dois excelentes volumes de poesias, Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923). As desilusões da vida amorosa — casou-se e se separou 3 vezes —, o intenso sofrimento devido à morte de seu adorado irmão Apeles, ao lado de sérios problemas de saúde conduziram a poeta a uma profunda depressão. Morreu aos 36 anos de idade, oficialmente de edema pulmonar. O pai a perfilhou só 19 anos após a morte dela, quando da inauguração de um busto de Florbela em Évora. Postumamente foram publicados outros livros da poeta, como Charneca em flor, além de diversos volumes de suas cartas.

Para ilustrar a poesia de Florbela Espanca, escolhi estes dois sonetos:

Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!

...Não 'stendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela,a soluçar...

Amar

Amar!Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Escrever por prazer

Caricatura daqui

Uns escrevem para se expressar, outros para se suportar, outros para ensinar... Mil são as motivações para escrever. Alguns escrevem para divertir, a si mesmos e aos outros: escrevem por prazer. É o caso de Bernardo Guimarães e Maria Judith Ribeiro, no livro Morte Abjeta (Salvador, 2002, edição dos autores). O próprio Bernardo, em seu blog, explica o livro:

"Maria Judith Ribeiro é minha amiga desde os anos 70. Em 72 namoramos e acho que não nos suportamos mais que seis meses e decidimos ficar amigos, que era mais negócio, se bem que ela nunca engoliu a história de Tuca, a namorada que veio em seguida; ficou por aí algo meio que mal resolvido. Até hoje a menção da palavra Tuca lhe causa reações inesperadas, como se mijar em publico ou me esbofetear se minha cara-de-pau (SIC) estiver a seu alcance. Nunca perdemos contato, apesar de serem sempre entremeados de acusações mútuas, recheadas de carinho. Maria sempre gostou muito de escrever, escrevia cartas de verdade, mandadas pelo Correio e tudo. Depois passou, não sem certa dificuldade devida à baixíssima coordenação motora, para o teclado e e-mails. Um belo dia recebi um desafio de responder, como se verdade fosse, a um texto que me enviaria no dia seguinte. E recebi. Ela me avisava que, ao retornar de suas férias, teria sido testemunha de um assassinato no seu lugar de trabalho. Respondi com minhas preocupações e a partir daí e por quase dois anos, passamos a nos corresponder até concluir o "caso". Quando recebia seu e-mail, Vera lia e gargalhava com as maluquices em nossa troca de textos e insistia em que devíamos publicar para que outros também pudessem rir. Foi assim que nasceu "Morte Abjeta", o livro.”
Gente, o livro é de chorar de rir. Os dois autores são engraçadíssimos, cheios de imaginação, anarquizam o tempo todo um com o outro, criam situações inusitadas, rocambolescas... e a gente não consegue parar de ler! Tem de tudo: morte abjeta (nojenta!), São Fudêncio, piadas, depoimento de gaúcho machão sobre homossexual sergipano, gozações mis com quase tudo (incluindo determinados aspectos da veneranda Justiça), acertos de contas com o passado, xingamentos, causos cabeludos e carecas... tudo isso ao tempero baiano. Eu me diverti muito — e como estava precisando! Tive a nítida sensação de que os autores se divertiram mais ainda. Valeu, gente, obrigada!
Passei por uma experiência parecida com a de Bernardo e Judith. Com mais nove autores, escrevi A Nave de Noé (Rio, Editora Record, 1999), livro todo de e-mails (como Morte Abjeta), dedicado ao público adolescente. A internet estava então começando a se espalhar pelo Brasil, e nós, um grupo formado por irmãos e primos residentes em diversas partes do país, alguns deles escritores, outros leitores contumazes, passamos a trocar e-mails entre nós. Trocamos tantos que, meio sem sentir, aos poucos fomos construindo o que depois se tornou o livro. Cada um criou e assumiu um personagem — eu, por exemplo, era a Janinha Sherlock —, que ajudava a desvendar (outra semelhança com Morte Abjeta) um grande mistério, em meio a aventuras, romance e muito humor. O livro foi feito assim: um de nós mandava um e-mail para o grupo todo, como se fosse o personagem do livro, e outro personagem respondia, fazendo a ação girar. Posso dizer que nunca me diverti tanto ao escrever. Escrever por prazer e para dar prazer é bom demais!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O velho Machado sabia


[Tenho a impressão de que Machado de Assis, no final de sua vida e da obra, sabia tudo que é possível a um homem saber sobre a existência. Ao ler sua imensa (nos dois sentidos) obra, me delicio sempre com a cultura, imaginação, estilo, perspicácia do autor... Sabia tudo, realmente. Abaixo, pequeno trecho de um ensaio onde Machado apresenta, com simplicidade, sua sugestão para o difícil, perene dilema do regionalismo X universalismo em literatura:]


“Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre do tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um "scotticismo" interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.”

"Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade", publicado originalmente em "O Novo Mundo", 24/03/1873.
Obra Completa de Machado de Assis,Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994]

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